De um tempo para cá, o hibridismo entre sabores, ou, a grosso modo, a mistura entre ingredientes para preparo de drinks em casa ou em bares, virou oportunidade de mercado. Um exemplo dessa onda intitulada ready-to-drink — pronta para beber — é o Matito (@bebamatito).
Quem costuma sair à noite na Capital, já deve ter se deparado com uma garrafa verde na mão de muitos jovens porto-alegrenses. O drink à base de mate, rum, guaraná e limão virou febre ainda em 2024 na Capital.
Quem costuma sair à noite na Capital, já deve ter se deparado com uma garrafa verde na mão de muitos jovens porto-alegrenses. O drink à base de mate, rum, guaraná e limão virou febre ainda em 2024 na Capital.
Origem na adversidade
Em um litro com 7,5% de teor alcoólico, a bebida, que rapidamente ganhou adeptos, foi criada algum tempo depois das enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul. À frente da ideia está o casal Leandro Bonin e Luana Brum, que comanda o Metz (@bar.metz), bar fundado em 2017 e conhecido pelos sets de DJs e transmissões de partidas de futebol.
O drink surgiu devido às adversidades logísticas causadas pela tragédia climática, quando uma bebida mineira à base de chá-mate deixou de chegar ao bar. Ao perceber a demanda do público mais jovem, que já consumia o produto, o casal decidiu criar uma alternativa própria para oferecer aos clientes. Eis que começou a produção do Matito, de forma artesanal, no próprio bar, servido inicialmente em barris. Hoje, em razão do aumento da demanda, o fornecimento do Matito fica a cargo de uma fábrica terceirizada.
Onde tudo que se planta cresce
Leandro conta que a identidade visual da marca, com a hegemonia do verde em referência ao mate, seguida pelo amarelo e vermelho, é intrínseca à cultura gaúcha, já que incorpora as cores da bandeira rio-grandense.
"O Matito é uma bebida gaúcha, feita aqui em um período muito difícil do nosso Estado. Tentamos várias derivações, algumas com Metz, e todas acabavam sendo barradas por alguma questão de registro, até chegarmos no Matito, um nome bem gaúcho", explica.
Outro ponto que ele elenca como peça-chave para o sucesso do produto é a aposta em um ingrediente nativo da América do Sul, descoberto pelos indígenas guaranis, presente na memória afetiva de infância de muitos gaúchos.
"Acho que quase todo mundo tomava quando jovem. O chá mate da mãe, da avó, que servia e coava, bem gelado, na jarra. E não só o gaúcho, mas o Sul em geral", destaca, rememorando um episódio no qual uma cliente do Metz disse que o gosto do chá lembrava o da avó.
“Ela começou a chorar na nossa frente, de emoção, ao lembrar daquele sabor da infância. Isso foi muito significativo para a gente”, completa.
"O Matito é uma bebida gaúcha, feita aqui em um período muito difícil do nosso Estado. Tentamos várias derivações, algumas com Metz, e todas acabavam sendo barradas por alguma questão de registro, até chegarmos no Matito, um nome bem gaúcho", explica.
Outro ponto que ele elenca como peça-chave para o sucesso do produto é a aposta em um ingrediente nativo da América do Sul, descoberto pelos indígenas guaranis, presente na memória afetiva de infância de muitos gaúchos.
"Acho que quase todo mundo tomava quando jovem. O chá mate da mãe, da avó, que servia e coava, bem gelado, na jarra. E não só o gaúcho, mas o Sul em geral", destaca, rememorando um episódio no qual uma cliente do Metz disse que o gosto do chá lembrava o da avó.
“Ela começou a chorar na nossa frente, de emoção, ao lembrar daquele sabor da infância. Isso foi muito significativo para a gente”, completa.
Querido pela Geração Z
O Matito custa R$ 28,00 e vem numa garrafa PET grande, e isso tem um motivo: o público jovem, via de regra, sai para curtir a vida noturna em grupo, comportamento que, segundo Leandro, aponta uma tendência de mercado.
"Ver os jovens consumindo o nosso produto e, muitas vezes, até ovacionando, é surreal, inenarrável. É um produto pensado para esse público, na questão de sabor, de ingredientes e praticidade. A embalagem de 1 litro é voltada para o compartilhamento, para ser consumida em grupo", relata o empreendedor, que aconselha beber o Matito acompanhado de rodelas de limão e gelo, embora nem sempre a Geração Z siga os mandamentos à risca.
“Às vezes, quando chega o final da noite e tudo se esgota, a gente acaba vendendo o Matito quente e sem gelo. E a galera consome mesmo assim, é uma loucura”, brinca.
