"O lado político nos preocupa mais do que o ambiente econômico"

Carlos Lazzari, 55 anos, é o presidente do Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG) para a gestão 2024/2025

Por Roberto Hunoff

Carlos Lazzari, empossado Presidente do CIC-BG para o biênio 2024-2025
Natural de Bento Gonçalves, Carlos Lazzari, 55 anos, foi recentemente empossado presidente do Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG) para a gestão 2024/2025, entidade onde exerceu seu primeiro emprego, de office-boy, com 13 anos. Foi 1º vice-presidente de serviços do CIC-BG na gestão de Ivanir Foresti, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Bento Gonçalves e diretor de patrimônio do Sindicato das Empresas de Refeições Coletivas da Região Nordeste do Estado do Rio Grande do Sul. Graduado em Direito e pós-graduado em Marketing em Serviços, é sócio fundador da Pratomil Restaurantes Empresariais, que possui mais de 100 restaurantes em seis estados e emprega em torno de 400 funcionários.

Jornal do Comércio – É quase senso comum que, na mudança de gestores em uma entidade empresarial, a nova administração dê continuidade aos projetos da anterior. Quais serão suas demandas prioritárias e o que pretende agregar como ações novas?
Carlos Lazzari – A intenção inicial da nossa diretoria é consolidar e viabilizar os oito novos projetos implantados pela gestão anterior da presidente Marijane Paese. O foco será conhecer melhor os projetos, alguns recentes, para remodelar e aprimorar a sua efetiva realização, e dar continuidade ao projeto-maior, que são ExpoBento e Fenavinho. Também é meta dar sequência à representatividade da entidade nos âmbitos empresarial, comunitário e político, atuando de forma regional.

JC – Quais são os principais desafios para a sua gestão?
Lazzari – Principalmente manter o patamar que a entidade conquistou, preservar a história de 108 anos de existência do CIC, mas também aumentar a representatividade do associativismo por meio da agregação de mais empresas associadas. Olhar também para o cenário futuro empresarial e político para estar presente nas discussões e decisões do poder público, seja ele municipal, estadual e federal. Para tanto, vamos reforçar esta aproximação aos poderes Executivo e Legislativo.

JC – O CIC de Bento tem como característica um papel empreendedor, especialmente na realização de feiras, como Expobento, Fenavinho e, mais recentemente, com a Envase Brasil. Esta estratégia terá continuidade na sua gestão?
Lazzari – Tenho o desafio de compreender e nortear a melhor condução destes novos projetos que a presidente Marijane Paese construiu. O objetivo é priorizar iniciativas de cunho empresarial, com ênfase na segmentação na indústria, no comércio e nos serviços. Alguns projetos têm cunho de eventos, mas temos um entendimento inicial de que promover eventos não é foco da entidade, mas vamos trabalhar para dar continuidade a estas ações. Nós podemos aprimorar os eventos com o produto Fenavinho, que pode dar sequência a estas feiras. Para tanto pensamos em criar departamentos para os projetos existentes e entregar à Fenavinho a responsabilidade de realizar estes eventos. Ou seja, a entidade deixa de realizar diretamente o evento. Sou um gestor estratégico e não operacional. Por isso, a gestão será estrategicamente empresarial, com olhar para aquilo que os associados esperam da entidade, que são grandes projetos de desenvolvimento dos setores produtivos em tecnologia e inovação.

JC – A ideia é manter o controle dos eventos, mas terceirizar a sua realização?
Lazzari – O CIC tem de ser estratégico na formulação de projetos, mas sua diretoria não pode sair à rua operacionalizar a realização. Provavelmente sim haverá a contratação de empresas especializadas para participar na realização de eventos grandes, como Fenavinho e ExpoBento, dar continuidade às iniciativas consolidadas e contribuir na efetivação de outras já definidas. O estatuto do CIC prevê a possibilidade do incentivo à promoção de eventos, mas não torna obrigatório que a diretoria conduza diretamente toda a organização. Vamos repassar a operação aos projetos já incorporados para que, em conjunto com empresas com experiência na área, deem continuidade e ampliem estas importantes iniciativas para a economia local e regional. Incluem-se neste conjunto ações como Tortelaço, Noite sob as Estrelas, Natal nos Vinhedos, Sparking e Noite de Gala, que tendem a ganhar mais atenção e carinho ainda maior.

