O mercado de capitais avança como uma das alternativas para ampliar o financiamento do agronegócio, em meio à crescente necessidade de recursos para sustentar os investimentos no setor. Os caminhos para aproximar esses dois universos estiveram no centro do Agrocapitais, evento realizado na manhã desta terça-feira (1º), na Casa do Jornal do Comércio na Expointer, em Esteio. O encontro reuniu representantes do setor produtivo, do mercado financeiro, de órgãos reguladores e do meio jurídico.
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O primeiro painel abordou o papel do mercado de capitais no novo modelo de crédito ao agronegócio. Participaram o presidente do Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio (IBDA), Renato Buranello; a representante da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Flavia Palacios; e Guilherme Demaria, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Durante o debate, os participantes defenderam que instrumentos privados, como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), podem complementar o crédito bancário e os recursos subsidiados. Flavia ressaltou, porém, que a expansão desse mercado depende também da capacitação de investidores, produtores e demais agentes.
“A gente tende a achar que precisa educar o agro sobre o mercado de capitais, mas esquece que precisa educar o mercado de capitais sobre o agro. Soja é diferente de milho, que é diferente de pecuária”, observou. Segundo ela, compreender os diferentes ciclos produtivos é fundamental para estruturar operações adequadas à realidade do setor.
Demaria destacou o avanço recente desses instrumentos. Conforme o representante da CVM, o estoque dos Fiagros passou de aproximadamente R$ 10 bilhões, em 2022, para cerca de R$ 60 bilhões, enquanto o mercado de CRAs dobrou no período. Para ele, os números ainda são tímidos diante do potencial do agronegócio brasileiro.
Securitização pode aproximar recursos privados do produtor
O segundo painel discutiu o uso da securitização para monetizar as safras e ampliar a chegada de recursos aos produtores. Participaram Otaciano Neto, da Zera; Renato Barros, da Opea; e Bruno Santana, da Kijani.
Os painelistas avaliaram que o mercado de capitais avançou nos últimos anos, mas ainda precisa se aproximar da realidade das propriedades e das empresas do setor. A estruturação das operações deve considerar o ciclo de cada cultura, os prazos de produção e comercialização e a capacidade de pagamento dos tomadores.
“Aproximar a vida real do agro e o mercado financeiro é fazer a tradução de duas línguas que precisam se comunicar”, resumiu Santana. Segundo ele, existe interesse do setor financeiro em destinar recursos ao agronegócio, mas as estruturas precisam ser seguras e compreensíveis para os investidores.
Neto lembrou que a participação direta do governo no financiamento agropecuário diminuiu ao longo das últimas décadas, abrindo espaço para recursos bancários livres e para o mercado de capitais. O painel também apontou a necessidade de maior formalização e transparência das informações, além do fortalecimento do seguro rural como instrumento de gestão de riscos.
Juros e crise econômica pressionam recuperações judiciais
O aumento das recuperações judiciais no agronegócio foi tratado no terceiro painel, conduzido por Thomas Dulac Müller, do escritório Cesar Peres Dulac Müller Advogados. O advogado apresentou uma retrospectiva das crises econômicas enfrentadas pelo Brasil e relacionou o quadro atual ao elevado endividamento público, aos juros altos e à maior disputa por recursos entre o governo e a iniciativa privada.
Para Müller, a recuperação judicial deve ser entendida como consequência de uma sequência de dificuldades financeiras, e não como a origem dos problemas. “A recuperação judicial é o último vagão do trem. Ela não é o maquinista, mas o resultado de uma série de problemas de natureza econômica”, afirmou.
O advogado também avaliou que a remuneração elevada oferecida pelos títulos públicos reduz a atratividade de investimentos em atividades produtivas. Na sua análise, enquanto o governo oferecer retornos elevados e de baixo risco, empresas e produtores terão maior dificuldade para captar recursos privados em condições competitivas.
Reforma tributária exigirá revisão da compra de grãos
O último painel da manhã tratou das mudanças que a reforma tributária provocará nas relações entre cerealistas e produtores rurais. Pedro Schuch, da Tax Group, abordou a necessidade de revisão dos cadastros, das políticas de preços e das estratégias de aquisição de grãos.
A apresentação destacou que o regime tributário do fornecedor poderá influenciar o aproveitamento de créditos pela cerealista e, consequentemente, o preço oferecido pelo produto. O impacto também dependerá da cultura negociada e do destino da mercadoria, como venda ao mercado interno, industrialização ou exportação.
“Nós precisamos olhar produtor por produtor e entender qual é o porte dele e qual será o regime tributário em que ele vai operar”, alertou Schuch.
JC, AproBio e Acebra firmam termo de cooperação institucional
O encerramento do Agrocapitais foi marcado pela assinatura de um termo de intenção de cooperação institucional entre o Jornal do Comércio, a Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (AproBio) e a Associação das Empresas Cerealistas do Brasil (Acebra).
O documento busca fortalecer a aproximação entre as instituições e estimular iniciativas conjuntas voltadas ao conhecimento e à valorização da economia do Rio Grande do Sul. A cooperação prevê a troca de informações, experiências e conhecimentos relacionados aos setores de biocombustíveis e de empresas cerealistas.
Também poderão ser realizados estudos, levantamentos, conteúdos, encontros e eventos relacionados ao projeto Mapa Econômico do Rio Grande do Sul, desenvolvido pelo JC. O documento foi firmado pelo diretor-presidente do JC, Giovanni Jarros Tumelero, e por Jerônimo Goergen, presidente da AproBio e da Acebra.