Um abecedário de imagens na exposição de Miguel Rio Branco na Fundação Iberê

Mostra de Miguel Rio Branco traz 127 fotografias do artista a Porto Alegre, ressaltando o caráter narrativo das imagens

Por Andressa Pufal Leonarczik

Mostra de Miguel Rio Branco traz 127 fotografias do artista a Porto Alegre, ressaltando o caráter narrativo das imagens
Reunindo 127 fotografias e olhares sobre diferentes cidades, a exposição Palavras cruzadas, sonhadas, rasgadas, roubadas, usadas, sangradas, do fotógrafo, artista plástico e cineasta Miguel Rio Branco chega às paredes da Fundação Iberê Camargo (Av. Padre Cacique, 2000) neste sábado (26). Com curadoria do próprio artista e de Thyago Nogueira, as obras revisitam as vivências de Rio Branco desde as primeiras experimentações na fotografia, nos anos 1970, até os dias de hoje. A mostra pode ser visitada até novembro, de quinta-feira a domingo, das 14h às 18h. Ingressos, a partir de R$ 10,00, podem ser adquiridos na Sympla ou na recepção da casa.

A mostra começa a sua jornada na década de 1970, quando Rio Branco experimentava com sua câmera fotográfica, apontando a lente para os contrastes das grandes metrópoles. Na época, o artista das cores, como é conhecido, produzia fotografias em preto e branco para registrar os bairros boêmios da cidade de Nova York, explorando a estética monocromática, rara em suas produções. Essa experimentação resultou na rara série New York Sketches. A exposição caminha para os seus trabalhos mais conhecidos, como as séries Coração, espelho da carne (1973), Mona Lisa (1973), sequência fotografada em um bordel no município de Luziânia (GO), no entorno do Distrito Federal, e Academia de Boxe Santa Rosa (1993).
Remontando quase meio século de caminho na sua vida artística, Palavras cruzadas... também mostra as mudanças técnicas de Rio Branco: as obras que no início da carreira eram feitas em altas velocidades, se tornam mais calmas, paradas e contemplativas, chegando a uma estética pictórica, explorando as texturas, jogos de luzes e elementos simples, explorando a subjetividade.
Mesmo que traga, de certa forma, a história artística do fotógrafo, a ideia da mostra não era fazer uma retrospectiva. A curadoria não pensou em mostrar apenas as obras que se destacam na trajetória, mas construir uma nova linguagem e sentidos para as fotografias, através da composição milimetricamente pensada nas paredes dos museus. As obras fotográficas da exposição funcionam como um grande alfabeto, e evidenciam como Miguel Rio Branco consegue construir uma sintaxe e uma narrativa através das imagens.
Com cada foto atuando como a letra de um abecedário, o efeito de colagem da exposição embaralha as palavras e formula novas narrativas e diálogos entre as obras. “A fotografia nunca foi uma uma imagem considerada sozinha, ela sempre teve ligação com outras imagens fazendo construções. É uma questão de juntar os pedaços para construir o todo”, comenta Miguel Rio Branco. 

O artista nunca foi muito atraído pelo caráter documental da fotografia, mas sim por sua potencialidade subjetiva. Assim, suas obras deixam de ser uma janela para a vida para se tornarem uma janela para a alma. “A partir de 1978 a minha obra começou a virar uma construção que tinha a questão documental com base, mas mais literária. E nessa exposição isso tá bem determinado: existe muito mais uma questão poética do que uma questão documental temática. Houve sempre uma construção poética a partir do documento.”

As conexões entre as fotos também dividem o foco com a conexão das obras com o lugar onde estão abrigadas. “Eu estou fazendo uma exposição numa Fundação que é de um pintor extremamente expressionista, algo raro no Brasil. Eu acredito que o público tem que pensar muito sobre essa conexão”, reflete Rio Branco. Expressionista, como se descreve, o artista dá muito mais destaque ao caráter narrativo de sua obra do que ao eixo temático, que ele considera inexistente. “Não tem nada em comum entre as obras, é um um recorte em relação ao tipo de linguagem.”

Filho de diplomatas, bisneto de Barão de Rio Branco e tataraneto de Visconde de Rio Branco por parte de pai, Miguel Rio Branco cresceu entre Espanha, Portugal, Brasil, Suíça e os Estados Unidos. Nas suas diversas vivências, o artista percebeu que a maior parte da população humana é marginal, o que retratava em suas obras. Rio Branco comenta que sempre foi mais atraído por situações humanas que o chocavam, por enxergar nesses contextos uma força vital de resistência.