Júlia Fernandes

Júlia Fernandes
Repórter

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Júlia Fernandes Repórter


Marcas de quem Decide 2026

'Crescimento sustentável não nasce da vaidade, mas da consistência', afirma Geraldo Rufino

O fundador da JR Diesel, maior centro de desmontagem veicular do Brasil, foi um dos palestrantes do Marcas de Quem Decide
Fundador da maior empresa de reciclagem de peças de caminhões na América Latina, Geraldo Rufino encerrou a 28ª edição do Marcas de Quem Decide. À frente do JR Diesel, centro de desmontagem veicular, o empreendedor compartilhou com a plateia sua história e as lições de uma carreira que iniciou como catador de latas.
Fundador da maior empresa de reciclagem de peças de caminhões na América Latina, Geraldo Rufino encerrou a 28ª edição do Marcas de Quem Decide. À frente do JR Diesel, centro de desmontagem veicular, o empreendedor compartilhou com a plateia sua história e as lições de uma carreira que iniciou como catador de latas.
Natural de Campos Altos, Minas Gerais, Rufino mudou-se ainda criança para a favela do Sapé, em São Paulo. Aos oito anos, na própria comunidade, ele começou trabalhar catando latinhas. Aos 14 anos, passou a ser office boy da Playcenter, um parque de diversões de São Paulo, e seguiu na operação, tornando-se diretor da marca.

À frente das operações da Playcenter, o empresário resolveu empreender paralelamente, comprando uma frota de caminhões para realizar o transporte de adubo. Em 1985, dois veículos da empresa bateram e tiveram perda total. Para dar conta do prejuízo e honrar com os débitos em aberto, Rufino desmontou os caminhões, vendeu as peças e descobriu, naquele momento, uma oportunidade no mercado de reciclagem automotiva. Assim nasceu a JR Diesel.

De lá para cá, Rufino acumula experiências atravessadas por recomeços. Ao revisitar a própria trajetória, marcada por quebras, reviravoltas e uma dívida milionária em dólar, Rufino afirmou que nunca fracassou. “Eu só fiquei sem dinheiro”, brincou, ao destacar que a credibilidade sempre foi seu maior ativo. Além de empreendedor, ele é autor de três livros, palestrante e top voice do Linkedln.

Escalabilidade e credibilidade andam juntas

Ao fundar uma das maiores empresas de peças usadas da América Latina, o empreendedor reforçou que crescimento sustentável não nasce da vaidade, mas da consistência. “Se surgir uma pedra no caminho, ela vai servir de degrau”, declarou. Hoje, a JR Diesel fatura cerca de R$ 50 milhões a 60 milhões por ano, e, de acordo com Rufino, a escalabilidade do negócio não é tratada apenas como uma métrica técnica, mas como uma combinação de mentalidade empreendedora, resiliência e da capacidade de simplificar processos para crescer de forma sustentável.

Atualmente, a marca mantém um crescimento de 30% ao ano, mesmo diante de crises que aparecem no mercado. Para Rufino, um erro comum que impede a escala de alguns negócios é tentar "reinventar a roda". “O universo nos oferece tudo pronto. Não tenta reinventar a roda, copia. Você quer empreender, criar uma marca nova, copia. Isso não significa copiar uma marca existente, mas desenvolver a partir do que já vem sendo feito. Não adianta você querer vender um espaço na Lua, no momento isso não vai funcionar”, explicou o painelista, afirmando que é necessário colocar tempo e investimento no que o mercado precisa e em coisas que já estão sendo feitas.

Para além de escalar com o seu negócio, Rufino aprendeu a fomentar a sua imagem como empreendedor. Após uma marca consolidada, o empreendedor levou seu propósito para as páginas de livro, transformando sua história em best-sellers e palestras para milhares de pessoas. Atualmente, a receita de Rufino vem de outras frentes que vão além da JR Diesel.

Para um público formado por lideranças empresariais, jovens empreendedores e profissionais da comunicação, Rufino destacou que uma marca começa na identidade.Antes de falar da sua marca, você precisa saber quem é você”, afirmou.

A credibilidade é um ponto central para todos negócios, apontou Rufino. “A credibilidade tem uma força extraordinária. Por isso que falo, quebrei seis vezes, mas eu nunca fracassei, porque só fiquei sem dinheiro, nunca perdi meus valores, minha moral e minha credibilidade”, refletiu.

Liderança e o reconhecimento do erro

Rufino acredita que títulos e cargos são rótulos, já que o que sustenta uma reputação é propósito. “Empreender é comportamento. É a atitude de servir, fortalecer e proteger.” Ele ainda destacou o papel de um líder dentro de uma empresa. “O verdadeiro líder é aquele que dá direção, que fortalece, que protege, que se doa, que faz o simples com amor, com coração.”

Em relação aos desafios na trajetória empreendedora, Rufino utilizou a analogia de um veículo para explicar que o empreendedor não deve se prender aos erros e problemas de ontem. “O retrovisor é pequeno, porque o que passou deve servir apenas de aprendizado”, avaliou o empresário, comentando que, assim como o motorista, o empreendedor precisa olhar para frente sempre. “O para-brisa é muito maior, porque é para lá que se está indo”, refletiu.

O painelista ainda provocou o público a pensar sobre a autorresponsabilidade. Segundo ele, os seres humanos, muitas vezes, provocam os próprios problemas, devendo, portanto, assumir a responsabilidade por resolvê-los em vez de culpar fatores externos ou o destino. “Você é o criador do problema, portanto ele é uma criatura sua, nunca vai ser maior do que você”, trouxe Rufino sobre como é possível controlar situações que fogem do esperado.

Segundo o empreendedor, quando a pessoa reconhece que é responsável por cavar seu próprio poço, paralelamente passa a conhecer as ferramentas que usou e o caminho de volta para sair dele. Entre os conselhos centrais, Rufino indicou evitar a terceirização dos desafios. “Ao passar o problema para outra pessoa, você permite que ele seja alimentado por terceiros, tornando-se algo desconhecido que pode acabar engolindo você”, destacou.

Mulheres nas organizações e base familiar

Entre tantas inspirações, Rufino destaca a sua mãe, a primeira e a mais importante mentora. Ainda quando criança, o empreendedor teve que lidar pela primeira vez com o luto. Ele afirmou que o título mais importante que possui não é o de empresário ou palestrante, mas sim o que sua mãe lhe deu. “Quando eu era criança, ela me disse que eu era o ‘filho do cara’, filho de Deus, como todos nós.” Para ele, essa é a sua verdadeira marca, que o torna extraordinário assim como qualquer outro ser humano. Além disso, de acordo com o empreendedor, foi ela quem o ensinou que ser negro era um privilégio e algo a ser celebrado.

Rufino creditou grande parte do seu sucesso à capacidade de ouvir as mulheres. Ele afirmou que o comando é feminino, e que as mulheres possuem uma visão antecipada dos negócios, sendo o pilar e o alicerce da família e, consequentemente, da base empreendedora. “Tudo começa na família. E o pilar da família são as mulheres”, afirmou, ao compartilhar aprendizados da mãe, a quem atribui seus valores de gratidão e disciplina.

Para ele, empresas que ignoram essa força perdem potência estratégica e sensibilidade de mercado. Ao falar sobre gestão, o empreendedor reforçou seu propósito que guia sua atuação como mentor: provocar autoconhecimento. “Você pode um pouquinho mais. O gigante já está dentro de você”, concluiu.