Gustavo Marchant

Gustavo Marchant Estagiário do GeraçãoE


Negócios

Empreender sozinho é desafio e oportunidade para novos negócios

Da produção ao atendimento, quem empreende sozinho precisa assumir diferentes funções para fazer o negócio crescer
Diariamente, milhares de brasileiros decidem ser seu próprio chefe. Entre janeiro e julho de 2026, o Brasil registrou a abertura de 3,6 milhões de novos empreendimentos, avanço de quase 14% em relação ao mesmo período de 2025. O levantamento, elaborado pelo Sebrae com base em informações da Receita Federal, mostra que 3,4 milhões desses registros são pequenos negócios e que cerca de 78% deles foram abertos por MEIs (Microempreendedores individuais). Na prática, quem abre o próprio negócio costuma cuidar de tudo: produção, atendimento, divulgação e entrega. Entre eles, há quem comece ainda jovem e já colha resultado.
Diariamente, milhares de brasileiros decidem ser seu próprio chefe. Entre janeiro e julho de 2026, o Brasil registrou a abertura de 3,6 milhões de novos empreendimentos, avanço de quase 14% em relação ao mesmo período de 2025. O levantamento, elaborado pelo Sebrae com base em informações da Receita Federal, mostra que 3,4 milhões desses registros são pequenos negócios e que cerca de 78% deles foram abertos por MEIs (Microempreendedores individuais). Na prática, quem abre o próprio negócio costuma cuidar de tudo: produção, atendimento, divulgação e entrega. Entre eles, há quem comece ainda jovem e já colha resultado.
O que tu estavas fazendo aos 18 anos? Daniel Machado, de Capela de Santana, município com pouco mais de 11 mil habitantes, decidiu vencer a vergonha e transformar a paixão por cookies em negócio. À frente da Dankie Cookie (@dankie.cookie), o jovem desbrava cidades da Região Metropolitana para vender suas fornadas diárias. O empreendedorismo, porém, não é novidade para ele: desde cedo, Daniel encontrou nos negócios uma forma de construir o próprio caminho.

Antes de completar 18 anos, acumulou múltiplas experiências que o ensinaram macetes de quem vende na rua faz tempo. Começou, ao lado do seu pai, oferecendo milho em Magistério; depois, vendeu rapadura e paçoquinha e chegou a ter inclusive um negócio de cadernos personalizados até surgir a ideia da Dankie em 2025, que é a junção do próprio nome com cookie.

"Sou de uma cidade muito pequena, do interior, não estava acostumado com o barulho de Porto Alegre, tinha muita vergonha de chegar nas pessoas. Muita gente julga, mas tem muitas pessoas que admiram demais essa luta", revela o jovem, que chegou à Capital sem conhecer nada, mas foi criando vínculo com a cidade.

Do trem ao feed

Perto de alcançar a marca de 25 mil seguidores nas redes sociais, dá para se dizer que Daniel utilizou e bem o artefato da internet para colocar o seu negócio na boca do povo. Com vídeos curtos, ele mostra a sua rotina disciplinada. O dia começava às 5h da manhã, com o preparo e a embalagem dos cookies. Às 7h30min, saía de casa, caminhava 2 km até a parada de ônibus, pegava uma condução de 40 minutos até São Leopoldo e, em seguida, tomava o trem até a Estação Mercado, em Porto Alegre, onde chegava perto das 10h. Isto, no passado, já que atualmente ficou mais fácil: Daniel se mudou para São Leopoldo, onde vive sozinho e aproveita melhor o tempo.
Daniel revela que vende, no mínimo, 80 cookies por dia | Artur Koch/JC
Daniel revela que vende, no mínimo, 80 cookies por dia Artur Koch/JC
"Antes, eu vinha oferecer para o pessoal na rua, mas graças à viralizada que deu nos meus vídeos, agora eu venho só para fazer entrega. Acho que 95% dos meus clientes são por causa da internet hoje em dia", comenta o empreendedor, que antigamente ficava até sair todos os cookies, mas agora, com a produção contada, não desperdiça nada.

Fornada com planilha

São no mínimo 80 cookies encomendados diariamente, sendo que, segundo o empreendedor, este número já chegou a 150 em um dia fora da curva. As encomendas são tratadas via WhatsApp, mas o jovem planeja entrar no IFood em breve para aumentar seus ganhos. Daniel conta que o CMV (Custo da Mercadoria Vendida) varia entre R$ 5,00 e R$ 7,00, a depender do sabor — chocolate branco e preto, creme de avelã, Kinder Bueno, Oreo e Stikadinho —, e todos são vendidos pelo preço único de R$ 15,00, garantindo uma boa margem de lucro. Para elevar o ticket médio, ele também comercializa tortas recheadas por R$ 120,00, com cerca de 1 kg de recheio de creme de avelã.

