Júlia Fernandes

Júlia Fernandes
Repórter

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Júlia Fernandes Repórter


Negócios

Apostando no audiovisual, estúdios expandem operações em Porto Alegre

Mesmo com mudanças constantes, empreendedores da capital gaúcha se adaptam às demandas do mercado e encontram novas oportunidades no segmento do audiovisual
Nos últimos anos, a expansão do mercado de produção audiovisual se tornou uma realidade em Porto Alegre. No mercado nacional, o setor gerou R$ 32,7 bilhões à economia em 2024, conforme levantamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Dados da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul (Sedac), estimam que o Rio Grande do Sul é o terceiro estado que mais investe em produções audiovisuais no Brasil. Outro movimento que contribui para essa aceleração é a chamada creator economy — economia dos criadores — que cada vez mais buscam pelos serviços oferecidos pelas produtoras. 
Nos últimos anos, a expansão do mercado de produção audiovisual se tornou uma realidade em Porto Alegre. No mercado nacional, o setor gerou R$ 32,7 bilhões à economia em 2024, conforme levantamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Dados da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul (Sedac), estimam que o Rio Grande do Sul é o terceiro estado que mais investe em produções audiovisuais no Brasil. Outro movimento que contribui para essa aceleração é a chamada creator economy — economia dos criadores — que cada vez mais buscam pelos serviços oferecidos pelas produtoras. 
Negócios desse segmento estão formando um ecossistema robusto. A pandemia de Covid-19 é apontada como o ponto de virada para o setor. A restrição de atividades presenciais forçou a aceleração do consumo de conteúdo digital, de educação on-line e de eventos híbridos, criando uma demanda massiva por infraestrutura profissional. 
Entre tantos empreendimentos que surgiram do momento delicado está o Studio Prohub que, segundo Victor Abs Cruz, um dos sócios, começou antes mesmo do nome existir.  “Comecei a empreender sempre desde cedo, foi algo que me acompanhou”, conta. Antes do negócio, ele já operava uma distribuidora de peças para celulares, com atuação nacional.
A virada veio com a pandemia. Como tantos outras, as operações do empreendedor foram impactadas drasticamente. “Meus negócios pararam de produzir de uma forma geral. Na mesma estrutura do empreendimento de celulares, eu tinha uma produtora de audiovisual para eventos”, lembra Victor. Ainda assim, ele conseguiu seguir com o serviço de manutenção de celulares, por ser considerado essencial.
Olhando para um contexto que exigia adaptação, o empreendedor decidiu apostar de maneira mais robusta em um dos seus negócios. “Comecei a perceber, na época, a migração de comunicadores tradicionais para o digital. Entendi que precisava olhar para isso com mais atenção” conta Victor.
Segundo o empreendedor, grandes nomes estavam deixando emissoras para criar conteúdo próprio, e as marcas patrocinadoras começaram a acompanhá-los. “Pensei ‘tem dinheiro envolvido nesse mercado’”, afirma. Essa constatação foi o ponto de partida para a criação da Prohub. Em apenas 16 dias, o primeiro estúdio foi montado e, no 17º, já contava com um cliente.
Fundada oficialmente em 2021, a Prohub começou com três sócios e, hoje, conta com 32 colaboradores. Os números dimensionam o crescimento do negócio em cinco anos. São mais de 2 mil projetos desenvolvidos, mais de 20 mil episódios de podcast gravados e mais de 2 bilhões de visualizações acumuladas nas multiplataformas. Atualmente, cerca de 75 produtos diferentes rodam simultaneamente na empresa.
No Rio Grande do Sul, a Prohub foi pioneira na estruturação profissional de estúdios de podcast. “Nós criamos esse mercado 100% no Estado”, afirma Victor. A empresa não apenas ofereceu estrutura técnica, mas também ajudou a definir padrões de preço, qualidade e operação. Esse pioneirismo teve impacto direto no ecossistema local, incentivando o surgimento de novos estúdios e ampliando a oferta de conteúdo digital.
A proposta da Prohub sempre foi ir além da gravação. Desde o início, a empresa estruturou uma solução 360°, que inclui roteiro, produção, edição e distribuição. “O cara tinha que pensar no conteúdo, o resto a gente resolvia”, explica Victor. Esse modelo facilitou a entrada de profissionais e empresas no universo digital, especialmente aqueles que não tinham experiência com comunicação.

