Júlia Fernandes

Júlia Fernandes
Repórter

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Júlia Fernandes Repórter


Negócio Raiz

Quem são os empreendedores à frente dos serviços cada vez mais raros em Porto Alegre

Mantendo tradições que atravessam gerações, empreendedores oferecem serviços que vão na contramão das tendências
Cada vez mais difíceis de encontrar, alguns negócios sobrevivem na contramão das transformações do mercado. A aceleração do consumo, especialmente no setor da moda, reduziu a procura por serviços de reforma, conserto e manutenção de peças, enquanto a produção em larga escala e a troca constante de produtos mudaram os hábitos dos consumidores. Como consequência, profissões que antes faziam parte do cotidiano passaram a ser cada vez mais raras.
Cada vez mais difíceis de encontrar, alguns negócios sobrevivem na contramão das transformações do mercado. A aceleração do consumo, especialmente no setor da moda, reduziu a procura por serviços de reforma, conserto e manutenção de peças, enquanto a produção em larga escala e a troca constante de produtos mudaram os hábitos dos consumidores. Como consequência, profissões que antes faziam parte do cotidiano passaram a ser cada vez mais raras.
Em um aeroporto onde quase tudo mudou nas últimas décadas, um pequeno espaço continua funcionando praticamente da mesma forma. Enquanto passageiros fazem check-in pelo celular, embarcam com bilhetes digitais, duas cadeiras de engraxate seguem ocupando seu lugar no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre. É um daqueles negócios que sobreviveram às transformações, tornando-se cada vez mais raros.
Há 27 anos, Cleber Lima dos Santos chega cedo ao aeroporto para abrir a engraxataria. A rotina começa às 7h e só termina às 18h. Entre um voo e outro, ele limpa, hidrata e devolve o brilho aos sapatos dos clientes. Ouvir histórias, reencontrar antigos conhecidos e observar faz parte da rotina de um trabalho que começou em 1999. 

Curiosamente, a profissão quase não fez parte dos planos de Cleber. Na época, ele trabalhava em uma lancheria quando recebeu o convite para assumir uma das cadeiras de engraxate do aeroporto. A ideia, num primeiro momento, não agradou. O preconceito que ainda existia em torno da profissão pesou. "Pensei na época 'engraxate?', mas fiz a conta e vi que a remuneração seria melhor que a do emprego que eu tinha", conta. Cleber voltou atrás, aceitou a proposta e nunca mais deixou o ofício.

Naquele fim dos anos 1990, o aeroporto era outro. "Havia telefones públicos espalhados pelos corredores, a passagem era impressa ainda. Muitos executivos viajavam toda semana para reuniões", lembra o engraxate, afirmando que sapato social bem cuidado fazia parte da imagem profissional, e passar na engraxataria antes do embarque era quase um ritual para muitos viajantes.

Impacto da pandemia em 2020

A pandemia de Covid-19 acelerou mudanças que, talvez, levassem anos para acontecer. As reuniões virtuais reduziram boa parte das viagens corporativas, justamente o público que sustentava o movimento da engraxataria. "Eles descobriram que não precisavam viajar tanto", resume Cleber. O aeroporto voltou a receber passageiros, mas o perfil mudou. Há mais turistas, famílias e viagens de lazer, de acordo com o engraxate. O executivo que fazia ponte aérea toda semana aparece com muito menos frequência.

A própria moda também ajudou a transformar o negócio, de acordo com Cleber. O tradicional sapato de couro perdeu espaço para tênis e modelos híbridos, feitos com tecidos sintéticos e materiais que não recebem graxa. Até clientes antigos trocaram o visual pela praticidade. Cleber conta que vê muitos senhores usando calçados mais confortáveis, que já não podem ser engraxados. "Aí eu penso 'perdi mais um cliente'", brinca.

O resultado aparece no movimento. Em uma boa semana, atende cerca de oito ou nove clientes por dia, número bastante inferior ao de anos atrás. Ainda assim, o serviço continua encontrando seu público. Advogados, médicos, professores universitários, empresários e alguns executivos seguem valorizando o cuidado com o calçado e fazem questão de passar na cadeira antes de embarcar. "A gente fala que a profissão vai acabar, mas não vai acabar amanhã. Enquanto tiver serviço, vou estar aqui", destaca. 

