O uso de telas na infância e na adolescência tem sido fonte crescente de preocupação entre pais, cuidadores e educadores. Conforme dados disponíveis no Guia sobre usos de Dispositivos Digitais por crianças e adolescentes, disponibilizado pelo governo federal em 2025, 93% da população de 9 a 17 anos é usuária de internet no Brasil, número que compreende cerca de 24,5 milhões de crianças e adolescentes. O percentual de jovens que relatam o uso da internet pela primeira vez até os 6 anos de idade foi de 23% em 2024 — ano de realização da pesquisa. Em 2025, a proporção era de 11%. Ainda conforme o levantamento, 83% dos usuários de 9 a 17 anos relatam possuir redes sociais. Os números foram extraídos da pesquisa TIC Kids Online Brasil, realizada anualmente pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).
Mudanças recentes na legislação envolvendo crianças e adolescentes na internet mostram a preocupação acerca do tema. Em vigor desde janeiro de 2025, a Lei nº 15.100 proíbe o uso de celulares em escolas públicas e privadas. O ECA Digital, lançado em setembro do mesmo ano, estabeleceu novas regras com foco na proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
É nessa perspectiva que negócios surgem como alternativas às telas. Uma das novidades de Porto Alegre é o Clube Juntô, espaço recém-inaugurado em uma ampla casa do bairro Santa Cecília, que propõe oficinas e espaços de convivência para adolescentes de até 17 anos. A iniciativa é capitaneada pelas empreendedoras Deborah Vier Fischer, Priscila Duarte Guerra e Mariana Craidy Kfouri. As três se conheceram em ambiente escolar: Deborah era coordenadora pedagógica da Escola Projeto, enquanto Priscila e Mariana eram mães de alunos da escola. Foi a partir dessa convivência que perceberam a demanda por um espaço pensado para adolescentes. "Eu e a Mari temos filhos nessa faixa etária, adolescendo, e começamos a pensar na ausência de espaço para eles. Tem muitas propostas para crianças, mas tem uma faixa etária que parece que eles um pouco se desinteressam das atividades que já faziam, tem um apelo muito forte dos eletrônicos, e não tem tantas propostas", reflete Priscila.
Foi essa provocação que fez com que o trio criasse o Clube Juntô, que tem a proposta de oferecer oficinas diversas, mas também operar como um clube, sendo um espaço onde os adolescentes podem permanecer e conviver em segurança. "Fizemos uma conversa com eles, perguntando o que faria eles saírem de casa e da internet. E aí começamos a construir esse espaço em cima do que eles nos disseram, que era sair de casa para estar com os amigos, para praticar algum esporte, ter uma banda", explica Mariana. "Fomos tentando compor o espaço com essa escuta inicial. E a tendência é seguir ouvindo", completa Deborah.
O espaço funciona com recorte para duas faixas etárias. Para crianças de 8 a 11 anos, são oferecidas atividades no turno da manhã. "Construímos a proposta pensando na adolescência, mas sentimos que precisávamos ter algo para as crianças que estão começando a entrar nessa fase. De manhã, para os menores, serão oficinas, atividades que a pessoa se matricula individualmente", explica Priscila. Já no turno da tarde, serão recebidos os adolescentes de 11 a 17 anos no formato de clube. "À tarde, temos essa modalidade de clube, que a pessoa se associa. Para isso, precisa estar matriculado em pelo menos uma atividade, mas pode usufruir dos espaços e de atividades que não dependam de matrícula", contextualiza a empreendedora.
Entre as oficinas disponíveis, estão as oficinas de teatro, performance, audiovisual, literatura, banda, dança, escrita criativa, treinamento funcional, experiências artesanais e artísticas, além de uma roda de conversa. "A ideia é ter um pouco de cada coisa e também ter propostas que não são desse programa e que vamos oferecer, como jogos de RPG, festas temáticas, encontros com convidados, momento de conversação em inglês", diz Deborah, ressaltando a proposta de construir um espaço que esteja conectado com as demandas dos adolescentes. "O pertencimento é importante para todas as faixas etárias, mas para essa é em especial. Então, queremos que eles sintam que nesse espaço eles podem trazer ideias, colaborar, ser parte. Mas para iniciar precisávamos partir de algumas propostas", completa.
A sala de convivência foi pensada para proporcionar momentos descontraídos para os adolescentes
Isadora Jacoby/Especial/JC
Convivência longe das telas
Conseguir levar crianças e adolescentes para atividades offline tem sido cada vez mais desafiador. No Clube Juntô, a percepção não é diferente. "O maior desafio é trazê-los", garante Priscila. Para driblar isso, a ideia das empreendedoras é estar perto dos adolescentes, entendendo as demandas. "Adolescência é um período que ninguém quer mexer muito. Falamos muito sobre infância, sobre a vida adulta. Mas pensamos na contramão disso, queremos viver a adolescência com eles. Tem muita coisa bacana para eles pensarem, fazerem e produzirem juntos, mas precisa de um espaço para isso, reflete Deborah.
Para garantir uma experiência longe das telas, os celulares não são permitidos no clube, que tem um espaço seguro para que os jovens deixem os aparelhos na entrada. Mas ficar sem celular não significa estar incomunicável. No pátio da casa, foi instalado um orelhão onde os adolescentes poderão fazer ligações. Cada espaço da casa foi pensado para proporcionar a conexão entre os adolescentes. A garagem foi transformada em um estúdio onde eles poderão formar uma banda. Na biblioteca, as prateleiras foram recheadas com leituras que chamem a atenção de pessoas nessa faixa etária. Atelier, espaço de convivência com jogos e fotos e sala de dança estão entre os espaços. A casa foi escolhida por ser térrea e, assim, ser adapta e mais acessível para todos.
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A ideia é que os adolescentes se apropriem do Juntô como um espaço deles, garantem as empreendedoras. "Até por isso a construção das modalidades para crianças e adolescentes são diferentes, porque as crianças não têm a autonomia que a gente espera dos adolescentes. As crianças precisam de auxílio, mas os adolescentes podem se virar. Vamos ter oficinas pontuais de fazer coisas de casa, trocar lâmpada, tomada", conta Mariana.
Deborah, Mariana e Priscila, empreendedoras do Clube Juntô, na biblioteca do espaço
Isadora Jacoby/Especial/JC
Informações gerais sobre o Clube Juntô
O Clube Juntô fica na rua Felipe de Oliveira, nº 323, no bairro Santa Cecília, em Porto Alegre. As adesões ao formato de clube são semestrais, mas a taxa de associação será isenta para as inscrições nesse primeiro momento. Associados têm direito à gratuidade ou desconto especial em atividades extras, como festas temáticas, torneios de jogos de mesa, eventos de filmes. Ainda, é possível realizar a inscrição em oficinas, e há descontos para irmãos. Mais informações sobre o clube podem ser conferidas pelo WhatsApp (51) 98010-3113 ou pelo Instagram (@clube.junto).
O espaço funciona como clube e também oferece oficinas
Isadora Jacoby/Especial/JC

