Ana Esteves
especial para o JC
Nesse cenário, a combinação entre genética britânica e zebuína ganha espaço. É o caso do Brangus, que reúne características de qualidade de carne e fertilidade associadas ao Angus com maior capacidade de adaptação ao calor e resistência a parasitas dos zebuínos. “Outro diferencial apontado é a capacidade de consumo e conversão de matéria seca, especialmente em ambientes onde as pastagens apresentam maior teor de fibra e menor digestibilidade”, afirma o executivo da Associação Brasileira de Brangus, Roberto Grecellé. A procura não se restringe ao Rio Grande do Sul. A Associação Brasileira de Brangus reúne cerca de 350 associados em 18 estados, e a genética vem ganhando espaço principalmente no Centro-Oeste e no Sudeste.
Roberto Grecellé diz que genética da raça bovina Brangus ganha espaço no Centro-Oeste e no Sudeste do País
DANI VILLAR/ESPECIAL/JC
A raça Braford, cujos cruzamentos iniciaram na década de 1960, também está entre as preferidas pelos criadores gaúchos. Resultado do cruzamento entre Hereford e raças zebuínas, os animais apresentam maior capacidade de adaptação a ambientes mais desafiadores, característica que ganha relevância em um Estado que passou a enfrentar períodos de temperaturas mais elevadas, estiagens e dificuldades na disponibilidade de pastagens. A busca por adaptação, no entanto, não significa que as raças puras tenham perdido espaço. “Enquanto o Hereford apresenta desempenho destacado em regiões com maior disponibilidade de alimento e condições mais favoráveis, o Braford amplia a possibilidade de produção em ambientes mais hostis”, informa o gerente executivo da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Felipe Azambuja.
Braford amplia a possibilidade de produção em ambientes mais hostis, destaca Azambuja
Dani Villar/Especial/JC
Para o produtor gaúcho, esse movimento representa uma oportunidade de ampliar a comercialização de genética para outras regiões do País. Além disso, a valorização da carne de qualidade favorece os cruzamentos industriais. O Brangus se beneficia da associação com o Angus, reconhecido internacionalmente pela qualidade da carne, ao mesmo tempo em que incorpora características de adaptação do zebuíno. Segundo Grecellé, o consumo de carne também está mais sofisticado, com maior presença de marcas, programas de certificação e diferenciação por qualidade.
Nesse contexto, a entidade defende o uso do Brangus no cruzamento com vacas Nelore, especialmente no Brasil Central. A estratégia busca combinar adaptação, eficiência produtiva e qualidade de carcaça, características que ajudam a explicar o avanço da raça sintética entre os pecuaristas. O Braford apresenta maior resistência aos ectoparasitas e capacidade de adaptação a ambientes mais desafiadores. Para Felipe Azanbuja, essa característica ganha relevância em um Estado que passou a enfrentar períodos de temperaturas mais elevadas, estiagens e dificuldades na disponibilidade de pastagens.
Raças puras mantêm espaço na pecuária gaúcha
A busca por adaptação, no entanto, não significa que as raças puras tenham perdido espaço. O próprio movimento de crescimento da pecuária genética mostra uma segmentação de ambientes. Enquanto o Hereford apresenta desempenho destacado em regiões com maior disponibilidade de alimento e condições mais favoráveis, o Braford amplia a possibilidade de produção em ambientes mais hostis. Essa diferença é comparada pelo dirigente à escolha entre um jipe e uma Ferrari: o Hereford seria capaz de apresentar desempenho superior quando encontra uma “estrada” de qualidade, enquanto o Braford teria maior capacidade de enfrentar terrenos difíceis.
A estratégia também está relacionada à expansão nacional. Enquanto o Hereford permanece mais concentrado no Sul do País, com presença consolidada no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná e trabalhos pontuais em outros estados, o Braford já possui criadores e comercialização de genética em praticamente todas as regiões brasileiras. A rusticidade e a capacidade de adaptação ajudam a explicar esse alcance.
O movimento acompanha ainda o chamado ciclo pecuário. A atual valorização dos animais ocorre em um período de alta dos preços, mas, na avaliação de Felipe Azambuja, há um componente adicional: depois de anos de dificuldades climáticas e resultados abaixo do esperado na agricultura, a pecuária voltou a ser vista como uma atividade mais estável pelo produtor gaúcho.
Essa retomada gera um efeito em cadeia. O produtor que retorna à pecuária precisa recompor a estrutura produtiva, aumentando a procura por matrizes, touros, terneiros e genética. A maior demanda contribui para a valorização dos animais e reforça o protagonismo da pecuária dentro do Estado.
Assim, os depoimentos de Brangus e Braford ajudam a construir uma leitura mais ampla: o avanço das raças sintéticas combina adaptação ao novo cenário climático, resistência a parasitas, eficiência produtiva, qualidade de carne e possibilidade de expansão da genética gaúcha para o mercado nacional, ao mesmo tempo em que acompanha a retomada da pecuária como atividade econômica no Rio Grande do Sul.