Júlia Fernandes Júlia Fernandes Foto: /REPRODUÇÃO/JC

Estamos aqui

Desde criança, me colocava um limite, e esse limite esteve sempre relacionado à minha cor. "Não posso pintar o cabelo de vermelho, pois sou negra." "Não posso usar determinada roupa." Até entender que a cor não me impossibilitava de vestir o que quisesse ou de deixar o cabelo como preferisse se passaram alguns anos.
Hoje, faço o que quero. E, quando não existe algo para mim, dou um jeito. Não ser incluída é mais normal do que se pensa, pois as empresas, pego como exemplo às ligadas à estética, não pensam em pessoas como eu.
Me formo daqui a dois meses. Na prova de toga, vi todos meus colegas posando com os seus barretes na cabeça. Eu fui impossibilitada, já que ele não servia ou amassava o cabelo black power. Poderia ignorar isso e ficar sem minha foto, me sentir desconfortável no dia da colação. Mas aquilo era mais do que um simples problema. Era ter a certeza, mais uma vez, de que essas pessoas não pensam na gente, nos negros. Eu estava pagando pelo serviço, como todos ali. Era meu direito usar o acessório. A gente sabe que, historicamente, tentam nos privar de tudo, principalmente na educação. Só que agora estamos ocupando diversos espaços.
Depois de discussões com a produtora e reuniões com a fornecedora de toga, consegui um barrete adaptado para meu cabelo, que não cai e se encaixa perfeitamente. Publiquei no Instagram uma foto (aquela ali de cima) e recebi diversas respostas de estudantes que tinham a mesma preocupação. Da produção, recebi um pedido de desculpas e a afirmação de que o acessório ficaria disponível para futuros formandos. Empresas, olhem para a gente! Estamos aqui.
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