Estruturação depois do pioneirismo 

Com o amadurecimento do mercado, a empresa também evoluiu. Hoje, o podcast é visto como porta de entrada e ferramenta estratégica, mas não mais como único produto. “Ele funciona para fluxo e visibilidade, mas o ticket é mais baixo”, analisa Victor. Em paralelo, a Prohub expandiu sua atuação para eventos, campanhas e projetos especiais, que oferecem maior retorno financeiro e impacto.
No segmento esportivo, a empresa encontrou uma de suas principais frentes de crescimento. A cobertura de eventos se tornou uma especialidade, com múltiplas equipes atuando simultaneamente. “Normalmente, estou com três ou quatro eventos ao mesmo tempo”, conta Victor. Em 2025, foram 292 eventos produzidos. A estratégia envolve não apenas registrar o evento, mas gerar conteúdo contínuo antes, durante e depois. “Faço com que o teu evento tenha mais visibilidade e gere dinheiro novo”, afirma.
Essa abordagem inclui estúdios montados dentro dos eventos, entrevistas com participantes e produção de conteúdos que mantêm o público engajado ao longo do ano. A empresa também prepara projetos de grande escala, como coberturas internacionais. “Vamos cobrir a Copa do Mundo por 45 dias”, revela Victor, destacando que estão entre as duas marcas do Rio Grande do Sul que irão cobrir o evento. 
Para a Prohub, o movimento da creator economy é claro: o conteúdo é uma ferramenta de construção de autoridade e conexão. Para a empresa, o valor não está apenas em viralizar, mas em gerar relevância consistente. “Isso é uma construção, não acontece da noite para o dia”, explica Victor. O podcast, nesse sentido, se destaca por permitir conversas mais autênticas e profundas, fortalecendo a relação entre criador e audiência.
Além disso, a empresa identifica uma mudança no comportamento das marcas. Antes focadas em grandes audiências, agora buscam conteúdos mais segmentados e estratégicos. Isso abriu espaço para empresas de diferentes áreas, da saúde ao varejo, utilizarem o formato como ferramenta de marketing e posicionamento.

Expansão do negócio

Entre os projetos futuros, a Prohub aposta na educação. A ideia é criar uma espécie de academia voltada para criadores, formando profissionais mais preparados e alinhados com o mercado. “Quero explicar para esse cara como melhorar a performance do negócio dele”, afirma Victor. Essa iniciativa também visa fortalecer o próprio ecossistema, gerando demanda mais qualificada.
Em termos de expansão, a empresa já estuda novos espaços, incluindo um estúdio de grande porte dentro da Pucrs, onde a empresa está instalada. A meta é consolidar ainda mais sua posição como hub de produção de conteúdo, especialmente no segmento esportivo.
Apesar do crescimento acelerado, Victor mantém uma visão centrada nas relações humanas. “O sucesso está na relação que tu crias com as pessoas nesse caminho”, afirma, apontando que a confiança construída com clientes e parceiros é um dos principais ativos da empresa. 
Olhando para trás, a trajetória é marcada por improviso e persistência. “Eu que colei as placas acústicas no início, no primeiro estúdio”, lembra Victor. 