"Ver os jovens consumindo o nosso produto e, muitas vezes, até ovacionando, é surreal, inenarrável. É um produto pensado para esse público, na questão de sabor, de ingredientes e praticidade. A embalagem de 1 litro é voltada para o compartilhamento, para ser consumida em grupo", relata o empreendedor, que aconselha beber o Matito acompanhado de rodelas de limão e gelo, embora nem sempre a Geração Z siga os mandamentos à risca.
“Às vezes, quando chega o final da noite e tudo se esgota, a gente acaba vendendo o Matito quente e sem gelo. E a galera consome mesmo assim, é uma loucura”, brinca.
Histórias de bastidores
Relembrando a euforia pela bebida nos tempos em que o Matito era fornecido em barris de 30 litros para festas e eventos, o empreendedor narra uma situação que define como “tragicômica”, especialmente por envolver recipientes de PET pressurizados.
"Durante uma festa, desregularam o equipamento e não conseguiam extrair o Matito. Então, cortaram os barris para servir a bebida em jarras. Furá-los era um risco gigante, porque estavam pressurizados e poderiam explodir. No fim, nada aconteceu, consumiram tudo e devolveram os barris cortados. A gente brinca que eles 'assassinaram' os barris", recorda Leandro, da situação que virou motivo de risada entre os envolvidos, que batem ponto no bar até hoje.
"Durante uma festa, desregularam o equipamento e não conseguiam extrair o Matito. Então, cortaram os barris para servir a bebida em jarras. Furá-los era um risco gigante, porque estavam pressurizados e poderiam explodir. No fim, nada aconteceu, consumiram tudo e devolveram os barris cortados. A gente brinca que eles 'assassinaram' os barris", recorda Leandro, da situação que virou motivo de risada entre os envolvidos, que batem ponto no bar até hoje.
Onde está o Matito?
O refresco alcoólico de mate com rum, guaraná e limão pode ser encontrado no Metz e em outros bares de Porto Alegre e Região Metropolitana, com prevalência nos bairros Rio Branco e Cidade Baixa.
“Só na (rua) Mariante, a gente atende cinco bares. E, graças a Deus, tem sido cada vez maior a procura dos bares e restaurantes, que nos procuram para ter a nossa bebida”, comemora o empreendedor, que já viu seu produto chegar ao Litoral gaúcho, bem como a Santa Catarina e a São Paulo.
“Só na (rua) Mariante, a gente atende cinco bares. E, graças a Deus, tem sido cada vez maior a procura dos bares e restaurantes, que nos procuram para ter a nossa bebida”, comemora o empreendedor, que já viu seu produto chegar ao Litoral gaúcho, bem como a Santa Catarina e a São Paulo.
Novos Matitos e próximos passos
Apesar de ser ótimo para compartilhar, o Matito encontra-se em processo de estudo para, no futuro, adotar diferentes embalagens. Segundo Leandro, o foco se concentrará, primeiramente, nas versões menores — ainda a serem definidas entre lata ou long neck — para alcançar o público de consumo individual.
"Hoje, a gente estuda embalagens menores, mas também imaginamos a possibilidade de frascos maiores", sinaliza.
Em relação ao mercado de bebidas prontas, o empreendedor acredita que há margem para crescimento, e não descarta novas bebidas no mesmo estilo do Matito.
"A gente acredita que o mercado de drinks prontos para consumo está em franca expansão no Brasil e no mundo. O nosso foco e dedicação, neste momento, estão voltados majoritariamente para o mercado de bebidas, estamos sempre de olho e analisando oportunidades que possam surgir dentro desse segmento", declara.
"Hoje, a gente estuda embalagens menores, mas também imaginamos a possibilidade de frascos maiores", sinaliza.
Em relação ao mercado de bebidas prontas, o empreendedor acredita que há margem para crescimento, e não descarta novas bebidas no mesmo estilo do Matito.
"A gente acredita que o mercado de drinks prontos para consumo está em franca expansão no Brasil e no mundo. O nosso foco e dedicação, neste momento, estão voltados majoritariamente para o mercado de bebidas, estamos sempre de olho e analisando oportunidades que possam surgir dentro desse segmento", declara.
Apostando na conveniência, drink de Caxias do Sul combina cola e bitter
Criado em Caxias do Sul, o Berg Cola é um drink alcoólico composto por um terço de bitter e dois terços de refrigerante de cola. A ideia pertence ao grupo Maori do Brasil, uma das principais fabricantes de bebidas no Rio Grande do Sul.
