O barulho ritmado que vem das impressoras 3D no estúdio da SisperDesign não lembra em nada o som de uma fábrica tradicional. Em meio a carretéis de filamentos coloridos e projetos espalhados pela mesa, o clima é de um ateliê de invenções. Na sua casa, a designer Simone Sperhacke dá vida a jogos, brinquedos e objetos que não usam pilhas, nem emitem luzes piscantes e muito menos têm tela.
Em 1994, quando morava na Alemanha, ela entrou em contato com a tradição europeia do design lúdico e nunca mais largou. "Ali, eu me apaixonei perdidamente por esse universo e decidi no mesmo instante: ia ser designer de brinquedos. Desde então, estou na luta, na batalha, matando dois ou três leões por dia", conta a empreendedora, que abriu o CNPJ em 2001.
Foi na Ufrgs, onde cursou mestrado e doutorado em Design e passou anos ensinando e pesquisando o pensamento visual por meio de jogos, que ela tomou gosto pela tecnologia. "Conheci a impressão 3D e disse para mim mesma que não conseguiria mais viver sem ela. Ela me deu a chance de desenvolver e produzir meus próprios brinquedos de ponta a ponta, sem terceirizar nem depender de uma grande indústria", explica.
Tecnologia a serviço da sustentabilidade
Os brinquedos da marca têm um detalhe curioso: não possuem rostos ou expressões desenhadas. A escolha é proposital e fundamentada na pedagogia do brincar. "O minimalismo dá liberdade para a criação. Os adultos se enganam ao pensar que a criança só quer aquilo que é fácil, pronto e rápido. Quando o brinquedo não vem engessado, ela inventa a história que quiser, trabalha a coordenação motora, sente a textura e cria os próprios universos", defende Simone.
O catálogo traz jogos de tabuleiro, como o Dominove e o Jogo da Velha Come-Come, além de capivaras, coelhos e cavalos com rodinhas, bem como carrinhos, chaveiros, apoios de celular e placas customizadas. Em 2024, a coleção de esculturas da fauna brasileira do estúdio foi finalista do Prêmio Bornancini de Design.
Apesar da liberdade poética das peças, um dos lemas de Simone é a técnica, que anda lado a lado com a sustentabilidade. Ela usa o PLA, um bioplástico biodegradável e atóxico feito de cana-de-açúcar, milho e beterraba. A energia que move as máquinas vem de placas solares do seu apartamento, e os brinquedos passam por testes rigorosos de ergonomia e segurança para obter o selo do Inmetro.
"Hoje, muita gente baixa arquivos da internet e vende brinquedo impresso sem teste algum. Todos os meus projetos passaram de primeira nos testes. É um investimento alto e burocrático, mas, para mim, é inegociável. A criança precisa brincar com segurança total", alerta Simone.
Uma das criações mais especiais nasceu de uma memória de infância nos anos 1970, quando Simone ouvia o clássico disco Os Saltimbancos, adaptado por Chico Buarque.
"Como não tinha internet e eu não achava os bichinhos para comprar, fazia meus próprios personagens em papel. Anos depois, desenhei a coleção de Os Músicos de Bremen no estúdio para realizar o desejo daquela menininha", relembra.
A valorização da cultura local também inspirou uma linha com diversas miniaturas de pontos históricos de Porto Alegre, como a Usina do Gasômetro, a Ponte dos Açores, o Laçador e o Monumento Ao Expedicionário — os dois últimos, com os devidos créditos ao escultor pelotense Antônio Caringi. A Casa de Cultura Mario Quintana também entra na coleção, com uma edição comemorativa.
"Vão ser só 120 unidades por causa dos 120 anos de nascimento do Mario Quintana", diz.
Além do site e das redes sociais, quem deseja ver e tocar as peças de perto encontra os produtos em duas lojas colaborativas de Porto Alegre. No Moinhos de Vento, o Armazém Colab, na rua Padre Chagas, nº 415, reúne o catálogo completo da marca. Já no bairro Três Figueiras, a loja Caixinha Mágica Presentes, na rua Dr. Jorge Fayet, nº 624, conta com uma seleção especial de jogos e brinquedos.