Curiosidade atrai passageiros

Um dos pontos que chamam atenção é a curiosidade que os passageiros têm pelo serviço. Segundo Cleber, muita gente diminui o passo ao perceber que ainda existe um engraxate trabalhando dentro do aeroporto. "Alguns fazem foto, outros param para conversar. Às vezes, aparece alguém contando que trabalhou como engraxate na infância para ganhar dinheiro, ou para lembrar de um familiar que tinha o hábito de engraxar os sapatos."
Ao longo de quase três décadas, a cadeira de engraxate acabou se transformando em um ponto de encontro e de observação da vida. Por ela, passaram políticos de diferentes partidos, empresários, dirigentes de futebol, médicos, professores e profissionais das mais variadas áreas. Cleber lembra de nomes conhecidos, como o ex-presidente e dirigente esportivo do Sport Club Internacional, Fernando Carvalho, e o ex-presidente do Grêmio, Fábio Koff, mas faz questão de destacar que todos são atendidos da mesma forma. "Aqui passa todo mundo. Do PL ao PT, eu atendo todo mundo igual."

A conversa, porém, nunca é forçada. Tímido, Cleber prefere deixar que o cliente conduza o diálogo. Quando percebe abertura, o atendimento vai muito além dos sapatos. Os minutos na cadeira viram um intervalo entre compromissos, um espaço para falar da família, do trabalho, do futebol ou simplesmente descansar antes do embarque.

Adaptações para resistir

A profissão também mudou dentro do próprio aeroporto. Quando começou, eram seis engraxates dividindo o movimento. Depois da pandemia, restaram apenas dois. Recentemente, com a morte de um colega, Cleber passou a ser o único profissional em atividade no terminal. Fora dali, ele conta que quase não vê mais cadeiras funcionando em Porto Alegre. Um ofício bastante comum nas ruas brasileiras durante boa parte do século XX tornou-se uma atividade quase exclusiva de poucos resistentes.

Apesar dos desafios, Cleber não encara seu trabalho como uma profissão em extinção, mas como um serviço especializado que continua encontrando espaço justamente porque se tornou raro. "Como não tem muita gente fazendo, as pessoas me procuram. Ainda tem serviço", declara. Enquanto o mundo acelera e muitos hábitos desaparecem, a cadeira de engraxate segue lembrando que alguns serviços sobrevivem pela experiência que proporcionam. 