Quem está por trás do processo de criação é Vitor Loreto, diretor responsável pela parte de marketing e inovação do grupo. Ele destaca que a proposta nunca foi "inventar a roda", e sim facilitar a vida do consumidor.
"Já existia uma aderência do público a esse "trago" pronto, sem precisar ter o desencaixe financeiro de comprar uma garrafa de cada ingrediente para preparar a bebida em casa", explica Vitor, que conheceu a mistura em 2022, quando experimentou junto de dois sócios, direto de um barril, mas não curtiu. Foi então que ele fez um apontamento aos parceiros: "essa bebida tem potencial, a gente podia fazer direto long neck".
Do barril à garrafa
A ideia de engarrafar a bebida foi bem aceita, e a produção levou em conta o aval de um químico, que testou diversos extratos até chegar à graduação ideal. Inicialmente, o diretor lembra que os primeiros formatos do drink, a garrafa de 1,5L e a lata de 269ml, foram lançados com 14% de teor alcoólico.
"A primeira Berg Cola foi uma coisa do nosso gosto, uma bebida mais forte", rememora Vitor, que teve de mudar a porcentagem de álcool presente na long neck para se adequar ao "gosto do mercado". A garrafa de vidro leva 8% de grau etílico, número que segue proporção parecida aos concorrentes, conforme mapeia o diretor.
Por ter nascido na Serra Gaúcha, a bebida respira tradicionalismo e consequentemente tem um caráter mais regionalizado. Em sua paleta de cores, o verde da erva-mate predomina, em consonância ao dourado, que faz aceno às riquezas do Rio Grande do Sul.
O público também é um recorte: homens de 20 a 50 anos são os maiores consumidores da Berg Cola. Um dos consumos mais usuais, inclusive, é tomar a mistura de bitter com refrigerante de cola enquanto prepara um churrasco, conta o diretor.
Mas tem novidade pensada para o segmento feminino: nos próximos dias, será lançada uma bebida de gin com bergamota. "É uma bebida com bergamota mesmo, não vai ser tangerina ou qualquer outro tipo de nome. O diferencial é o próprio aroma da bergamota, que vai lembrar aquele cheiro que fica na mão quando descascamos a fruta", destaca.
A Berg Cola faz parte da linha Santo Trago, uma das lojas do grupo Maori. Apesar da forte demanda gaúcha pela bebida, o Berg Cola conquistou a aceitação da região Centro-oeste, impulsionada pela presença de gaúchos em outros estados.
"A colônia gaúcha se identifica muito com um certo saudosismo, justamente pela bebida ser daqui. Isso acaba deixando o produto bem regionalizado, por isso em breve teremos mudanças, para ganhar mais amplitude e não ficar restrito ao nosso próprio mundo", afirma.
Inovação exige estrutura própria
A produção acontecia, num primeiro momento, em fábricas terceirizadas, porém Vitor notou que, agora inserido em um mercado que a todo momento dispõe de ideias novas, insistir e apostar na capacitação de maquinários de terceiros não era a melhor opção. Pelo contrário, era custoso e demorado.
"A gente viu o quanto é difícil e moroso inovar em uma fábrica terceirizada, com limitações de estrutura e capacidade. Por isso, decidimos criar nossa própria indústria, como um laboratório de ideias", conta o diretor sobre a Flex Bebidas, especializada na criação, desenvolvimento e produção de bebidas personalizadas.
A Flex funciona como uma indústria white label, que pega a ideia de qualquer cliente, cria a fórmula, o rótulo, produz e até exporta. "A gente optou por entregar um serviço mais completo, não só produzir. Hoje, entregamos um verdadeiro 360° ao cliente, indo da ideia até o produto na gôndola", aponta Vitor.
"O cliente pode chegar só com a ideia, e a gente apoia em toda a cadeia. No pacote entram formulação, branding, desenvolvimento de embalagem, produção, armazenagem e logística. É diferente das indústrias tradicionais, que operam na ociosidade de linha. A nossa já foi estruturada com capacidade instalada e flexibilidade para desenvolver e escalar novos produtos", conclui.
Por questões logísticas e estratégicas, no decorrer de eventos climáticos que atingiram o Rio Grande do Sul, o parque fabril foi instalado em São Paulo, no município de Mogi Mirim.
"Estamos a 40 minutos do maior aeroporto de carga do Brasil, a duas horas e meia de um dos principais aeroportos do país e a cerca de 20 quilômetros de rodovias que cruzam o Brasil em todos os sentidos. Além disso, o custo de insumos é mais competitivo. Como nossa produção já é nacional e até internacional, essa localização nos deixa melhor posicionados", justifica.
