Sustentabilidade deve integrar agenda do setor da construção

Sociedade, governos e empresas podem se unir para o cumprimento de metas ambientais e climáticas

Por Bruna Suptitz

O setor da construção civil exerce um papel fundamental na sociedade: atender às demandas por moradia e por outros espaços para satisfazer as nossas necessidades. E, no atual contexto ambiental e climático, é necessário aliar o seu papel ao cumprimento das metas para se atingir os objetivos do desenvolvimento sustentável, que são um pacto global pela preservação do planeta.
Para isso, a indústria da construção e o setor financeiro devem trabalhar coletivamente com todas as partes interessadas, abraçar a transformação e investir em inovação, produtos e serviços que acelerem a descarbonização. Já o poder público, especialmente nas cidades, deve implementar políticas e medidas que incentivem a mudança rumo à economia sustentável.
Essa análise consta na edição mais recente do Relatório de Situação Global para Edifícios e Construção (Buildings-GSR), publicação da Aliança Global para Edifícios e Construção (GlobalABC), organizada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.
O diagnóstico não é dos mais animadores: em 2021, as atividades de construção recuperaram para os níveis anteriores à pandemia na maioria das principais economias, juntamente com uma utilização mais intensiva de energia dos edifícios. Além disso, mais economias emergentes aumentaram a utilização de gases de combustíveis fósseis nos edifícios.
Fatores que levam a isso são as crises econômicas, energéticas, de segurança e climáticas. A guerra na Ucrânia é apontada como um risco global - o conflito em Israel não é citado, pois a elaboração do documento é do fim de 2022. O texto indica que é necessário um ajuste de rota para que o setor alcance o objetivo de descarbonização até 2050. E aponta que a participação de toda a sociedade civil será crucial para apoiar a mudança necessária.

Cidades têm papel no incentivo às construções sustentáveis

É consenso nos debates sobre política de sustentabilidade que os governos municipais exercem papel fundamental na preservação ambiental. Isso porque as prefeituras podem induzir e fomentar boas práticas por meio da legislação urbanística, do código de edificações e de incentivos tributários, por exemplo.
Certificação ambiental em Porto Alegre
Em Porto Alegre está valendo, desde o fim do ano passado, o Programa de Premiação e Certificação em Sustentabilidade Ambiental, que incentiva práticas ambientalmente favoráveis na construção e reforma de edificações. Já foram emitidas 60 certificações: 47 na categoria diamante, 9 de ouro, 2 de prata e 2 de bronze; 10 pedidos estão em análise.
Caso o empreendimento esteja adequado às diretrizes do programa, recebe a Certificação em Sustentabilidade Ambiental, que oferece quatro modalidades de adesão. Os empreendimentos recebem incentivos urbanísticos e fiscais, de acordo com o tipo de certificação obtida.
Modalidades
Diamante - pontuação mínima em cinco dimensões para conseguir desconto de 10% no IPTU e acréscimo de 20% na altura máxima.
Ouro - pontuação mínima em quatro dimensões, com desconto de 7% no IPTU e acréscimo de 15% na altura máxima.
Prata - pontuação mínima em três dimensões, com desconto de 5% no IPTU e acréscimo de 10% na altura máxima.
Bronze - para edificações que alcançarem pontuação mínima em duas dimensões, com desconto de 3% no IPTU.

Prédio mais sustentável do Brasil está em Porto Alegre

Edifício é reconhecido, inclusive, por departamentos internacionais
O prédio mais sustentável do Brasil e um dos 100 mais sustentáveis do mundo está em Porto Alegre. O Idea Bagé, no bairro Petrópolis, da incorporadora Capitânia, é o único edifício residencial brasileiro a ter a certificação platina, a mais elevada concedida pela Green Building Council Brasil (GBC) na categoria Brasil Condomínio. O mérito foi reconhecido por seus atributos de sustentabilidade desde a construção até o dia a dia dos moradores. Em setembro, durante reunião da cúpula do G-20, o Idea Bagé recebeu mais um reconhecimento de sustentabilidade, desta vez do Bureau de Eficiência Energética, Ministério da Energia do Governo da Índia, como um dos 100 icônicos edifícios sustentáveis do mundo. O Jornal do Comércio já contou a história do edifício e das pessoas responsáveis pelo projeto, o material pode ser conferido no site.

'Debate ambiental precisa ser feito nas cidades'

Ricardo Cardim, diretor da Cardim Arquitetura Paisagística
A relação do Brasil com a natureza no paisagismo pode ser dividida em três momentos. No primeiro, com a chegada dos europeus ao território, foi de estranhamento e recusa. Tempos depois, já na virada dos séculos XIX para o XX, teve início o culto ao estrangeiro, de plantas a frutas, passando pelo modelo e método de plantio. Este momento ainda prevalece, mas o terceiro, que está ganhando espaço, busca reconectar as pessoas, as cidades e os espaços construídos com a biodiversidade que é daqui.
A teoria é do botânico e paisagista Ricardo Cardim, autor dos livros "Remanescentes da Mata Atlântica: As Grandes Árvores da Floresta Original e Seus Vestígios" (2018) e "Paisagismo Sustentável para o Brasil: Integrando natureza e humanidade no século XXI" (2022), da Editora Olhares. Ele esteve em Porto Alegre em outubro no seminário Sustentabilidade na Construção Civil - Cenários, práticas e incentivos legais, realizado pelo Sinduscon-RS.
Jornal do Comércio - Você fala de três gerações da cidade verde. Já estamos no terceiro momento?
Ricardo Cardim - Estamos num momento de transição, com forças favoráveis e forças contrárias, e é um grande embate. A nossa geração está abrindo caminho para uma cidade sustentável de verdade nos próximos anos. Eu sou otimista. Acredito que as novas gerações, por mais que elas estejam desconectadas da natureza, estão aprendendo muito sobre a importância desse ambiente, até porque estão sentindo na pele a emergência ambiental que estamos vivendo. Estamos entrando em um novo momento das cidades brasileiras, mas temos que pressionar mais…
JC - Em que sentido?
Cardim - Hoje ainda é uma forte desconexão sobre o que é meio ambiente. Quando as pessoas falam de meio ambiente, pensam em geleira, golfinho, Amazônia… Assuntos importantíssimos, claro, mas as pessoas esquecem da natureza onde elas estão. Hoje quase 90% dos brasileiros moram em cidades, e como é que estão essas cidades? Precisamos urgente levar o debate ambiental para as cidades. Porque as cidades influenciam não somente na parte ambiental, mas cultural. Se as cidades não apreciarem e não entenderem a natureza nativa e a importância dessa natureza nativa, elas não vão preservar o que sobrou fora da cidades. Porque quem toma as decisões sobre o que tem "lá fora", a maior parte vive nas cidades.
JC - Muito se fala da crise climática e pouco da crise da biodiversidade. Como você repassa essa informação aos clientes?
Cardim - As maiores economias do mundo já perceberam que a biodiversidade é um fator de sobrevivência humana. Moramos em um planeta que é um grande ecossistema e todas as peças são importantes para o seu funcionamento. Então, a partir do momento que começamos a destruir essas peças, nos séculos XVIII, XIX e XX, começamos a entrar num sério risco do nosso desaparecimento como sociedade organizada. Não é nem do planeta, é nosso. Então, como uma crise, uma ameaça mundial, os grandes líderes já perceberam e estão fazendo profundos investimentos na questão da biodiversidade. Fiquei muito feliz de ver no plano da certificação aqui de Porto Alegre que a biodiversidade nativa é uma coisa realmente relevante. Esse é o caminho.