Perfeccionismo e tradição marcam a carreira de costureiro no Rio Branco

Sid ergue um paletó, examina a costura  e encontra um desalinhamento quase imperceptível. Qualquer cliente, provavelmente, jamais perceberia. Ele, sim. Desmancha parte da costura e começa de novo. "O pessoal diz 'deixa assim, ninguém vai ver'. Mas eu vou ver. O cliente pode até não perceber, mas eu estou vendo. Então eu desmancho e faço outra vez." Aos 73 anos, Sidnei Lima de Souza transformou o perfeccionismo em marca registrada e segue resistindo em uma profissão que encolheu com o avanço da produção em escala, das franquias de ajustes rápidos e da moda descartável. 
Enquanto boa parte do mercado da costura se reorganizou em grandes redes especializadas em pequenos consertos, Sid continua fiel ao modelo de ateliê onde quase tudo pode ser feito: da barra de uma calça a um casaco inteiro, de uma toga de formatura a uma roupa para ensaio de revelação de bebê. "Não escolho trabalho. Se chegar um casaco, eu faço. Se chegar um paletó, eu faço. Se chegar uma roupa complicada, eu faço também. O importante é respeitar o serviço", declara.
A história começou por acaso, muito antes de ele imaginar que viveria da profissão. Autodidata, nunca frequentou um curso de costura. "Acho até que isso me atrapalha um pouco, porque quem faz curso aprende o caminho certo. Acabo dando uma volta maior para chegar ao mesmo resultado. Demoro mais, mas faço", explica o costureiro. 
Na década de 1970, quando Sid tinha entre 15 e 16 anos e morava em Santa Maria, decidiu que queria uma calça nova para a tradicional festa de Nossa Senhora Medianeira. Na data, a mãe dele estava viajando e o próprio resolveu comprar o tecido e realizar a peça sozinho. O resultado foi desastroso. "A calça serviu meia bunda", conta, rindo da própria história. A parte de trás ficou baixa demais. Sem conhecer técnicas ou modelagem, improvisou uma pala inspirada no que imaginava ser uma calça jeans. "Nem sabia que aquilo tinha nome. Fiz porque achei que podia dar certo. E deu" conta Sid, comentando que aquele improviso revelou um talento.
Nascido em 1953, em Minas do Butiá — nome original do atual município de Butiá, na Região Carbonífera do Rio Grande do Sul —, Sid morou também em Restinga Seca, Santa Maria, Passo Fundo e Porto Alegre antes de seguir carreira fora do Rio Grande do Sul. Trabalhou em ferragem, foi engraxate, passou 10 anos em um cartório e só depois reencontrou a costura. A mudança definitiva veio após um episódio que alterou seus planos. "Hoje, era para estar aposentado do cartório. Mas aconteceu o que tinha que acontecer. Acredito muito nisso: tudo o que é para ser, é."
O recomeço aconteceu no Rio de Janeiro. Foi lá que viveu um dos capítulos mais marcantes da carreira. Trabalhou como freelancer para a velha guarda da escola de samba Unidos da Vila Isabel, confeccionando camisas e ternos usados pelos integrantes. Até hoje, guarda fotografias daquele período, especialmente do carnaval em que a escola conquistou o campeonato, em 2013. "Eles diziam 'tu foi o melhor costureiro que a velha guarda já teve', e eu respondia 'então me contratem'. Nunca contrataram, porque lá era tudo por freelance, mas nenhum deles reclamou do meu trabalho", comenta orgulhoso. 
O costureiro voltou para Porto Alegre para cuidar da mãe e, há cerca de 10 anos, instalou o ateliê no bairro Santa Cecília, onde trabalha até hoje. Construiu uma clientela fiel, formada por moradores do bairro e também por clientes que atravessam a cidade em busca de um serviço mais especializado. Muitos chegam por indicação, outros porque descobriram que quase ninguém mais aceita determinados trabalhos. "Casaco, trocar forro, ajustar paletó, aqui no bairro quase ninguém quer fazer. Eles mandam tudo para mim. Nunca tive medo de pegar serviço", afirma.
O cotidiano da profissão, porém, mudou. A maior parte das encomendas hoje é de reformas. A explosão das compras pela internet aumentou a procura por barras e ajustes, enquanto as franquias de costura passaram a dominar esse segmento com rapidez e padronização. Sid observa esse movimento sem se intimidar. "Aquilo ali é outro tipo de trabalho. Costura não é pegar a peça e sair passando na máquina. Tem que passar no ferro, acertar, fazer acabamento. Cada tecido pede uma coisa", detalha, afirmando que o capricho é fundamental.
Peças novas aparecem, mas quase sempre para ocasiões especiais. Togas de formatura, vestidos, figurinos ou produções sob medida ocupam dias inteiros de trabalho. Por isso, Sid afirma que não abre mão do preço que considera justo. "As pessoas dizem que têm que valorizar o trabalho manual, mas quando você dá o orçamento elas acham caro. Só que eu sei o tempo que levo. E, se eu estragar uma peça, sou eu quem compra o tecido. Então meu preço é esse."
A segurança com que Sid fala pode soar como teimosia, mas é justamente ela que fideliza clientes. O costureiro conta que atende moradores de diversos bairros e que muitos chegam recomendados por antigos clientes. "O pessoal diz 'pode ir lá que ele resolve'. Acho que voltam porque sabem que não entrego nada mais ou menos."
Longe da imagem do artesão receoso diante de uma profissão em desaparecimento, Sid cultiva uma autoestima única. Fala do próprio trabalho com orgulho, ri das histórias que viveu e afirma que gostaria de ser dois ou três para dar conta da demanda. "Não falta serviço. O que falta é tempo. Eu amo o que faço."