Estúdio com vista panorâmica para o Guaíba é aposta de empreendedores

Natural de Nova Petrópolis, Alex Junior Reidel é um dos sócios do Save Studio, produtora de audiovisual inaugurada em 2025 e localizada no Instituto Caldeira. Ao lado dele, seu sócio Miguel Andorffy foi quem pensou na parceria, que começou anos atrás. Miguel comandava a Me Salva, startup de educação que consistia em um cursinho preparatório online para o vestibular e para o Enem. Com formação em cinema, Alex entrou na empresa em 2018 como estagiário e, com o tempo, foi se desenvolvendo dentro da empresa auxiliando no processo de transmissão das aulas. "Em 2020, o negócio passou a ter muita demanda, porque as pessoas não conseguiam ir para a escola e precisavam se preparar para o Enem", conta Alex.
Anos depois, Miguel vendeu a empresa, e Alex voltou para Serra para seguir trabalhando na área. O convite para abrir um negócio chegou anos depois. "Ele entrou em contato comigo e disse 'vamos abrir um estúdio em Porto Alegre', e eu só respondi 'bora'", conta Alex, sobre o início do Save Studio. Atualmente, o negócio se prepara para inaugurar, nos próximos dias, um segundo espaço em Porto Alegre, agora com localização no Pontal Shopping, na Zona Sul.
A ideia inicial dos sócios era apostar em um local onde haveria um potencial público, como o bairro Moinhos de Vento, devido à grande presença de profissionais da saúde que buscam pelo serviço. "O nosso sonho era o Instituto Caldeira, mas era um sonho distante", comenta Alex, contando que, em seguida, entraram em contato com a equipe de marketing do hub.
A partir de uma parceria que viabiliza os projetos audiovisuais do Instituto, o Save Studio ganhou seu primeiro espaço em Porto Alegre. "Quando veio essa ideia, logo chamei o Pedro, que já trabalhava comigo em Nova Petrópolis há uns oito anos. Aqui, ele é meu braço direito, esquerdo e minhas pernas", brinca Alex, sobre a relação com Pedro Alberto Franco, que toca a operação com ele.
Ainda na Serra, Alex e Pedro já estavam à frente de projetos com grandes marcas, como Sicredi, Dakota e Grupo Sugar Shoes. Segundo o sócio, o setor calçadista era o segmento com maior número de clientes. Aqui na Capital, devido à localização, o público mudou. A maioria dos clientes que busca os serviços do estúdio é do setor de tecnologia. "Todos os eventos que acontecem dentro do Instituto Caldeira a gente cobre. Isso faz muita gente nos conhecer", comenta Pedro. Alex aponta que a relação contrária também acontece: empresas que vão até o estúdio gravar e, depois de conhecerem o espaço, tornam-se membros do Instituto.
Atualmente, o carro-chefe do negócio são os podcasts e videocasts, consequência também da estrutura do espaço, que foi pensada para esse produto. Conforme Pedro e Alex, a produção de conteúdo audiovisual é um setor que exige não apenas alta capacidade técnica, mas também uma visão estratégica de mercado para se diferenciar em um cenário de rápida evolução. Com isso, é necessário que o negócio abranja uma vasta gama de produtos para atender às necessidades digitais das empresas.
O Save Studio utiliza uma abordagem técnica, como captação com três câmeras 4K independentes e áudios separados, o que garante maior flexibilidade na edição final. "São poucos lugares que fazem isso. Por esse motivo, acho que tem espaço para todo mundo no mercado, porque cada um escolhe fazer de um jeito", aponta Alex.
Entre os demais serviços, estão as produções de conteúdos orgânicos e anúncios pagos para as redes sociais, coberturas de eventos presenciais, fotografia e realização de eventos híbridos, com transmissões ao vivo para o público online. Outro destaque do negócio é na linha de educação e treinamento corporativos, que representam uma fatia significativa da demanda de grandes clientes. "Muita gente que atua nos setores de treinamento nos procura. É um dos serviços que mais fazemos", conta Alex.
Apesar do crescimento da marca, o sócio aponta alguns desafios relacionados à desvalorização do serviço. Devido à popularização do serviço, muitas vezes realizado de forma amadora, "o desafio maior é em educar o cliente sobre os diferentes níveis de qualidade e o alto custo de manutenção de uma estrutura profissional", explica Alex, comentando sobre o investimento para abrir o primeiro estúdio, avaliado em R$ 50 mil.
Mais do que realizar a captação de imagens, o diferencial, segundo Pedro, está em ser um prestador de serviço que resolve as demandas do cliente sem gerar novos problemas. "A gente sente que a contratação de uma produtora externa acaba criando para as empresas a obrigação de produzir conteúdo. Escutamos muito isso aqui, que tiramos um projeto do papel, que provavelmente seria adiado", acrescenta Alex.
O novo estúdio no Pontal representa a expansão do negócio. Com uma proposta estética e funcional diferente da sede original no Instituto Caldeira, o local fica no 22º andar, com vista panorâmica para o Guaíba.
Ao contrário do primeiro endereço, o espaço no Pontal busca uma pegada mais confortável e intimista. A decoração inclui tons mais escuros, persianas e iluminação com abajures, criando um ambiente mais acolhedor. A nova estrutura foi pensada estrategicamente para atrair profissionais das áreas jurídica e da saúde, que demandam um cenário com identidade visual mais sóbria ou específica. "Vão ser clientes que preferem um local mais reservado, sem o fluxo constante de pessoas passando", aponta o sócio.

