Apagão reabre debate sobre modelo do setor elétrico do País

Sistema Interligado Nacional prevê deslocamentos de energia entre as regiões brasileiras

Por Jefferson Klein

Linhas de transmissão fazem a conexão entre os estados
A concepção do setor elétrico brasileiro foi baseada na geração de energia nas regiões mais propícias (que contam com recursos naturais como rios, boa radiação solar ou ventos) e o seu compartilhamento entre as regiões do País através de extensas linhas de transmissão. No entanto, o está concentrada no Nordeste. Contudo, a maior demanda está no Sul e Sudeste, sendo necessário movimentar essa energia por grandes distâncias. Quando há problemas nesse transporte de energia, ocorrem enormes transtornos como foi o de terça-feira. Por outro lado, colocar a geração perto do centro de carga pode significar um investimento maior se a fonte de energia como, por exemplo, o vento, não for tão competitiva como em outros locais.
Esse fator implicou que maciçamente as usinas eólicas nacionais fossem nordestinas (de uma capacidade instalada total no País de 26,8 mil MW dessa fonte, 24,7 mil MW encontram-se naquela região). O diretor-presidente da RGE, Marco Antonio Villela de Abreu, argumenta que nem sempre é possível colocar a geração próxima dos centros de carga. “Mas, as novas tecnologias vão vindo e a geração distribuída (feita fundamentalmente com painéis solares fotovoltaicos) é um pouco disso, ficando mais perto do consumo”, ressalta Abreu.
Entretanto, ele lembra que no caso de outras fontes, como a hidreletricidade, às vezes é impossível adotar esse conceito. Por isso, salienta Abreu, o uso de linhas de transmissão. Porém, o diretor-presidente da RGE admite que essas estruturas são suscetíveis a eventos climáticos, falhas técnicas ou outras ocorrências.
Já o presidente do Sindicato da Indústria de Energias Renováveis do Rio Grande do Sul (Sindienergia-RS), Guilherme Sari, defende que é preciso focar na questão da segurança energética. Um modo de alcançar esse objetivo, aponta o dirigente, é ter geração de energia em diferentes pontos do Brasil.
“Não adianta ter um apagão e não podermos contar com a energia, com sistemas regionais que possam nos ajudar nesse processo”, comenta Sari. Ele enfatiza que o mundo e o País vivem um processo de transição energética, sustentada pelas fontes renováveis, mas é preciso assegurar o atendimento da demanda dos consumidores.
O coordenador do Grupo Temático de Energia e Telecomunicações da Fiergs, Edilson Deitos, considera que o evento da terça-feira “acendeu a luz vermelha”. Para ele, o apagão mostrou que existe algum grau de risco de concentrar boa parte da expansão da geração elétrica nacional no território do Nordeste, tendo que construir muitas linhas de transmissão para escoar essa energia para os centros de cargas no Sudeste e Sul.
Dentro desse cenário, o dirigente vê oportunidades de mercado para o Rio Grande do Sul. “Temos projetos eólicos enormes e o momento é de o Estado ajudar a, pelo menos, reduzir os riscos de problemas”, assinala. O integrante da Fiergs diz que é preciso estabelecer um cálculo racional que remunere os empreendimentos de geração também levando em conta a proximidade do ponto de entrega da energia.
Por sua vez, o coordenador do curso de Engenharia de Energias Renováveis da Escola Politécnica da Pucrs, Odilon Francisco Duarte, frisa que sempre há riscos em qualquer tipo de operação. No entanto, ele considera o sistema elétrico brasileiro interligado como de vanguarda, inclusive apostando em fontes renováveis, como a hidreletricidade. “Quando chove no Sul do País e não chove no Sudeste ou no Nordeste, a gente manda energia para eles e ocorre o mesmo vice-versa”, detalha o professor.

Rio Grande do Sul tem desequilíbrio entre oferta e demanda

Se cada estado fosse um sistema elétrico isolado, informa o coordenador do curso de Engenharia de Energias Renováveis da Escola Politécnica da Pucrs, Odilon Francisco Duarte, hoje o Rio Grande do Sul seria deficitário quanto à oferta e demanda de energia. O Estado “importa” normalmente, de outras regiões do País, em torno de 60% da energia que consume.
Duarte ressalta ainda que é importante fazer a diversificação da matriz energética, apostando em energias renováveis como a solar, biomassa e eólica e também dando suporte com gerações firmes (que não variam com as condições climáticas) como as usinas a gás natural. Para o professor, os sistemas de transmissão têm que ser reforçados, com mais investimentos em linhas e subestações.
Sobre a possibilidade de gerar energia mais próximo do centro de carga, ele faz a analogia com o setor da pecuária. “Eu não posso criar gado em Porto Alegre”, compara. Duarte explica que é preciso gerar energia onde há recursos adequados para isso.