Espetáculo de dança contemporânea 'Água redonda e comprida' estreia no teatro Glênio Peres

Apresentações acontecem nesta sexta-feira (29) e no sábado (30), sempre às 15h, com entrada gratuita

Por Adriana Lampert

Espetáculo de dança contemporânea 'Água redonda e comprida' estreia no teatro Glênio Peres, dentro da VII Mostra de Artes Cênicas e Música
O universo das águas desde a cosmovisão do povo Kaingang é a temática do espetáculo de dança contemporânea Água redonda e comprida, que estreia no teatro Glênio Peres neste final de semana, dentro da VII Mostra de Artes Cênicas e Música do espaço cultural. As apresentações acontecem nesta sexta-feira (29) e no sábado (30), sempre às 15h, com entrada gratuita. A retirada de ingressos pode ser realizada das 9h às 18h, na Seção do Memorial da Câmara Municipal (Av. Loureiro da Silva, 255).
A peça foi criada por meio do edital (Re)-volta da Dança (2022), uma parceria entre o Centro Municipal de Danca da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa com Goethe-Institut Porto Alegre, e recebeu três indicações no Prêmio Açorianos de Dança de 2022, vencendo na categoria Destaque Técnico-Artístico, pela orientação cênica - assinada pela kujá (pajé) e líder indígena Iracema Gah Teh, juntamente com Angélica Kaingang. Ambas são autoras dos textos e narrativas que se apresentam no decorrer da apresentação.
"Inspirado nesse conhecimento e construindo novas perspectivas de criação, o espetáculo reúne diferentes gerações de pessoas indígenas e não indígenas", destaca a idealizadora e responsável pela concepção e direção geral da montagem, a bailarina e antropóloga Geórgia Macedo. Ela assina, também, a direção artística ao lado de Kalisy Cabeda e divide a cena com a bailarina pré-adolescente indígena Kaingang, Nayane Gakre.
Juntas, as bailarinas demarcam como território indígena o palco, onde brincam e criam movimentos orgânicos e intuitivos, para refletir sobre as águas originárias que dão vida a tudo. A linguagem de palco reúne expressividades de ambas intérpretes, que durante um mês se propuseram a fazer várias provocações até a criação das cenas, onde o orgânico e o intuitivo ganharam espaço e se tornaam aspectos importantes da linguagem da dança que é desenvolvida.
A direção de movimento é de Camila Vergara, enquanto a trilha sonora é de Thiago Ramil; e a concepção do figurino e cenografia são resultado do trabalho de Isabel Ramil. "As águas são como nossas parentes. Antigamente, os meus avós diziam que não se jogava sujeira na água, pois é a mesma coisa que jogar uma sujeira no olho de nossa avó ou da nossa mãe", afirma Iracema Gah Teh.  
Apoiadas numa dramaturgia criada a partir de improvisos, mas alinhada pelo olhar de Kalisy, Geógia e Nayane apresentam à plateia as imagens das marcas Kamé - com a energia do sol, do masculino, e formato comprido - e Kairú - redonda, com a energia feminina e da lua. "São marcas atribuídas pelos Kaingang a todos os seres do planeta - e toda energia que existe no Universo é polarizada entre masculino e feminino, que são forças complementares, uma não existe sem a outra", explica a bailarina e antropóloga. Segundo ela, com esse entendimento, as metades (plantas, pessoas, animais e seres) possuem características e comportamentos próprios, e vivem se complementando entre si.
"As águas compridas correm, formam os rios. Sua força vem das goj ror, que são as nascentes, as águas redondas, as águas que brotam", ilustra Geórgia. "Essas águas são complementares, como toda a cosmologia Kaingang, e é na união e troca entre as duas metades que, de acordo com os indígenas, o mundo pode conquistar o equilíbrio", emenda a idelizadora do espetáculo. "Isso tudo eu venho aprendendo com a Iracema Gah Teh há alguns anos. E foi a partir da oportunidade desse edital, que veio a ideia de construir essas imagens na linguagem das artes cênicas”, afirma Geórgia.
Dar luz à importância de preservar e valorizar a água é um tema que já permeava outros trabalhos no cinema e na música, produzidos pela antropóloga junto ao povo Kaingang. Segundo ela, "a valorização da água precisa acontecer dentro e fora dos territórios indígenas". "Por isso, este espetáculo é feito, acima de tudo, para não-indígenas", pontua.