Júlia Fernandes

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Repórter

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Comércio

Jovens gaúchos terceirizam educação financeira para Inteligência Artificial

Para a educadora financeira, Dina Prates, embora a IA seja uma ferramenta útil, ela não substitui a orientação personalizada
Usados diariamente por boa parte da população, os chatbots estão cada vez mais presentes na rotina dos brasileiros. Seja para organizar tarefas, aprender uma receita, esclarecer dúvidas ou auxiliar em decisões de compra, a Inteligência Artificial também passou a ocupar espaço na gestão das finanças pessoais. No entanto, o compartilhamento de dados financeiros com plataformas ainda exige cautela.
Usados diariamente por boa parte da população, os chatbots estão cada vez mais presentes na rotina dos brasileiros. Seja para organizar tarefas, aprender uma receita, esclarecer dúvidas ou auxiliar em decisões de compra, a Inteligência Artificial também passou a ocupar espaço na gestão das finanças pessoais. No entanto, o compartilhamento de dados financeiros com plataformas ainda exige cautela.
"As pessoas acabam compartilhando, muitas vezes, dados sensíveis em plataformas nas quais não sabem quais são os limites nem como essas informações serão utilizadas. O ideal é evitar inserir dados bancários, informações financeiras ou carregar extratos em ferramentas de IA genéricas", alerta a educadora financeira e fundadora da UjamaaTech, Dina Prates.
De acordo com a pesquisa Os Gaúchos e o Consumo 2026, realizada pelo Jornal do Comércio em parceria com a Escola de Negócios da Pucrs e o Omni-X, 27,8% dos entrevistados com até 40 anos utilizam IA para organizar o orçamento pessoal. Entre os participantes com mais de 41 anos, esse percentual cai para 9,4%.
O levantamento também mostra que 28,9% dos jovens recorrem à tecnologia para aprender sobre educação financeira. Para Dina, embora a IA seja uma ferramenta útil, ela não substitui a orientação personalizada. "As pessoas precisam entender que a IA não conhece o contexto da realidade social do usuário. Ela faz uma análise baseada em números e não considera fatores como comportamento de consumo, rotina ou histórico de vida", explica Dina. Segundo a especialista, quanto mais contexto o usuário fornecer, sem expor dados sensíveis, mais úteis tendem a ser as respostas.
A pesquisa ainda mostra que 26,7% dos jovens utilizam chatbots para esclarecer dúvidas sobre dívidas, juros e financiamentos, contra 7,7% entre os entrevistados mais velhos. Nesses casos, Dina recomenda priorizar ferramentas desenvolvidas por bancos ou consultorias financeiras. "Hoje, bancos e consultorias já oferecem soluções de IA próprias, que trabalham dentro de ambientes mais seguros e com maior controle sobre os dados dos clientes", afirma.

IA influencia decisões de compra

A presença da IA também cresce no varejo e no sistema financeiro, tanto para atendimento quanto para recomendação de produtos. Para Dina, o desafio das empresas não é apenas oferecer a tecnologia, mas ensinar o consumidor a utilizá-la. "Hoje, existem ferramentas que ajudam o cliente a decidir qual produto comprar, mas muitas empresas ainda pecam no letramento digital. É preciso orientar as pessoas para que usem essas soluções de forma consciente, e não apenas disponibilizar a tecnologia", destaca a empreendedora.
Ela defende que a educação financeira também deve fazer parte da estratégia das empresas. Segundo a especialista, consumidores financeiramente conscientes tendem a manter o poder de compra por mais tempo. "Sempre dizemos que um cliente consciente financeiramente volta e continua consumindo da marca", sinaliza a educadora financeira.
Outro ponto essencial é a transparência na comunicação. Explicar taxas, contratos e produtos financeiros em linguagem acessível aumenta a confiança do consumidor e reduz erros na contratação de serviços.

Otimismo apesar da renda menor

Embora apresentem renda média inferior à dos entrevistados com mais de 40 anos, os jovens demonstram maior confiança em relação ao futuro financeiro. Segundo a pesquisa, 47,8% acreditam que a renda e o poder de compra vão melhorar nos próximos 12 meses. Entre os mais velhos, esse índice é de 26%. Em relação à estabilidade financeira, 53,3% dos jovens também esperam uma situação melhor no futuro.
Para Dina, esse otimismo está relacionado ao acesso mais precoce à educação financeira e às ferramentas digitais. "Percebemos que, mesmo trabalhando com uma renda limitada, quando os jovens recebem educação financeira conseguem criar estratégias de gestão de recursos desde cedo." Ela também destaca que contas digitais, Pix e plataformas de investimento ampliaram o acesso ao sistema financeiro e reduziram custos para essa geração.
Apesar disso, faz um alerta para o excesso de confiança. "Enquanto as dívidas das gerações mais velhas costumam estar ligadas ao cheque especial e ao empréstimo consignado, entre os jovens o principal fator de endividamento continua sendo o cartão de crédito."

