Família que reside nos Eucaliptos espera acordo com o Inter para sair

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O coração colorado do representante comercial Paulo Osório está dividido. Osório nasceu no estádio dos Eucaliptos, ou mais precisamente numa casa situada na área de 20 hectares do imóvel que hoje representa a principal fonte de recursos para custear a reforma do Gigante da Beira-Rio rumo à Copa 2014. O clube quer negociar a área, avaliada em quase R$ 30 milhões e com potencial inigualável de exploração imobiliária na região do Menino Deus, para cobrir parte do investimento de mais de R$ 135 milhões no Beira-Rio. O torcedor e sua mãe, a pensionista Clara, de 82 anos, estão dispostos a facilitar as tratativas, mas confessam que terão dificuldade de encerrar a ligação sentimental com o estádio.

"Nasci aqui em 30 de setembro de 1962. Era domingo e dia de jogo no estádio. E o melhor: o Inter venceu a partida", vibra o rapaz, que relata ter assistido a muitos treinos e campeonatos do colorado da visão privilegiada que tinha da casa da família. "Vi até o Pelé treinar aqui", orgulha-se. A residência ocupa um dos cantos do terreno, na esquina da rua Barão do Cerro Largo com Dona Augusta. Hoje um matagal impede a vista completa do gramado. Faz mais de um ano que as negociações foram abertas.
Dirigentes do clube declaram que a negociação está prestes a ser fechada. "Vamos assinar um acordo a qualquer momento", aposta o segundo vice-presidente do Inter, Mário Sérgio Martins. O prazo seria final deste mês. Mas no final de 2009, já havia esta mesma convicção, que foi transferida para junho passado e agora ganha nova data. O vice-presidente de patrimônio, Emídio Ferreira, marca para metade de agosto o começo das obras no Beira-Rio, contando com a venda do Eucaliptos. O dinheiro da transação imobiliária, que já teria pelo menos cinco interessados no negócio, é decisivo para a largada do projeto.
Mãe e filho estão abertos a acertar um valor com o clube para deixar a moradia, sem revelar a cifra pretendida, mas confessam que sentirão saudade do palco histórico do futebol gaúcho. "Tive meu filho em casa, com parteira. Muitos jogadores vieram conhecer meu bebê depois da partida", recorda Clara. Entre os primeiros a conhecer o filho Paulo estava o jogador Ezequiel, um dos titulares do time nos anos de 1960. O marido da pensionista, Atalício, morreu há oito anos sem ver resolvido o impasse. A família havia ingressado na Justiça requerendo o direito de propriedade da área onde fica a residência. Seria um reconhecimento pelas mais de cinco décadas de dedicação de Atalício ao clube.
A filha de dona Clara, a advogada Elga Osório, comanda a negociação.  Segundo a advogada, a intenção é fechar o acordo e encerrar a pendência judicial. Elga economiza nas palavras, mas deixa escapar que terá reunião na próxima quinta-feira com representantes do clube. "Estamos bem perto de um desfecho. Só queremos um preço que reconheça a dedicação do meu pai aos Eucaliptos", esclarece a advogada. O pai e a mãe de Elga se mudaram para o terreno em 1952, ao trocar Cachoeira do Sul pelo trabalho na manutenção do estádio. "Meu marido fazia de tudo, da troca de lâmpadas a pequenas obras. Até em dia de jogo ele não parava", relata a esposa, hoje pensionista, com vencimento de pouco mais de R$ 1 mil mensais. Clara avisa que pretende, após o acerto com o Inter, adquirir uma nova casa, "que será aqui por perto", adianta.