O consumo mudou
Atento ao mercado de bebidas, o diretor de inovação da Maori do Brasil observa duas tendências: o consumo começou a se tornar muito individualizado, e a experimentação está mais forte do que nunca.
"Nos últimos 10 anos, o consumo começou a se tornar muito individualizado. Os volumes cada vez menores, como o leite de meio litro, refletem isso. As pessoas saem de casa mais cedo, e o mercado está posicionado para atender esse consumo em menor escala", entende Vitor.
"É muito parecido com o mercado de vinhos: na gôndola, há muitos rótulos, e a recompra na maioria das vezes é por outra garrafa. O consumidor sempre experimenta outro rótulo, mantendo uma grande janela de experimentação. Vejo esse mercado em crescimento, principalmente por causa da experimentação com volumes menores e também pelo perfil relacionado ao álcool, que vem diminuindo", exemplifica.
Essa diminuição no consumo do álcool, segundo Vitor, virou oportunidade de mercado para o Santo Trago. No segundo semestre de 2026, a linha entrará no mercado de drinks não alcoólicos, visando grupos de pessoas que querem manter aquela dinâmica social do happy hour, mantendo o aroma e o sabor da bebida, mas sem consumir álcool.
"Drinks prontos são uma alternativa democrática para experimentar novos sabores", afirma especialista do Sebrae
Em 2025, segundo projeções da Market Research Future, consultoria norte-americana de pesquisa de mercado baseada em Nova York, o setor de bebidas alcoólicas prontas para consumo, os chamados ready-to-drink (RTD), movimentou cerca de US$ 2,2 bilhões no Brasil. Em reais, o valor equivale a aproximadamente R$ 11,8 bilhões, representando um crescimento de 4,5% em relação a 2024.
Roger Klafke, especialista em Alimentos e Bebidas do Sebrae-RS, aponta fatores que contribuíram para o aumento do consumo dessas bebidas. "Acredito que isso se deve, em grande parte, à conexão com o consumidor mais jovem, mas não exclusivamente. Também dialoga com um público mais aberto à experimentação. Essa categoria está fortemente associada à conveniência, à praticidade e à facilidade de acesso, especialmente em momentos de confraternização e celebração", afirma.
Ele exemplifica: ao ir a uma coquetelaria, o consumidor pode gastar na faixa de R$ 50,00 por um único drink, sem a garantia de que vai gostar. Por isso, Roger classifica o mercado de RTD como uma "alternativa democrática", que permite provar novos sabores, aromas e combinações por um valor muito mais acessível. "No varejo, essas bebidas costumam ser vendidas em latas de até 269 ml, o que facilita ainda mais a experimentação. Esse volume reduzido permite testar diferentes combinações sem um compromisso financeiro elevado", observa.
O especialista também destaca o papel das plataformas de e-commerce, como Zé Delivery, Ifood e, mais recentemente, a Amazon Now, que promete entregas em até 15 minutos. "Facilita, pois o consumidor pode escolher o produto na plataforma, fazer o pedido e, em questão de minutos, ele já está em casa", pondera Roger, que também enxerga a ampliação desse mercado interligado à mudança no perfil das bebidas.
Menor teor alcoólico e oportunidades futuras
Com mais opções envolvendo menor graduação alcoólica e até opções sem álcool, o especialista diz que agora é possível sentir novas sensações sem carregar o "peso" da ressaca do dia seguinte. "Observamos um movimento claro em direção a produtos mais acessíveis em diferentes dimensões: no preço, no paladar e também na menor graduação alcoólica. Isso facilita a adesão e amplia o alcance desses produtos", declara.
No que tange à indústria, Roger aponta para um cenário de grande oportunidade, em virtude da gama de opções presentes nos drinks que funcionam como um verdadeiro laboratório de ideias. "Dá para testar novos sabores, ingredientes e combinações, ao mesmo tempo em que coletam a resposta do consumidor. Em síntese, as bebidas prontas para consumo ampliam o acesso, incentivam a experimentação e criam um ciclo que pode levar, posteriormente, ao consumo de produtos mais sofisticados e de maior valor agregado", completa.
Para o futuro, o estudo da Market Research Future é otimista. As estimativas esperam que, até 2035, o mercado ready-to-drink movimente mais de US$ 3,4 bilhões na economia brasileira. Roger concorda com o cenário projetado e reforça a confiança na categoria. "Há um conjunto consistente de oportunidades para inovação, ancoradas em novas demandas de consumo e na ressignificação da experiência de beber", finaliza.

