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Publicada em 28 de Agosto de 2026 às 07:00

Estado precisa superar gargalos, alerta professor

Júlio Barcellos, professor da Faculdade de Agronomia da Ufrgs

Júlio Barcellos, professor da Faculdade de Agronomia da Ufrgs

/Arquivo Pessoal/JC/Divulgação
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Ana Esteves
A pecuária de corte chega à Expointer em um momento de preços favoráveis, impulsionados pela menor oferta mundial de carne e pelo aumento da demanda. Em entrevista ao Jornal do Comércio, Júlio Barcellos, professor da faculdade de Agronomia da UFRGS e coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro/UFRGS), afirma que o cenário deve estimular os negócios na mostra de Esteio, além de investimentos em genética e novas tecnologias, mas também pontua que ainda há gargalos a serem superados, como baixa escala produtiva, custos elevados, infraestrutura, rastreabilidade e adaptação às mudanças climáticas.
A pecuária de corte chega à Expointer em um momento de preços favoráveis, impulsionados pela menor oferta mundial de carne e pelo aumento da demanda. Em entrevista ao Jornal do Comércio, Júlio Barcellos, professor da faculdade de Agronomia da UFRGS e coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro/UFRGS), afirma que o cenário deve estimular os negócios na mostra de Esteio, além de investimentos em genética e novas tecnologias, mas também pontua que ainda há gargalos a serem superados, como baixa escala produtiva, custos elevados, infraestrutura, rastreabilidade e adaptação às mudanças climáticas.
Jornal do Comércio — Quais serão as principais pautas da feira deste ano?
Júlio Barcellos — A conjuntura atual é muito diferente dos últimos dez anos. Dois pontos fundamentais ainda serão pautados: a questão das dívidas dos produtores rurais que afetam o setor de máquinas agrícolas, mas que também afetam a bovinocultura de corte. Outro elemento conjuntural é que a bovinocultura de corte vive um dos seus melhores momentos de preços. Tudo isto estimula negócios. Este cenário é otimista em termos de preços, com uma perspectiva de um otimismo mantido pelo menos pelos próximos cinco anos, dada a grande escassez de gado e, consequentemente, de carne no mundo.
JC — Quais os fatores têm contribuído para o incremento nos preços dos terneiros?
Barcellos — A escassez de carne no mundo, a partir de seus principais protagonistas, que são Estados Unidos, Austrália, Brasil, Paraguai, Uruguai, União Europeia e China. Eles estão reduzindo oferta, em decorrência de problemas climáticos, políticos e econômicos que desestimularam a pecuária. Simultaneamente, ocorre um crescimento de demanda por carne. E o preço do boi pauta toda comercialização de reprodutores.
JC — A pecuária gaúcha enfrenta uma concorrência cada vez maior com outras regiões produtoras e, ao mesmo tempo, tem oportunidades na exportação de carne e de animais vivos. Qual é hoje o principal diferencial competitivo do Rio Grande do Sul e onde ainda estão os maiores gargalos?
Barcellos — A pecuária gaúcha tem menor escala e maior custo de produção, mas se diferencia pela qualidade e características da carne, com potencial em mercados de maior valor e na exportação de animais vivos, segmento em que o Estado é o segundo maior exportador brasileiro. Entre os principais gargalos, estão a baixa escala das propriedades, dificuldades de acesso à tecnologia, infraestrutura e logística, além da limitada habilitação de frigoríficos para mercados exigentes e da rastreabilidade ainda incipiente. Como oportunidades, a integração lavoura-pecuária, a diversificação da produção e a ampliação da produtividade.
JC — Como esse cenário positivo da pecuária deve se refletir nos negócios, nos leilões e nas decisões dos criadores durante a Expointer?
Barcellos — Está bem marcado o cenário positivo, preços muito favoráveis num período de alta e que podem determinar uma ampliação de negócios. E a Expointer é o balizador do que vem pela frente em termos de leilões. Na feira, é esperada uma amplitude de negócios, mas não esperamos preços astronômicos. É um momento de recuperação, então enxergo uma grande oportunidade para compras e fêmeas de todas as espécies para tentar multiplicar o rebanho e começar a recuperar o efetivo para se traduzir em aumento de produtividade.
JC — O consumidor está cada vez mais atento a atributos como origem e qualidade. A pecuária gaúcha está preparada para transformar esses atributos em valor agregado e remuneração melhor ao produtor?
Barcellos — A nossa pecuária já conta com instrumentos de sustentabilidade, produtos com denominação de origem, produção orgânica e com certificação, com exceção da rastreabilidade, que ainda é muito incipiente. Mas para esses elementos se traduzirem em um valor real, para que o consumidor perceba esses diferenciais na hora de comprar ainda falta. Não há uma estratégia unificada da cadeia produtiva que possa comunicar. A comunicação é incipiente. Nós ainda não estamos trabalhando nos mercados que mais valorizam isso como os do centro do País, que valorizam tremendamente os atributos, mas que hoje se valem das carnes do Uruguai e da Argentina. Ainda precisamos trabalhar de forma integrada.
JC — Depois de anos marcados por eventos climáticos extremos no Estado, quanto a capacidade de adaptação passou a ser determinante para a sobrevivência e a rentabilidade da pecuária gaúcha?
Barcellos — A resiliência climática significa um novo momento de desafio. Embora o produtor sempre estivesse preparado para conviver com secas e enchentes, a questão nos últimos anos se tornou um pouco mais complexa, pois os impactos aparecem de forma subliminar nos parâmetros de produtividade. O clima nos últimos anos passou a produzir um efeito invisível: a diminuição nas taxas de prenhez nos rebanhos. O planejamento sanitário dos rebanhos ajustados a todas as questões e alterações climáticas é outro ponto.
 

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