Gustavo Marchant Estagiário do GeraçãoE


Tecnologia

Na palma da mão: aplicativos gaúchos transformam a rotina e o mercado

Desenvolvidos em Porto Alegre, Passo Fundo e Campo Bom, ferramentas mostram como a inovação local pode descomplicar a vida de vendedores de rua, motoristas e operários
Na palma da mão e a um toque de distância no bolso, o celular se consolidou como uma central de soluções para a rotina de milhões de pessoas. O Brasil já é o quarto maior mercado global em tempo dedicado a aplicativos e ocupa o top 3 em downloads, com mais de 9,3 bilhões de baixas anuais, de acordo com o relatório State of Mobile, da consultoria data.ai. Se para a maioria o smartphone é sinônimo de consumo, entretenimento e redes sociais, no Rio Grande do Sul a tecnologia ganha espaço como uma ferramenta para descomplicar tarefas do cotidiano, aproximar pessoas e impulsionar novos negócios.
Na palma da mão e a um toque de distância no bolso, o celular se consolidou como uma central de soluções para a rotina de milhões de pessoas. O Brasil já é o quarto maior mercado global em tempo dedicado a aplicativos e ocupa o top 3 em downloads, com mais de 9,3 bilhões de baixas anuais, de acordo com o relatório State of Mobile, da consultoria data.ai. Se para a maioria o smartphone é sinônimo de consumo, entretenimento e redes sociais, no Rio Grande do Sul a tecnologia ganha espaço como uma ferramenta para descomplicar tarefas do cotidiano, aproximar pessoas e impulsionar novos negócios.
Um exemplo dessa dinâmica vem das ruas da Capital. Para sair do sinal, onde atualmente vende batidas de maracujá, o jovem Mohamed Nacif, de 20 anos, criou o Vant (@vant.af), um aplicativo de gestão financeira para vendedores de rua. Lançada em julho, a plataforma já soma mais de 100 assinantes e aposta na gamificação e na Inteligência Artificial para descomplicar a rotina de quem ganha a vida no asfalto.

"O vendedor, na informalidade, recebe por dia, ele precisa ter uma gestão. A ideia é que eu possa crescer junto com o aplicativo. Meu objetivo é sair da rua, e grande parte da galera que vende lá também quer isso", detalha o empreendedor, que é natural de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, mas radicado no Rio Grande do Sul desde os 5 anos.

Mohamed concilia as vendas com o trabalho de influenciador nas redes sociais, onde tem mais de 18 mil seguidores e viralizou ao gravar sua rotina. Ele procura bater R$ 1 mil líquidos como meta diária durante as quatro horas em que fica nos semáforos da avenida Ipiranga com a rua Dr. Salvador França, em Porto Alegre.

"É totalmente possível de alcançar, consigo bater tranquilo. O ticket do produto ajuda bastante: como o shake é R$ 35,00, o público de alto padrão paga tranquilo", comenta. O produto lhe custa apenas R$ 6,50, o que resulta em alta margem de lucro.

Gestão no bolso

Nessa correria, o que ajuda são as funcionalidades do app, capaz de anotar o número de produtos e registrar vendas, abordagens e gorjetas. A Vant foi desenvolvida com o Claude por meio de vibe coding, técnica em que a pessoa descreve o que quer em linguagem natural e uma Inteligência Artificial escreve o código.
O plano mais em conta custa R$ 29,90 por mês, e o grande diferencial, segundo Mohamed, é o modo de foco, que, além de motivar, vai medindo o desempenho do ambulante de hora em hora.

"Quando você divide a meta, fica muito mais fácil: ver que precisa fazer R$ 250,00 por hora assusta muito menos do que olhar para R$ 1 mil", exemplifica. O app também mostra a taxa de conversão em tempo real e indica se o ponto ainda vale a pena.
Outra ferramenta é o Caça-Sinal, que mapeia e avalia semáforos e os filtra para indicar por quanto tempo cada um fica aberto e qual é o fluxo de veículos transitando.
Junto a isso, o aplicativo traz a funcionalidade de previsão do clima, baseada em dados de institutos meteorológicos, bem como a centralização das contas bancárias para organizar extratos, faturas e boletos, calculando a quantia diária exata que o vendedor precisa reservar até a data de vencimento das contas do mês.

Ranking ao vivo e comunidade

O estímulo para não desanimar nas ruas também vem de um pódio ao vivo. O sistema premia os líderes de vendas e permite que cada ambulante acompanhe o ritmo dos concorrentes em tempo real.

