Dom João VI, o artífice da separação?

Por Juliano Tatsch

Dom João VI teve papel fundamental no processo da Independência
O professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Luís Alberto Grijó entende a independência brasileira como o resultado de um processo amplo, em que diversos fatores tiveram influência decisiva.
O doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) aponta que os fatos ocorridos no dia 7 de setembro de 1822 foram o resultado de uma série de acontecimentos que tiveram início quando do desembarque da coroa portuguesa no Brasil, em 1808. “Para considerar o Brasil como separado de Portugal, a rigor 1808 já marca isso”, afirma.
O historiador argumenta que, quando o rei de Portugal, Dom João VI, e a família real chegam em 1808 fugindo da invasão de Napoleão Bonaparte, o Brasil se tornou o centro do império português. “Como vamos chamar de colônia o espaço que agora está albergando o centro imperial?”, questiona Grijó.
Nos anos seguintes após a chegada da corte lusitana em território tupiniquim, o futuro país foi ganhando autonomia, sendo a própria abertura dos portos (1808) um exemplo disso. Ou seja, a independência brasileira é o resultado de uma série de acontecimentos que, inclusive, não se encerraram com o grito dado ao lado do riacho Ipiranga. Na Bahia, por exemplo, as escaramuças entre tropas brasileiras e portuguesas só tiveram fim em 2 de julho de 1823, quase 10 meses após a declaração de Dom Pedro I.
Grijó traz, inclusive, outro ponto a respeito dos acontecimentos de 200 anos atrás. Para o professor, a volta da família real para Portugal em 1821 e a própria maneira como o reinado de Dom João VI encarou a independência brasileira foram, de certa forma, uma maneira dos Bragança manterem nas mãos as rédeas do Brasil.
“A ideia de deixar o Dom Pedro I aqui e Dom João VI retornar a Portugal está muito associada ao seguinte pensamento: talvez seja difícil manter o Brasil atrelado a Portugal, mas não é impossível manter o Brasil atrelado à casa imperial portuguesa. Que foi exatamente o que aconteceu. O Dom Pedro I, ao proclamar a independência, manteve para a casa imperial portuguesa o controle no Brasil”, aponta Grijó.
A observação do acadêmico se comprova nas próprias palavras de Dom João VI. “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiro”, disse o rei ao filho antes de partir de volta a Portugal.
Em razão disso, há quem diga, inclusive, que o próprio rei português foi o artífice oculto – ou não tão oculto – da independência brasileira, tramando, nos bastidores, para que a inevitável separação não ocasionasse a perda de poder e influência da família real no Brasil.