A presença de indígenas e quilombolas na Expointer ganhou espaço, mas a ampliação da participação ainda convive com problemas de infraestrutura. Na 49ª edição da feira, são oito estandes indígenas e três quilombolas entre os expositores de artesanato do Pavilhão da Agricultura Familiar. Enquanto os produtos chegam a novos consumidores e contribuem para a renda das famílias, indígenas que permanecem em uma área própria do Parque de Exposições Assis Brasil enfrentam uma estrutura improvisada e reivindicam o reconhecimento definitivo do local.
Segundo a antropóloga Mariana Soares, coordenadora estadual da Emater para a assistência e extensão junto aos povos indígenas, a participação indígena ocorre desde a criação do pavilhão, enquanto a presença quilombola como grupo identificado no espaço é mais recente. Neste ano, os oito estandes indígenas representam os povos Guarani, Kaingang e Xokleng. Fora do pavilhão, há ainda artesãos indígenas instalados em uma área específica dentro do parque. Para Mariana, o artesanato vai além da comercialização: é uma forma de transmissão de conhecimentos e reúne técnicas, símbolos e saberes passados entre gerações, sendo considerado patrimônio cultural imaterial.
É o caso do cacique Satraque Lopes, do povo Kaingang, que participa da Expointer pelo terceiro ano. Ele aprendeu a produzir artesanato aos nove anos, com a avó, Tereza Loureira, hoje com 109 anos. A atividade, para ele, também é uma forma de preservar a identidade indígena. “Onde há povos indígenas, há cultura, e essa é uma herança que independente das mudanças no mundo, jamais perdemos”, afirma.
Entre os quilombolas, a produção também combina geração de renda e preservação de saberes. A artesã Nilvana Cantini da Silva Torres, de Viamão, transforma jeans e outros materiais descartados em bolsas, cadernos e outros produtos. “Cada sacola leva um pouco de abraço, carinho e sorriso”, diz. Já Berenice Gomes de Deus, 66 anos, do Quilombo Anastácia, também em Viamão, leva para a feira produtos que aprendeu e aperfeiçoou ao longo da vida, como o sabão produzido a partir de óleo de cozinha reciclado. Ela é autora do livro Memória do Quilombo Anastácia, sobre a história da comunidade. “A memória é a cultura. E nos ajuda também um pouquinho na renda de casa”, resume.
A participação no pavilhão, porém, contrasta com a situação vivida por parte dos indígenas que permanecem em barracas em uma área específica do parque. Segundo Francisco Salvador, integrante do grupo, a presença indígena naquele espaço ocorre há cerca de quatro décadas. Hoje, a área conta com barracas, uma cobertura e uma estrutura básica de cozinha, mas não dispõe de banheiro próprio. Os indígenas reivindicam uma estrutura permanente e a retomada da antiga casa indígena, construída em 1999 e posteriormente deteriorada.
Salvador defende que o local tenha condições não apenas para a comercialização de artesanato, mas também para apresentações culturais, alimentação e outras manifestações dos povos indígenas. “Quando você tem uma estrutura melhor, dá para você apresentar vários tipos de coisas”, afirma. A reivindicação também está relacionada ao crescimento das comunidades. “A população indígena também cresceu, mas o nosso espaço na Expointer diminuiu”, acrescenta.
A estrutura de participação dos quilombolas também mudou neste ano. Segundo a socióloga Márcia Londero, da Emater de Viamão, são três estandes, com duas pessoas oficialmente vinculadas a cada espaço. Em 2026, os quilombolas passaram a ter acesso à hospedagem e à alimentação disponibilizadas aos expositores do Pavilhão da Agricultura Familiar, em uma articulação que envolve órgãos públicos e entidades parceiras.
A comercialização tem peso econômico para comunidades que enfrentam dificuldades de acesso a outras fontes de renda. Segundo a Emater, o artesanato é determinante para muitas famílias indígenas, enquanto a produção agrícola em parte dos territórios é voltada principalmente ao autoconsumo. Em algumas áreas, especialmente no Litoral Norte, as condições das terras dificultam a produção. A entidade afirma que pretende ampliar a participação de comunidades na feira e melhorar as condições oferecidas, incluindo transporte, alimentação, hospedagem e infraestrutura.
Para os indígenas que permanecem na área própria do parque, uma reunião com a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) e outras instituições está prevista após a Expointer para discutir a situação do espaço e as reivindicações do grupo.
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