"A parada da gamificação anima muito o pessoal. No app, você consegue ver se o cara que tá na sua frente no ranking tá vendendo naquele exato momento. O cara já pensa: ‘vou pra rua para passar ele!’. E aí ele vai para cima até bater a meta", aponta.

Além do ranking, foi criada uma comunidade no WhatsApp para servir de apoio e de espaço para troca de experiências entre os ambulantes.

"Esse senso de comunidade é bom para caramba. O pessoal até briga de vez em quando, porque um desconfia do resultado do outro, mas é um ambiente saudável que faz o pessoal se sentir motivado a ir pra rua", brinca Mohamed.

O banco do vendedor de rua

O principal alvo de Mohamed é transformar a Vant em um banco digital e passar a concorrer com a popular InfinitePay, instituição financeira usada por quem está começando no empreendedorismo.

"Como hoje qualquer um pode recriar um app igual, a ideia é a gente se tornar um banco no futuro. Em vez de ficar competindo no mercado de código, queremos competir no mercado de transação bancária e concessão de crédito, criando o banco do vendedor de rua", projeta o empreendedor, que pretende viabilizar o produto com marketing orgânico.

"A gente quer ser uma empresa que vai mostrar a realidade do vendedor de rua, sem ser algo engessado. Não preciso gravar um vídeo em um estúdio com fundo preto falando da empresa. Eu posso vir pra rua e gravar: o cara vai ficar muito mais instigado se ver que é a mesma realidade que ele vive no dia a dia", defende.

App de corrida do interior desafia os gigantes da mobilidade

A MobyGo opera em mais de 25 cidades, cobra uma taxa menor que Uber e 99 e mira 100 franquias até 2027
Após anos de experiência com gestão de aplicativos de corrida, o empreendedor Leandro Oliveira, de Passo Fundo, observou que, apesar de gigantes e consenso nas capitais, Uber e 99 não ganham espaço no interior. Por isso, adquiriu, no segundo semestre deste ano, a rede MobyGo, aplicativo brasileiro de mobilidade urbana criado em 2018 e que opera por meio de um sistema de franquias em mais de 25 cidades pelo Brasil.
O sistema registra mais de 30 mil corridas mensais e, segundo o novo proprietário, repassa taxas menores aos motoristas — por volta de 17% —, que consequentemente lucram mais.
"A gente oferece um preço bom para o passageiro e uma taxa bem pequena para o motorista, justamente para atrair o público e fazer com que o motorista trabalhe satisfeito. É uma taxa bem simbólica no mercado, porque, se você pega os grandes concorrentes, eles chegam a cobrar até 40% numa corrida", explica Leandro, que, no final de outubro, venceu a concessão para operar nos aeroportos Lauro Kortz, em Passo Fundo, e Sepé Tiaraju, em Santo Ângelo, adquiridos desde julho pela ON8, empresa do ECB Group que investiu R$ 102,23 milhões nos terminais.
"A gente vai ter um bolsão para a MobyGo nos aeroportos, com motoristas fixos, trajando camisa polo", projeta o empresário, que também instalará totens digitais nos locais.
Modelo de franquias
A empresa se sustenta em um modelo de franquias descentralizado, em que o franqueado obtém licença para operar na cidade. A taxa para municípios do interior é de R$ 18 mil, enquanto nas capitais o valor investido é de R$ 35 mil. Leandro diz que é possível gerenciar a operação até mesmo estando em outra localidade, já que a matriz oferece suporte de TI e atendimento para demandas 24 horas.
Para ser viável, o modelo de negócio da marca funciona com uma taxa mínima mensal que, se ultrapassada, passa a cobrar R$ 0,65 em royalties por corrida.
"A gente dá todo o suporte sobre a plataforma, então essa taxa mínima serve para manter a franquia no ar, dar manutenção e atualizações. Nossa intenção não é cobrar um valor muito alto, porque, lá na frente, ele ganhando, eu ganho também: o sucesso dele é o meu sucesso", afirma Leandro, que dispõe de 330 motoristas somente somando Passo Fundo e Marau, na Região Norte, com mais de 20 mil usuários ativos.
Foco nos desertos de mobilidade urbana
O foco da expansão segue sendo municípios entre 35 mil e 100 mil habitantes, e o motivo, de acordo com ele, é o deserto da mobilidade urbana privada.
"A gente foca em interiores, porque é muito mais fácil de se instalar, pois quase não funciona Uber. Vale mais a pena brigar com um concorrente local do que com os grandes aplicativos do mercado", entende o empreendedor.
Além do transporte tradicional de passageiros, a plataforma aposta na diversificação de serviços para atender demandas específicas do interior. Entre os destaques estão o MobDelas — modalidade com corridas exclusivas entre mulheres e verificação via CPF —, o MobPets, voltado ao transporte de animais de estimação, e serviços de tele-entrega MobEntrega e Flash.
Hoje, a MobyGo ultrapassa as fronteiras do Rio Grande do Sul e atua também em Santa Catarina, Paraná, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Bahia. A meta de Leandro é chegar a 100 franquias até 2027, dominando o mercado do interior ao eliminar barreiras tecnológicas e oferecer uma estrutura pronta de gestão para o novo investidor.

