Após a queda de 49% do faturamento do setor de máquinas de 2024 para 2025, há o temor de que o endividamento rural mantenha as vendas na Expointer em baixa neste ano. No entanto, nesta entrevista, o presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas no Rio Grande do Sul (Simers) e da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Cláudio Bier, destaca que há uma expectativa positiva para a feira, que será o primeiro grande teste do mercado depois do anúncio do Plano Safra.
Jornal do Comércio - Qual a expectativa especificamente para o setor de máquinas na Expointer?
Claudio Bier - A expectativa é positiva e bastante realista. A Expointer será o primeiro grande teste do mercado depois do anúncio do Plano Safra e deve mostrar se o crédito chegará efetivamente ao produtor.
O Parque de Máquinas reunirá cerca de 135 empresas, do Rio Grande do Sul, de outros estados e também do mercado internacional. Isso demonstra que a indústria continua apostando na feira como principal vitrine para lançamentos, relacionamento e geração de negócios.
A Expointer sempre antecipa os movimentos do agronegócio. Se crédito, confiança e tecnologia estiverem alinhados, a feira tem potencial para marcar o início de uma retomada das vendas de máquinas agrícolas.
JC - O impacto do endividamento rural nas vendas deve ser ainda maior que no ano passado?
Bier - O endividamento continua sendo um dos principais desafios para o setor, porque reduz a capacidade de investimento do produtor. Mas o cenário deste ano é diferente: existe um Plano Safra anunciado e mecanismos de renegociação em discussão, o que cria uma perspectiva melhor do que havia há um ano. O ponto decisivo será transformar essas medidas em crédito disponível na ponta. O produtor quer investir. O que ele precisa é ter capacidade financeira e acesso ao financiamento. Quando o crédito funciona, a tecnologia volta a ser prioridade dentro da propriedade.
JC - Como o senhor avalia a MP 1.376 para renegociação das dívidas rurais?
Bier - A MP representa um passo importante porque cria instrumentos para a composição de dívidas rurais e prevê um fundo garantidor para ampliar a segurança das operações de crédito. É uma resposta relevante para produtores que enfrentaram perdas climáticas e queda de renda. Ao mesmo tempo, o Simers entende que o sucesso da medida dependerá da sua implementação prática pelos agentes financeiros. A renegociação é necessária porque ajuda a recuperar a capacidade de investimento do produtor. O importante agora é que as regras sejam ágeis e que os recursos cheguem rapidamente ao campo.
JC - Os produtores estão mais dispostos a adotar novas tecnologias no campo?
Bier - Sim. O interesse por tecnologia nunca deixou de existir. O produtor gaúcho sabe que produtividade, eficiência e sustentabilidade dependem cada vez mais de máquinas mais inteligentes, agricultura de precisão, conectividade e automação. O que muitas vezes adia a compra não é a falta de interesse, mas a limitação financeira. Hoje o produtor não pergunta se a tecnologia vale a pena. Ele pergunta quando conseguirá investir nela. Por isso, crédito e inovação caminham juntos.
JC - A Expointer em meio ao El Niño pode impactar o movimento e, consequentemente, as vendas? Como está a expectativa quanto às chuvas?
Bier - A chuva sempre influencia o fluxo de visitantes em uma feira a céu aberto, mas a Expointer possui uma tradição muito consolidada e mantém forte capacidade de atrair produtores mesmo em condições climáticas adversas.
Além disso, para a agricultura, um regime de chuvas mais regular durante o ciclo produtivo tende a ser mais importante do que alguns dias de precipitação durante a feira. O setor acompanha com atenção as projeções associadas ao El Niño, mas a expectativa é de uma Expointer forte, com intensa movimentação comercial.
O clima faz parte da atividade rural e o produtor convive com essa realidade todos os anos. Nossa expectativa é que a Expointer mantenha seu papel como grande ambiente de negócios, independentemente das condições climáticas, porque as decisões de investimento têm um horizonte muito maior do que os dias da feira.