A partir de bolsa de estágio, empreendedores consolidam rede de marca audiovisual

Dois jovens estudantes da Ufrgs e um investimento inicial que surgiu da bolsa de um estágio. Alguns negócios não nascem da forma ideal, mas do jeito possível. Idealizado pelos empreendedores Bruno Petinelli e Felipe Huff, o PoliStudio é um espaço de locação e produção audiovisual no Centro Histórico de Porto Alegre. O negócio nasceu de outra marca que os sócios já lideravam, a Poliverso, produtora audiovisual focada no digital.
A ideia do espaço físico veio a partir da necessidade de um escritório que atendesse a primeira marca e operasse como um laboratório de criação, além de ser uma forma de monetizar a estrutura por meio de locações externas.
Bruno ainda estava na faculdade de Relações Públicas quando se juntou ao seu sócio na Poliverso, em 2020. "Nunca tinha trabalhado com audiovisual e comecei a ver isso como uma possibilidade de empreender durante a faculdade", comentou Bruno. A partir disso, os amigos começaram a entender de que forma o negócio se estruturaria naquele momento. "Conversamos e pensamos nas possibilidades a partir dessa união: eu com meu lado mais de atendimento e planejamento comercial, e ele, que é mais técnico, ficou com a parte de captação e edição", conta o empreendedor.
Inicialmente, os dois chegaram a trabalhar com clipes musicais, mas entenderam que era necessário mudar o foco para consolidar a marca. "Não estar no eixo Rio e São Paulo te limita em alguns aspectos", aponta Bruno, sobre a aposta inicial na cena cultural. "O nosso divisor de águas foi ter fechado com a Renner e com a Braskem. Foram os nossos primeiros grandes clientes", lembra. Com o novo momento, o movimento foi buscar mais profissionalização, além de estudar mais o mercado. Com isso, a produtora foi separada em três categorias: publicidade, moda e institucional.
"Todo nosso trabalho é muito focado no digital. Não é uma produção muito enxuta para pessoa física, nem grandes produções para televisão. Pegamos aquela fatia do meio", conta Bruno. Com o boom digital como consequência da pandemia, o negócio teve a oportunidade de expandir, auxiliando as empresas a fortalecer sua presença no online. "Foi um momento complicado para a realização de algumas produções, não havia clima. Ao mesmo tempo, foi um período de oportunidades, de as pessoas olharem para o audiovisual como uma parte importante do negócio", relata.

Negócio consolidado, hora do espaço físico

Além da Renner e da Braskem, a Poliverso passou a atender outras grandes marcas como Gang, Tramontina, Youcom e Red Bull. Com o crescimento, surgiu a necessidade de dar um passo a mais na estrada do empreendedorismo. "Para a empresa crescer, a gente precisava ir para um espaço, trabalhar junto. E a ideia desde o início era que, se fôssemos para um espaço, ele precisaria ser monetizado."
Os sócios encontraram uma sala em um prédio na Siqueira Campos, no Centro Histórico, e, em fevereiro de 2024, assinaram o contrato. Logo depois, tiveram que paralisar a operação devido às enchentes. "Foi mais um momento em que, se a gente não tivesse organização financeira, teríamos quebrado", observa. Em outubro, eles conseguiram inaugurar o espaço.
Atualmente, o estúdio conta com instalações preparadas para receber seus clientes e também outros profissionais liberais. Espaço com fundo infinito, cortinas, área de maquiagem e equipamentos próprios ficam à disposição para locação. Além disso, o local oferece comodidades para que clientes possam acompanhar e aprovar as produções confortavelmente. "O nosso espaço pode ser locado por horas ou por meio de assinaturas recorrentes", explica Bruno sobre os modelos de locação.
Segundo o empreendedor, o Poliestúdio funciona como uma peça central no grupo de marcas de Bruno e Felipe, que inclui a Poliverso e, recentemente, a Garfo — vertical de negócios dedicada exclusivamente ao setor de gastronomia, comandada também pelo empreendedor Paulo Munhoz. "É um mercado muito rico que tem uma demanda reprimida", observa Bruno.
Para os sócios, ter um estúdio próprio conferiu peso e profissionalismo às suas marcas, ajudando a consolidar a autoridade deles no mercado audiovisual de Porto Alegre, apesar de serem empreendedores jovens. "Éramos dois guris da Ufrgs, na casa dos 20 anos. Sentamos em mesas com pessoas que têm de carreira a nossa idade."