"Essa estratégia valoriza muito, porque o cliente não vai escolher qual é mais barato, e sim o que ele prefere. Dessa forma, acabo guardando uma parte para investir no meu sonho, que é abrir uma padaria no futuro", projeta o jovem empreendedor solo, que vem profissionalizando sua marca e recentemente abriu registro como MEI.

"Ter um MEI me ajudou bastante, por causa das taxas da maquininha e de fornecedores. Tem lugares que só vendem para ti se tu tens CNPJ, não vende para CPF. No começo, eu comprava a matéria-prima no mercado, e pagava mais caro, mas eu comecei a pesquisar fornecedores, o que sai mais em conta. Assim, consegui baixar o preço do meu produto e aumentar a qualidade cada vez mais", explica Daniel.

O peso de ser a equipe inteira

Passando por uma metamorfose desde o último ano, o dono da Dankie Cookie entende que a maior batalha de estar sozinho na lida é dar conta de fazer tudo, mas que, a cada dia, consegue ampliar seu ponto de vista e melhorar o negócio.

"A maior batalha de ser um empreendedor solo é dar conta de fazer tudo sozinho: responder as pessoas no Instagram, criar conteúdo, editar vídeo e ainda manter o produto perfeito. A gente quer entregar o melhor para todo mundo, mas nem sempre é possível, uma pessoa só não dá conta de tudo", reconhece o jovem.

Onde encontrar Daniel e a Dankie?

Para provar a fornada de cookies que Daniel prepara diariamente, basta contatar o jovem pelo Whatsapp (51) 99874-0606, ou pelo Instagram (@dankie.cookie).

De bicicleta, jovem leva cafeteria vegana pelas ruas de Esteio

Sem recursos para abrir uma cafeteria física, Pamella dos Santos adaptou uma food bike para vender bebidas veganas em feiras e eventos pela cidade
Pamella dos Santos tem 27 anos e carrega um sonho em duas rodas. Na bicicleta em que transporta uma caixa de madeira, ela percorre Esteio e arredores com a Cravo Cafeteria Móvel (@cravocafeteriamovel), marcando presença em feiras e eventos pela cidade para oferecer o que sabe fazer de melhor: café.
A empreendedora solo está nessa correria desde março, tendo o seu pequeno negócio como consequência de um episódio doloroso. A iniciativa nasceu quando Pamella perdeu a mãe.
"Nos primeiros dias, óbvio, fiquei bem mal do luto, porque tu perdes uma pessoa que tu amas muito e, de repente, teus dias vão ficando sem sentido. Mas, depois de um tempo, comecei a pensar no que poderia fazer para continuar existindo, algo que eu idealizasse e colocasse a minha energia para voltar a dar sentido aos meus dias", confidencia.
Foi nessa busca por um novo propósito que a empreendedora decidiu aliar sua força de vontade com a paixão por cafés de alta qualidade. Sem muito capital para um grande investimento, Pamella comprou no marketplace do Facebook uma food bike usada que antes vendia açaí.
"Sabia que aqui em Esteio não tinha nada parecido. Na verdade, nem sabia que existia esse termo (food bike). Para mim, era carrinho de ambulante, tipo trailerzinho. Pensei: por que não começar com uma bike?", lembra a empreendedora, sobre o início da jornada.
Da filosofia de vida transformada em negócio
Por ser vegana, ela estruturou um cardápio 100% livre de ingredientes de origem animal. O foco está na excelência dos insumos, como o café espresso, feito com grão especial moído na hora, e os leites vegetais utilizados são edição barista.
O campeão de vendas é o cappuccino, uma combinação de café espresso, leite vegetal e canela. Para complementar, a cafeteria oferece sodas italianas, chás, chocolate quente e cookies veganos produzidos pelo seu marido, Guilherme.
Os clientes também podem levar a experiência para casa, adquirindo o café especial da marca Cravo, vendido em grãos ou moído — o pacote de 250g sai por R$ 49,00.
Desafios de ter um negócio no modelo food bike
Apesar da Cravo ter pouco tempo de estrada, a empreendedora já participou de diferentes eventos, com destaque para o Rock na Praça, festival independente realizado há 24 anos na Praça Coração de Maria, em Esteio.
Assim como em outras feiras, Pamella pedalou até o local.
Contudo, como ela própria descreve, nem sempre é fácil carregar um negócio, ainda mais em duas rodas. O trabalho apresenta desafios, principalmente em relação ao esforço corporal envolvido.
"Na caixa, consigo levar todos os meus insumos e equipamentos, mas é pesado: só a máquina de café tem 11 kg. Ainda tem os coolers, porque faço algumas bebidas geladas, então preciso levar gelo. É pesado, mas acaba sendo uma aventura também, é bem engraçado fazer esses trajetos", conta a empreendedora.
O maior desafio atual da Cravo é a dependência de energia elétrica. Por precisar ligar a máquina de café espresso na tomada, Pamella não consegue trabalhar todos os dias na rua como ambulante, ficando restrita a feiras e eventos autorizados que forneçam essa estrutura.
Essa imprevisibilidade na agenda gera um risco financeiro: se ela abre uma caixa de leite vegetal, por exemplo, e não tem eventos nos dias seguintes, acaba perdendo os insumos, provocando prejuízos. Segundo Pamella, o grande obstáculo hoje é, justamente, dar conta de pensar em novas oportunidades para o negócio continuar existindo.
Presença digital faz a diferença
Para contornar adversidades como essas e atrair mais público, ela aposta na comunicação. O percurso e os bastidores são gravados e expostos nas redes sociais da empreendedora, o que vem ajudando a fortalecer a marca e a cartela de clientes, que a encontram na rua com a ajuda do algoritmo.
"Consigo ter facilidade em criar conteúdo, o marketing é uma área pela qual sou genuinamente atraída, então isso ajuda bastante", aponta a empreendedora, que já conta com mais de 3,6 mil seguidores nas redes sociais.