Startup gaúcha usa o "estilo Tinder" para aproximar candidatos e vagas operacionais

Criado em Campo Bom, o Grimpei conecta empresas e candidatos a vagas de emprego operacionais, com respostas por áudio e uso gratuito para quem busca trabalho
"Para contratar engenheiro ou gerente, tem Gupy, LinkedIn, mas onde é que eu contrato a costureira, o soldador?", provoca André Fernando Ferreira, fundador do Grimpei (@grimpei.app), startup de impacto social que conecta empresas e profissionais atrás de vagas operacionais. Criado em 2025, em Campo Bom, o aplicativo é um spin-off da Loftytec — empresa de softwares e inteligência industrial que ele comanda ao lado da esposa, Renata Lopes de Souza.

André comenta que a ideia surgiu ao perceber um descompasso no mercado de trabalho. Enquanto o segmento corporativo se digitalizava com ferramentas de recrutamento avançadas, o recorte da mão de obra operacional continuava preso a métodos arcaicos, com ambas as partes tendo que recorrer a jornais, panfletos ou até mesmo a carros de som pela cidade.

Match sem digitar

"Não faz sentido a pessoa querer procurar um emprego novo e não saber que tem uma vaga a duas, três quadras da casa dela", defende André, que busca resolver essa dor com uma interface intuitiva — estilo Tinder —, na qual a navegação é baseada em gestos para dar match entre o perfil do candidato e as oportunidades disponíveis.

A simplicidade da ferramenta atende ao foco social da startup, voltado a reduzir as barreiras de acesso ao mercado de trabalho para candidatos que enfrentam dificuldades com o letramento digital. Em vez de digitar, o candidato pode gravar respostas em áudio, que são transcritas em texto para o recrutador. "Para o RH, fica no formato padrão que ele precisa, mas para a pessoa fica de uma forma facilitada", destaca André, ressaltando que, para o candidato, o aplicativo é e sempre será gratuito.

"Quando as primeiras pessoas foram contratadas, deu um calorzinho no coração ver que estamos melhorando a vida de cada uma delas", diz orgulhoso.
O empreendedor comenta que o Grimpei precisa de austeridade, e por isso oferece diferentes modalidades para médias e grandes empresas, como Arezzo e Piccadilly. Para quem deseja testar, custa R$ 129,90 por vaga publicada, com texto, fotos e vídeo exibidos no feed do candidato mais o agendamento de entrevistas. Já para quem contrata sempre, o investimento é a partir de R$ 300,00 mensais, sendo possível lançar posições ilimitadas, gerir as métricas de candidatos com dashboard, chat e agenda integrados, além de prioridade no suporte.
Apesar de jovem, o aplicativo já vem sendo reconhecido no cenário gaúcho. Ainda em 2025, o Grimpei ficou em primeiro lugar no BRDE Labs RS e foi finalista do StartupLab Fecomércio 2025. A entidade que representa as empresas do comércio de bens, serviços e turismo do Estado fechou uma parceria com a startup para distribuir a plataforma com desconto aos associados e, em contrapartida, apoiar na divulgação da ferramenta. "A nossa ideia é cobrir todo o Rio Grande do Sul até 2026. Isso agiliza bastante a parte comercial e impulsiona a nossa expansão pelo Estado", acredita. Depois de se consolidar no Estado, a meta de André é crescer gradualmente: o plano é mirar primeiro Santa Catarina e Paraná, para depois alcançar abrangência nacional. No futuro, André não descarta movimentações mais arrojadas, como a aquisição do aplicativo por um grupo maior.
"Temos a ideia de, no futuro, talvez ser comprados por uma empresa grande, mas se isso não acontecer, tudo bem. A nossa intenção é tocar o negócio e ser o mais próspero possível", projeta.

Essa estratégia de expansão se apoia no contato direto com a realidade do mercado de trabalho e na validação do produto no dia a dia, como aconteceu neste ano no Gramado Summit.

"Uma senhora da limpeza veio até o nosso estande e nos falou que não era justo o filho procurar emprego sentado no sofá pelo telefone enquanto ela levava currículo de porta em porta. Queremos evitar justamente essa desigualdade", argumenta.