Operando há 59 anos no Menino Deus, sapataria passa por sucessão familiar

Em meio a prateleiras tomadas por botas, tênis e sapatos à espera de conserto, a cena da tradicional Sapataria Modelo, no bairro Menino Deus, contradiz a ideia de que as antigas sapatarias desapareceram. Ali, cerca de 30 pares passam pelas mãos da equipe todos os dias. Mais do que um negócio que resiste ao tempo, a empresa vive um momento raro: a sucessão familiar já está em andamento.
Fundada em 1957, a sapataria atravessa quase sete décadas de história sob o comando de Vitor Barth, hoje com 87 anos. Aos poucos, ele divide a administração e o trabalho com o neto Hiago Barth, 28 anos, e outros familiares, garantindo que um ofício cada vez mais raro continue vivo.
Para Vitor, a sapataria nunca foi apenas uma fonte de renda. "É um filho”, resume, emocionado. Olhando para uma fotografia da família colada em um dos armários da pequena sala onde uma parte dos consertos acontece, em lágrimas o empreendedor admite que o negócio familiar tem um espaço especial nas lembranças.
A história começou cedo. Desde 1953, Vitor já trabalhava como sapateiro em Novo Hamburgo, principal polo calçadista do País. Alguns anos depois decidiu abrir o próprio negócio em Porto Alegre. Ao longo das décadas, viu o bairro crescer, clientes envelhecerem e gerações inteiras passarem pelo balcão. Muitos já não estão mais vivos. "Não tem um cara aqui nesta zona que seja mais velho que eu. E estou aqui resistindo”, afirma Vitor, garantindo que ainda tem saúde de sobra. “O meu único problema é chorar muito”, brinca. 
A sapataria também ajudou a construir outra história: a da própria família. Dos quatro filhos, dois seguiram na profissão. Entre os nove netos, Hiago assumiu o desafio de manter o negócio funcionando e adaptá-lo aos novos tempos. A tradição vai além da loja do Menino Deus. O pai de Hiago é sapateiro em Garopaba (SC), enquanto um tio mantém uma fábrica em Novo Hamburgo. "É uma família de sapateiros", diz Hiago.
A escolha pela profissão, no entanto, não foi planejada. "Cresci aqui dentro. Estou aqui há 28 anos. Fui tomando gosto, aprendendo, aprimorando coisas pela internet e conhecendo o trabalho de sapateiros”, conta Hiago, que trabalha no local desde os 16 anos. 
Formado em geografia, o neto de Vitor chegou a trabalhar na área, mas percebeu que a sapataria oferecia estabilidade financeira e qualidade de vida superiores às encontradas na profissão."A sapataria sempre foi minha fonte de renda. É um ambiente familiar e hoje acaba sendo uma renda melhor do que a do geógrafo”, garante o sucessor.
Enquanto muitos imaginam que o conserto de calçados vive seus últimos dias, a rotina da empresa conta outra história. O principal serviço deixou de ser o tradicional sapato para dar lugar aos tênis. "A maior procura hoje é por reforma de tênis: colagem, costura e troca de solado. Tem muito serviço que outros sapateiros já não fazem mais”, comenta Hiago. 
A mudança acompanha transformações no mercado. Vitor lembra que precisou convencer clientes de que o solado de borracha era melhor do que o de couro e viu o salto alto perder espaço para o conforto dos tênis. Também acompanhou a chegada da internet, das redes sociais, ferramentas que hoje ajudam a atrair um público que sequer sabia que sapatarias ainda existiam.
"O público jovem precisa aprender primeiro que existe sapataria. Muita gente se surpreende quando descobre”, conta Hiago. A capacidade de adaptação sempre fez parte da trajetória da empresa. Vitor chegou a trabalhar como sapateiro nos Estados Unidos durante uma visita à filha, que mora há mais de 30 anos na Califórnia. Conheceu colegas de profissão, viajou ao México e voltou com uma visão diferente sobre o mercado.
Houve ainda uma época em que o empreendedor produzia sandálias sob medida para escolas de samba de Porto Alegre. Janeiro e fevereiro, que hoje costumam ser meses mais tranquilos, já foram períodos de trabalho intenso.

O negócio continua 

A sucessão acontece de forma gradual. Hiago e dois tios passaram a organizar a administração e as finanças para preparar a próxima etapa da empresa. "Estamos na fase de organizar as contas para fazer uma transição tranquila”, relata. 
Essa continuidade é justamente o que diferencia a Sapataria Modelo de muitos concorrentes. Vitor observa que, sempre que um sapateiro conhecido se aposenta ou morre, a loja costuma fechar definitivamente por falta de sucessores. "Tive a sorte de os filhos gostarem. A maioria das sapatarias fecha porque não tem quem continue”, explica. 
O futuro da empresa parece encaminhado, mas há um outro tipo de sucessão que ainda não aconteceu e rende risadas entre avô e neto. Pai de quatro filhos e avô de nove netos, Vitor diz que agora aguarda a chegada dos bisnetos. Enquanto eles não aparecem, sobra espaço para os cachorros da nova geração.
"Na minha época, tive quatro filhos. Agora, o pessoal tem dois, três cachorros e não tem filhos. Não me aparecem os bisnetos e vou ter que chamar os cachorros”, brinca.