Solo, mas não sozinho: dicas de quem forma novos empreendedores

Confira as dicas de Leonardo Cruz, professor de Gastronomia na Pucrs, sobre como tocar um negócio sozinho
Ter uma boa ideia de negócio é essencial, mas está longe de ser suficiente. Quem empreende sozinho precisa também cuidar das finanças, organizar a produção, pensar na venda e construir uma imagem — tudo ao mesmo tempo. Para entender melhor esse universo que dá conta de diferentes frentes, o GeraçãoE conversou com Leonardo Cruz, professor de Gastronomia na Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pucrs, consultor gastronômico e pesquisador na Ufrgs. Confira as dicas:
1. Dinheiro próprio X dinheiro do negócio
"O maior problema costuma ser não fazer direito o cálculo de custo da mercadoria vendida e ficar sempre correndo atrás de dinheiro para conseguir produzir mais. Por isso, a dica para um empreendedor inicial é diferenciar o que é dinheiro do negócio e o que é dinheiro próprio. Ter mais de uma conta no banco hoje em dia é bem fácil, não precisa ser uma conta PJ, o importante é separar o dinheiro da produção do que é dinheiro próprio dele."
2. Demanda e desperdício
"É ter um bom método de conservação, uma embalagem adequada que mantenha o produto naquela característica sensorial. Existe uma confusão sobre validade dos alimentos: não é só uma questão de risco à saúde depois de alguns dias. Em três, quatro dias já perdeu a textura, o sabor, a coloração. Para o uso integral, o segredo é manter as práticas sanitárias, lavar bem e aproveitar os subprodutos que sobram do preparo."
3. Sair da informalidade
"Quem tem CNPJ consegue melhores condições de compra — produtos por 30%, 25% mais baratos, o que impacta demais na lucratividade. Existe um investimento inicial para abrir um MEI, mas ele se paga muito rápido."
4. Achar o público e a maneira de fazer
"Assim como quem entra num hospital precisa vestir jaleco e falar de um jeito específico com o paciente, quem está vendendo também precisa assumir uma postura e uma linguagem de vendedor. O primeiro passo é entender bem qual é o produto e para quem ele é vendido. Isso define onde vender fisicamente e, principalmente, como se comunicar, o que considero o ponto mais importante."
5. A internet como aliada do empreendedorismo
"É preciso entender o que leva alguém a comprar algo. Quer ver minha produção? Coloca no QR Code, mostra a página, o processo, que a cozinha é limpa. Isso fideliza bem, mostra profissionalismo, mesmo quem ainda está em crescimento."
6. O ingrediente que não tem receita
"A dica é sempre a paixão. Se tiver paixão, normalmente dá certo."
7. Use as redes como vitrine
"Tudo é portfólio: mesmo produzindo em casa, publicar a rotina com capricho e higiene transmite profissionalismo, atrai clientes e abre portas. Para quem não tem verba inicial para contratar um designer, até mesmo a IA pode ajudar a tirar as ideias da cabeça, como a própria identidade visual do negócio."