Dicas para usar IA nas finanças

  • Evite o compartilhamento de dados sensíveis: não é aconselhável carregar extratos bancários ou dados financeiros diretamente em plataformas de IA genéricas. Muitas vezes, os limites de como esses dados serão utilizados por essas empresas não são claros.
  • Dê preferência a ferramentas oficiais: se for utilizar IA para análise financeira, o ideal é priorizar as ferramentas oferecidas pelo seu próprio banco ou por consultorias especializadas. Essas plataformas possuem maior controle sobre os dados e um código com contexto mais aplicado à realidade do cliente.
  • Forneça contexto em vez de dados brutos: em vez de inserir números crus, você pode descrever o seu perfil e desafios financeiros em um comando. Isso permite que a IA atue como uma orientadora ou suporte para a sua tomada de decisão, sem que você precise expor informações privadas. 
  • Entenda as limitações da análise: a IA realiza uma análise fria e baseada em números; ela não compreende o seu comportamento de consumo diário, que é influenciado por fatores como saúde mental, contexto familiar e decisões impulsivas.

Educação financeira para todos

A história da UjamaaTech começou antes mesmo de a empresa existir. Ainda na graduação em ciências contábeis, Dina Prates participou de um projeto de extensão universitária voltado à educação financeira e decidiu levar o tema para além da sala de aula. Em parceria com a Associação Negra de Cultura, passou a oferecer cursos gratuitos nos finais de semana e percebeu que havia uma demanda reprimida pelo assunto. "A maior parte das pessoas, principalmente pessoas negras, nunca tinha ouvido falar de educação financeira. Quando conheciam o tema, era sempre naquela lógica de economizar e guardar dinheiro. Parecia um assunto distante da realidade delas", lembra.
O interesse despertado pelos cursos fez com que os participantes passassem a procurar novos encontros e atendimentos individuais. Foi assim que surgiu a consultoria financeira, inicialmente voltada para pessoas físicas. Mais tarde, durante o mestrado, Dina aprofundou o olhar sobre o tema ao pesquisar a trajetória de mulheres negras empreendedoras.
"Percebi que a relação com o dinheiro também era um desafio para essas mulheres. Eram dificuldades muito parecidas com as que eu já tinha encontrado nos projetos de educação financeira." Com a formação como educadora financeira e a experiência na área contábil, Dina ampliou os atendimentos e passou a oferecer suporte também para pequenos empreendedores. O passo seguinte veio em 2019, quando fechou o primeiro contrato com uma instituição financeira para desenvolver projetos de educação financeira corporativa.
Nos anos seguintes, a empreendedora desenvolveu projetos para instituições como Sicredi, Banco BV, Sebrae e outras organizações. Em 2023, decidiu transformar a consultoria em uma edtech, criando a UjamaaTech. "Não queria que existisse apenas a Dina educadora financeira. Queria que mais pessoas pudessem atuar nessa área e ampliar o acesso à educação financeira", afirma a empreendedora. 
O nome da empresa faz referência à palavra Ujamaa, do suaíli, que significa família e comunidade, conceito inspirado no modelo econômico criado pelo ex-presidente da Tanzânia, Julius Nyerere. A ideia norteia a metodologia da startup, que parte da realidade social das pessoas para aproximá-las da educação financeira. "A gente parte do contexto social para fazer com que as pessoas percebam que esse conhecimento também é para elas", destaca Dina. 
Hoje, a empresa atua em duas frentes. No mercado corporativo, desenvolve jornadas de educação financeira para empresas utilizando uma assistente virtual via WhatsApp, chamada Ujaminha, que acompanha os participantes durante o processo de aprendizagem. Já na frente social, forma novos educadores financeiros e conecta esses profissionais a pessoas que buscam consultorias individuais.
Segundo Dina, o maior desafio da empresa nos quase três anos de operação foi conquistar credibilidade em um mercado tradicionalmente dominado por abordagens técnicas e pouco conectadas à realidade dos consumidores. "No início, questionavam de onde vinha nossa metodologia. Então, começamos a estruturar ainda mais nossa base teórica, apoiada em pesquisas nacionais e internacionais, além de criar indicadores próprios para medir o impacto dos projetos."
O próximo passo é expandir a atuação pelo País. "Queremos estar entre as três maiores startups de educação financeira do Brasil. Nossa meta é que educação financeira vire assunto do almoço de domingo", prospecta Dina. O plano inclui levar o os projetos atuais a todos os estados brasileiros e, no futuro, internacionalizar a metodologia para países africanos de língua portuguesa. "A gente acredita que, quando parte do contexto social das pessoas, a educação financeira consegue atravessar fronteiras.”