Ana Esteves, especial para o JC
Para muitas famílias, visitar a Expointer é uma tradição. Para outras, porém, a grande quantidade de pessoas, os ruídos, as luzes, a movimentação e a dificuldade de locomoção podem transformar o passeio em uma experiência difícil. Foi para mudar essa realidade que surgiu o projeto Querência Inclusiva, iniciativa criada pelo Instituto Paulo Lima para ampliar o acesso de famílias atípicas a grandes eventos.
“A ideia nasceu depois que meu sobrinho de oito anos não conseguiu permanecer na Expointer, diante da sobrecarga de estímulos. A resposta veio com a criação do Querência Inclusiva”, afirma a diretora do instituto, Fabiana Lima. Nesta edição da Expointer, o projeto firmou uma parceria com criadores e entidades ligadas ao cavalo Quarto de Milha que possibilitou a realização de atividades de equoterapia na pista do pônei.
O resultado foi além da expectativa dos organizadores: crianças que nunca haviam tido contato com cavalos puderam montar acompanhadas por profissionais. “Em um dos momentos mais emocionantes, uma menina que apresenta dificuldade com toque e abraços, depois de uma primeira volta, pediu para repetir a experiência e, ao final, abraçou o instrutor”, conta Fabiana.
Para os idealizadores, cenas como essa mostram que inclusão não significa apenas permitir a entrada em um evento, mas criar condições para que a pessoa possa participar, permanecer e construir uma memória positiva e, principalmente, incluir a família inteira.
Para facilitar o deslocamento, foram disponibilizados Dindinhos e transporte entre o portão de acesso, a pista e o espaço inclusivo. Os cavalos utilizados foram selecionados e preparados especialmente para a atividade. São animais acostumados à presença humana, treinados desde jovens e submetidos a estímulos que simulam diferentes ambientes.
“O trabalho envolve manejo baseado em bem-estar animal, confiança e dessensibilização. Antes de participar das atividades, os cavalos também foram acostumados à movimentação e aos sons característicos da Expointer”, explica o proprietário do Rancho Trilha do Sol, Luciano Cardoso, responsável pelo treinamento dos animais.
A escolha do Quarto de Milha está relacionada à docilidade, inteligência e capacidade de treinamento da raça. Os animais utilizados já tinham histórico de convivência com pessoas e participação em atividades e competições, o que contribuiu para a segurança da experiência.
Além das atividades com os equinos, o projeto ganhou um espaço de 100 metros quadrados no Pavilhão Internacional, destinado ao acolhimento e à regulação sensorial.
O ambiente conta com uma sala sensorial, com iluminação reduzida e equipamentos que podem ser utilizados conforme a necessidade de cada pessoa, além de uma área de integração com a feira. Um dos destaques é o chamado Agrokit, painel sensorial que aproxima os visitantes do universo do campo por meio do tato. Há feno, cordas, lã de ovelha e couro bovino. A proposta é permitir que a criança conheça elementos da atividade rural de maneira gradual, antes de entrar em contato diretamente com os animais.
A intenção agora é levar o Querência Inclusiva para outros eventos do Estado. A proposta é que cada feira, exposição ou grande evento tenha algum tipo de estrutura de acolhimento para famílias atípicas. O projeto também prevê a continuidade das atividades de equoterapia após a Expointer, com atendimento gratuito para parte do público em situação de vulnerabilidade social.
Quarto de Milha alia versatilidade, docilidade e aptidão para a equoterapia
Mônica explica que a escolha da raça para esse tipo de atividade também tem respaldo científico
Dani Villar/Especial/JC
Conhecido pela velocidade e pelo desempenho nas pistas, o Quarto de Milha vem ampliando seu espaço para além das competições. A raça, que nasceu associada às corridas de curta distância, especialmente a prova de um quarto de milha, equivalente a 402 metros, tornou-se uma das mais versáteis do mundo e hoje está presente em diferentes modalidades esportivas e também em atividades terapêuticas.
Segundo Mônica Ribeiro, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (Abccqm), são 22 modalidades reconhecidas pela entidade, incluindo provas como três tambores, rédeas, apartação, ranch sorting, working cow horse, laço em dupla e individual, vaquejada e corrida.
A diversidade é apontada como um dos principais fatores para a expansão da raça, por permitir que diferentes perfis de cavaleiros encontrem uma atividade adequada, seja individualmente, em dupla ou em família. “É um cavalo muito versátil e dócil”, destaca Mônica.
Características que também ajudam a explicar a utilização do Quarto de Milha na equoterapia, atividade que vem ganhando espaço com o apoio da entidade que atualmente apoia mais de 40 centros de equoterapia no Brasil, em parceria com instituições especializadas e seguindo protocolos específicos para garantir a qualidade e a segurança dos atendimentos.
A escolha da raça para esse tipo de atividade também tem respaldo científico. De acordo com a representante da associação, estudos apontam características do Quarto de Milha, como a movimentação e a conformação de seus andamentos, como fatores que favorecem o trabalho terapêutico com pessoas com deficiência.
No Rio Grande do Sul, a associação também busca ampliar a presença da raça. A entidade está pelo terceiro ano consecutivo na Expointer e vem promovendo encontros com criadores e competidores para conhecer demandas e estimular o crescimento da atividade. Segundo Mônica, o movimento já trouxe resultados: houve aumento de cerca de 65% no número de animais.