Cooperativas de energia buscam diversificação de fontes de geração

Produção renovável tende a continuar sendo incentivada e mercado gaúcho quer entrar cada vez mais nesse cenário

Por Jefferson Klein

Hennemann afirma que o sistema está apostando no mercado livre
Com vasta experiência na produção de energia através de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), as cooperativas gaúchas de eletrificação rural procuram ampliar a atuação com outras fontes renováveis, como a eólica e a solar. O apontamento é feito pelo presidente da Federação das Cooperativas de Energia, Telefonia e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul (Fecoergs), Erineo José Hennemann.
O dirigente, que exerce ainda a presidência da Certel, de Teutônia, lembra que o Sistema Fecoergs é composto por 25 cooperativas que trabalham com a geração e a distribuição de energia elétrica, além do fornecimento de internet. A ação delas abrange 369 municípios gaúchos, atendendo em torno de 1 milhão de consumidores. Sob seu guarda-chuva, há 33 usinas em operação atualmente.
Jornal do Comércio - Na área de geração de energia, as cooperativas gaúchas, historicamente, sempre tiveram muito sucesso com experiências relacionadas a pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). O que explica isso?
Erineo José Hennemann - Daqui para frente, haverá, cada vez mais, o foco na geração de energia. Isso já foi entendido pelo sistema cooperativo e por isso que ele está investindo nessa área. Hoje, com o preço dos combustíveis, se enxerga em um futuro muito próximo o aumento do uso do carro elétrico. E não adianta ter veículos elétricos se não tivermos energia gerada de forma ambientalmente correta, renovável. O sistema (cooperativo) está investindo não só em hidreletricidade, mas também em geração eólica e solar para nos prepararmos para ter um parque gerador de energia que atenda às demandas do futuro.
JC - Essa é uma tendência do cooperativismo? A diversificação das fontes?
Hennemann - Sem dúvida. A geração eólica e a solar vieram para ficar. Toda a produção renovável será mais incentivada e precisamos fazer com que a gente consiga entrar mais nesse cenário.
JC - A Certel é uma das cooperativas que pensa assim, já que pretende implementar um parque eólico (em Teutônia). Como está esse empreendimento?
Hennemann - As leituras de velocidade e direção do vento estão dentro do esperado até agora, mas vamos medir por três anos. Serão 33 MW, que é um volume de energia que pode atender até 100 mil pessoas.
JC - A pandemia de Covid-19 ainda gera apreensão quanto aos reflexos na operação das cooperativas de eletrificação rural?
Hennemann - Continua preocupando. Porque o cenário econômico alterou bastante. Tivemos aumento de inflação, de juros, houve redução na capacidade de compra, o que é reflexo da pandemia. E o maior problema é o encarecimento das matérias-primas. Se for comprar aço ou cimento hoje, para fazer uma usina, os valores são elevadíssimos. O próprio cenário dos combustíveis prejudica e deixa o setor apreensivo. A guerra na Rússia (com a Ucrânia) também está dificultando a aquisição de produtos, pressionando os preços. Mas eu espero que seja passageiro, que logo as coisas entrem em um patamar de equilíbrio.
JC - O programa estadual Energia Forte no Campo entrou na sua terceira fase. Qual a sua avaliação, até agora, dessa iniciativa que busca reforçar a estrutura de fornecimento de energia no meio rural?
Hennemann - Essa terceira etapa do programa foi lançada em maio, com recursos de R$ 40 milhões (foram selecionados 128 projetos, em 66 municípios gaúchos, totalizando 441 quilômetros de extensão de rede de distribuição de energia elétrica no meio rural) e é um programa específico para as cooperativas. A aplicação desse montante é muito importante. Estamos fazendo com que o meio rural gere emprego, renda e desenvolvimento.
JC - Mas, o que a iniciativa muda no dia a dia das pessoas?
Hennemann - Com a energia monofásica (um dos principais objetivos do programa é dar robustez à rede elétrica), ficamos limitados a uma certa potência. Já com a energia trifásica, se tem uma potência bem maior para utilizar. A monofásica abre uma possibilidade inicial, mas, para que se possa desenvolver uma atividade produtiva maior, é preciso a energia trifásica.
JC - Além de energia, as cooperativas têm trabalhado para levar a internet ao meio rural. Ainda há uma procura muito intensa por esse serviço?
Hennemann - A demanda é grande e sabemos que a internet é um diferencial para o nosso produtor rural. Ele precisa ter uma internet de qualidade, não somente para desenvolver a sua atividade, mas também pensando no futuro, para que as gerações mais jovens fiquem no campo, dando continuidade ao trabalho. A ampliação dos serviços de internet na área rural vai continuar sempre, não é algo que se estanca.
JC - Tradicionalmente, a energia que as cooperativas repassavam aos seus associados era suprida pela distribuidora regional mais próxima (no Rio Grande do Sul, por exemplo, muitas cooperativas recorriam à RGE nessa ação). No entanto, a perspectiva agora é de o sistema cooperativo recorrer à compra no Ambiente de Contratação Livre?
Hennemann - É uma tendência. Hoje, praticamente, todas as cooperativas já estão adquirindo grande parte da energia no mercado livre. Continua sendo atrativo, inclusive algumas estão se associando para comprar um montante maior (de energia) para garantir uma energia mais barata para o associado. Atualmente, por exemplo, a Certel tem um preço em torno de 30% menor do que as grandes concessionárias. Reduzindo o custo da energia, é possível repassar isso para o associado.
JC - Quanto da sua energia a Certel tem contratada no mercado livre?
Hennemann - Cerca de 90%.
JC - Falando ainda na Certel, em que etapa se encontra o projeto da PCH Vale do Leite que a cooperativa pretende construir entre os municípios de Pouso Novo e Coqueiro Baixo, no rio Forqueta?
Hennemann - Ainda estamos na fase de projeto, com o orçamento pronto, mas dependemos de questões legais, como, por exemplo, a licença de instalação. Ao sair a licença, começamos a obra. A parte de financiamento está resolvida, só depende do licenciamento.
JC - A licença deve sair ainda este ano?
Hennemann - Acredito que sim. E, a partir do começo das obras, leva cerca de um ano e meio para ficar pronta a usina.
JC - Qual o investimento previsto atualmente no projeto e qual será a capacidade do empreendimento?
Hennemann - A estimativa hoje é na ordem de R$ 60 milhões para uma potência de 6,4 MW.
JC - Para 2022, qual o investimento total previsto pela Certel?
Hennemann - Para este ano, vamos ultrapassar os R$ 100 milhões.
JC - Recentemente, a Certel inaugurou a subestação de energia Forquetinha. Qual é a importância desse empreendimento?
Hennemann - É uma subestação que vai liberar energia para a região de Lajeado e Forquetinha, uma área que está crescendo bastante, principalmente, nos setores rural e residencial. O investimento no complexo, totalmente da Certel, foi da ordem de R$ 10 milhões e foi financiado pelo Sicredi Lajeado. Uma intercooperação, uma cooperativa financiando outra cooperativa, esse é um modelo que falamos muito e precisamos buscar isso.
 

Fecoergs

  • Fundação e sede: 09/09/1971, sediada atualmente em Porto Alegre
  • Km de redes: 65 mil
  • Municípios de atuação: 369
  • Associados: 309 mil famílias associadas, representando mais de 1 milhão de gaúchos
  • Número de cooperativas: 25, sendo 15 de distribuição de energia e 10 de desenvolvimento e geração