A cautela financeira começa a influenciar não apenas quanto o produtor investe, mas onde coloca os recursos. Máquinas e implementos permanecem entre os principais destinos do crédito esperado na Expointer, mas bancos, cooperativas e entidades do setor apontam também para armazenagem, irrigação, manejo do solo, geração de energia e tecnologias capazes de reduzir custos, aumentar a produtividade ou proteger a propriedade dos efeitos de novos eventos climáticos.
No BRDE, a principal expectativa para a feira é novamente a armazenagem. Dos R$ 523 milhões movimentados pelo banco na Expointer de 2025, R$ 240 milhões foram destinados a projetos do segmento. Máquinas e equipamentos ficaram em segundo lugar, com R$ 187,5 milhões.
Para este ano, a instituição também aponta recuperação de solos, agroindústrias e inovação. Entre os projetos no radar estão geração de energia por fontes renováveis, irrigação, recuperação de pastagens e integração lavoura-pecuária. O diretor de Planejamento do BRDE, Leonardo Busatto, destaca ainda a expectativa com projetos de biocombustíveis.
A diversificação aparece também no Sicredi. Máquinas e implementos devem continuar respondendo por parcela relevante dos financiamentos, mas armazenagem, irrigação e adoção de tecnologias estão entre as alternativas observadas pela instituição.
Na Cresol, a aquisição de máquinas e implementos deverá concentrar a maior parte dos negócios prospectados durante a feira. Fora desse segmento, o presidente da Cresol Federação, Cledir Magri, cita geração de energia fotovoltaica, tecnificação, robotização e drones entre os investimentos que vêm ganhando espaço.
A Fetag-RS defende que a prioridade esteja em estruturas capazes de aumentar a resiliência das propriedades depois de sucessivas estiagens, excesso de chuva e outros eventos extremos. O presidente Eugênio Zanetti aponta manejo e recuperação do solo, irrigação e armazenamento de água entre as áreas estratégicas para os agricultores.
“Investir em segurança produtiva significa proteger a renda e a capacidade de pagamento do agricultor a médio e longo prazo”, afirma.
A escolha, segundo Zanetti, precisa considerar também a escala da propriedade. Uma máquina com capacidade muito superior à necessidade pode ficar ociosa e gerar custo incompatível com a renda. A recomendação é buscar equipamentos e estruturas que tenham utilização efetiva, reduzam custos, elevem a produtividade e consigam pagar o financiamento ao longo do prazo.
A seletividade ocorre enquanto uma parcela dos agricultores tenta reorganizar dívidas acumuladas nos últimos anos. Esse processo pode restringir novos investimentos, mas as instituições financeiras ressaltam que uma renegociação não significa, por si só, impedir o produtor de voltar ao crédito.
No Sicredi, cada situação é analisada conforme a capacidade atual de pagamento, o planejamento da atividade e a sustentabilidade financeira do negócio. “O fato de uma operação ter sido renegociada não impede o acesso a novos financiamentos nem compromete o relacionamento com a instituição”, afirma Gustavo Schuck, consultor de Negócios da Central Sicredi Sul/Sudeste.
O BB também encontra situações distintas na carteira. Segundo o superintendente no Rio Grande do Sul, Ricardo Sehn, há clientes investindo e outros buscando renegociação, com análise individual de cada caso.
Na Cresol, Magri descreve parte dos produtores gaúchos em processo de reorganização financeira depois de anos de eventos climáticos extremos combinados com custos elevados e preços pouco favoráveis. A instituição busca estruturar operações que permitam aos associados manter acesso ao crédito e continuar produzindo.
A Fetag-RS alerta, entretanto, que as perdas sucessivas consumiram parte do limite disponível de muitos agricultores e elevaram o risco percebido pelas instituições. O BRDE também recebe, por meio das cooperativas pelas quais opera indiretamente com pequenos produtores, relatos de dificuldades na concessão de novos empréstimos.
É nesse equilíbrio entre necessidade de modernização e capacidade de pagamento que os investimentos deverão ser decididos. Depois de anos em que clima, custos e endividamento pressionaram o caixa das propriedades, a escolha tende a privilegiar projetos capazes de produzir retorno mensurável. Para Zanetti, a orientação é aproveitar as boas condições onde elas existem, mas dimensionar cada investimento à realidade econômica da propriedade.
O QUE APARECE NO RADAR
Máquinas e implementos
Mantêm papel central, com destaque para equipamentos de menor porte nas linhas mais subsidiadas.
Armazenagem
Principal expectativa do BRDE e também entre os investimentos apontados pelo Sicredi.
Irrigação e água
Aparecem nas indicações de Fetag-RS, Sicredi e BRDE, associadas à redução dos riscos climáticos.
Solo e pastagens
Manejo e recuperação são defendidos pela Fetag-RS e aparecem entre os projetos esperados pelo BRDE.
Tecnologia e automação
Sicredi, Cresol e BRDE identificam espaço para modernização, incluindo robotização e drones.
Energia renovável
Geração fotovoltaica e outras fontes aparecem nas perspectivas de Cresol e BRDE.
Agroindústrias
Estão entre as demandas esperadas pelo BRDE.