JC – O CIC de Bento sempre foi muito comprometido com iniciativas comunitárias, atuando fortemente junto aos poderes públicos nos diferentes níveis. Esta característica será reforçada na sua gestão?
Lazzari – A nossa diretoria pode ser considerada privilegiada, pois estamos assumindo em um momento ímpar, não apenas para Bento Gonçalves, mas para toda a região, no sentido da aproximação, do diálogo e entendimento com o poder público em geral, do Executivo e do Legislativo. Em Bento Gonçalves, em especial, vivemos um momento muito favorável entre a classe empresarial e política. Estes vínculos já são anteriores à tragédia do covid-19, mas durante e depois da pandemia houve uma união muito forte dos empresários com o poder público e com a comunidade em geral para salvar vidas. Outra tragédia veio no final da pandemia, a crise do setor vitivinícola. As entidades empresariais e poder público conduziram uma solução rápida e efetiva. Mais recentemente, duas tragédias em sequência, as enchentes, que destruíram dezenas de cidades na região, com vítimas fatais e perdas de patrimônio. Cidades com porte maior, como Bento Gonçalves, adotaram ações rápidas para ajudar e levar conforto aos municípios atingidos. Precisamos lembrar que não faz muito tempo era um só município, Bento Gonçalves. Atualmente, são vários, como Santa Tereza, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira. Mas no momento da dor voltamos a ser um só. Estas três tragédias uniram a sociedade, entidades e comunidades em torno de um objetivo único, de ajudar a criar condições para que estes municípios possam se recuperar rapidamente.

JC – Qual avaliação fazes sobre a situação da economia de Bento Gonçalves, considerando a conjuntura atual interna e externa?
Lazzari – A trabalho ou lazer já conheci centenas de municípios no Brasil e no exterior. E acredito ser difícil encontrar uma cidade com a economia diversificada como a de Bento Gonçalves em todos os setores produtivos. A indústria é muito forte em tecnologias e inovação; o comércio precisa de um olhar para o seu fortalecimento, embora seja diversificado e sustentável, com três shoppings, e empresas qualificadas. O setor de serviços é absurdamente variado, com grandes operações. O turismo de negócios e lazer é um dos mais representativos do Brasil, juntamente com o agronegócio. Por conta disto, crises, como a de 2014, por exemplo, não foram sentidas, pois as empresas se prepararam, tornando-se quase imunes a estes problemas. Logicamente, não é situação unânime, há alguns empreendimentos que sofrem com dólar alto, com as guerras, mas em proporção muito menor quando se compara com outros municípios que têm pouca diversificação econômica.

JC – Tens projeção positiva para 2024?
Lazzari – A classe empresarial de Bento Gonçalves olha de dentro para fora, sem descuidar do que acontece externamente, de onde podem vir problemas. É o caso recente do projeto do governador Eduardo Leite, por quem tenho profundo respeito, para majorar as alíquotas do ICMS. É bom lembrar que, em 2021, durante o agravamento da pandemia, tivemos o aumento da cesta básica em mais de 70% e, em alguns itens, mais do que o dobro. Para piorar, veio o aumento do ICMS em mais de 30%. Isto repercutiu diretamente na classe trabalhadora, que ganha salários baixos. Hoje ela ainda não se recuperou. Agora mais um aumento de 15% sobre o ICMS, um tributo sobre o consumo, atingindo novamente a classe trabalhadora. Por isso, o setor empresarial é contra, porque prejudica diretamente os trabalhadores, que estão sofrendo nos últimos anos. Durante a pandemia tivemos falta de produtos e, na retomada, a inflação explodiu. Os efeitos seguem até hoje. Há uma preocupação com este aumento no estado.

JC – E em relação ao governo federal?
Lazzari - Também nos preocupa, principalmente quando se trata de como se comportou diante das enchentes que assolaram os municípios da Região Sul. Os recursos prometidos ainda não vieram, as comunidades estão resolvendo a maioria de seus problemas com apoio de voluntários e por iniciativas próprias. Onde está a ajuda federal? A União parece não ter entendido que estamos em um mesmo avião, com o mesmo piloto. Não é porque na Região Sul o atual governo recebeu menos votos que ela deixou de existir. No momento, estamos desprovidos de maior atenção. A preocupação para 2024 é muito mais de natureza política do que empresarial.