A parceria rompida

Por Juliano Tatsch

Sem Bonifácio, muito provavelmente, Dom Pedro I não teria proclamado a Independência ou, se o tivesse, o processo teria sido completamente diferente. Bonifácio foi o esteio político no qual o príncipe se apoiou para vir a ser imperador.
Pois, a parceria durou pouco tempo. Ministro das Relações Exteriores do país recém-criado, Bonifácio presidia a Assembleia Constituinte instalada em 3 de maio de 1823. O imperador não estava gostando muito dos rumos que as deliberações dos constituintes estavam tomando, reduzindo cada vez mais os seus poderes. A pressão contra o gabinete do ministro aumento com o atentado contra o jornalista Luís Augusto May, redator do jornal Malagueta, de oposição ao regime, que teve sua casa invadida por um grupo de pessoas que lhe aplicaram uma surra. A autoria do ato foi falsamente atribuída à Bonifácio, quando, na verdade, fora realizado por homens próximos ao imperador.
Na prática, porém, o atentado foi uma desculpa perfeita para que Bonifácio fosse descartado em razão de suas proposições progressistas. Os grandes donos de terras os senhores de escravos não estavam nem um pouco satisfeitos com as ideias antiescravagistas (ele proporá a abolição do tráfico negreiro e a abolição gradual da escravidão) e pró reforma agrária defendidas pelo ministro.
As elites rurais da época de maneira nenhuma aceitariam mudanças na estrutura socioeconômica que havia lhes tornado ricos e poderosos. Para os latifundiários e senhores de escravos, tudo poderia ser debatido e mexido, menos os seus privilégios.
Fora do governo, Bonifácio e seus irmãos criaram um jornal oposicionista, O Tamoio, azedando de vez a relação com o imperador.
As pressões sobre a Assembleia Constituinte aumentaram e Dom Pedro I deu um ultimato aos parlamentares na manhã do dia 12 de novembro de 1823. Se suas exigências – restrição da liberdade de imprensa e expulsão de Bonifácio e seus irmãos da Constituinte – não fossem cumpridas, iria tomar providências. As providências, no caso, foram adotadas horas depois. Com a negativa dos deputados em acatar os pedidos de Pedro, o Parlamento foi dissolvido pelo imperador.
Bonifácio e os dois irmãos foram presos e exilados em 20 de novembro de 1823. Viveu na França até 1829, quando, após permissão para retornar à terra natal, chegou ao Rio de Janeiro em 23 de julho de 1829. Cinco anos e oito meses depois, pisava novamente no Brasil que ajudara a criar.
Perdoado pelo imperador, Bonifácio se tornou tutor do bebê Dom Pedro II (Reprodução/JC)
Perdoado pelo imperador, voltou-se a aproximar dele e por ele foi escolhido para ser o tutor de seu filho de cinco anos, após sua abdicação em 7 de abril de 1831. No documento que oficializou a nova função de Bonifácio, Pedro I o citava como “muito probo, honrado e patriótico cidadão” ao qual chamava de “verdadeiro amigo”. O patriarca da independência, por fim, completava sua jornada, preparando aquele que consolidaria o país como uma nação soberana.
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