Para além do impacto em tarefas repetitivas e rotineiras, a IA irá alterar significativamente o cenário criativo. Na opinião de Janaina Augustin, consultora de comunicação e Inteligência Artificial generativa, "a Inteligência Artificial está democratizando a criatividade". A especialista participou de painel que abordou o equilíbrio entre automação e criação durante o RD Summit, ao lado de Renata Decoussau, head de brand strategy da IBM.
"Antes, a criatividade era algo para poucos. Hoje, qualquer pessoa pode fazer um filme, contar uma história, criar algo que antes parecia impossível", considera Janaina. Para ela, essa democratização não elimina o papel dos profissionais criativos, mas amplia o campo de possibilidades. "A IA com certeza libertou a criatividade. Mas um bom filme ainda precisa de grandes roteiristas, atores e diretores. O que muda é a assistência, e agora qualquer um pode experimentar", explica.
Renata complementa que o grande desafio é compreender essa nova escala entre criação e automação. "Volume de conteúdo não significa qualidade de conteúdo", destacou. "É tentador cair na ilusão de que todo mundo pode produzir, porque, na teoria, pode, mas precisamos de repertório e sensibilidade para entender o que é original de verdade", ressaltou.
Segundo a profissional, a escuta é hoje uma das tecnologias mais poderosas da criatividade, e essa habilidade a IA não consegue dominar. "Com a escuta, a barra de tudo sobe, e o que se destaca é o que tem propósito e o que cria conexão de verdade", afirma.
Para as duas especialistas, o medo que acompanha o avanço das inovações não é novidade na história. "Quando cheguei, tudo era mato. Comecei a trabalhar quando veio o YouTube, lá em 2005, e de lá para cá surgiu tanta coisa. Toda nova tecnologia gera pânico", observou Janaina. "Mas, em pouco tempo, a gente se acostuma. Quando vi o ChatGPT pela primeira vez, fiquei em choque. Hoje ele é um braço meu. Não consigo mais imaginar meu trabalho sem ele", admite.
O painel, assim como outros ao longo do evento, trouxe à tona como o uso da IA pode significar diferentes coisas de acordo com o contexto em que está inserida. "Para uma grande empresa de streaming, talvez não seja ético usar atores artificiais. Mas, para uma pequena empresária no interior, conseguir criar um avatar humano para vender suas roupas pode mudar sua vida. Depende do significado e da escala", expôs Janaina.
Outra discussão que tem ganhado mais espaço é a regularização do uso de inteligências artificiais. Renata rememora que, ao longo dos últimos 20 anos, assistiu o mundo incorporar muitas novas tecnologias, como rádio, TV e internet, mas que "nada é escrito em pedra. Cabe à comunidade criativa experimentar e moldar o futuro. O importante é usar e questionar para construir um caminho com ética e propósito".
"A IA é um espelho. Ela reflete quem somos e o que escolhemos fazer com ela. O futuro não vai ser definido pela máquina, e sim pelo nosso repertório, pela empatia e pelo propósito de quem a utiliza", define Renata.

