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Aldeias Kaingang do Rio Grande do Sul levam suas canções para além dos territórios
Indígenas de Canela e Nonoai lançam álbum que chama a atenção para a importância dos recursos hídricos e da preservação e valorização das águas
Somando 19 canções executadas por 25 artistas de duas comunidades indígenas gaúchas, o álbum musical e visual Goj tej e goj ror, as águas são nossas irmãs estreia nas plataformas digitais (Spotify e YouTube) nesta quarta-feira (26). Na mesma data, às 19h, ocorre o lançamento presencial do trabalho na Cinemateca Capitólio (rua Demétrio Ribeiro, 1085). Dirigido pela líder indígena e Kujá Iracema Gah Teh, o álbum foi idealização e realizado por ela em parceria com a produtora Tela Indígena, formada pelos antropólogos Ana Letícia Schweig, Eduardo Schaan, Geórgia Macedo e Marcus Wittmann. A entrada é franca.
Desenvolvido por meio de laboratórios artísticos e estúdios de gravação em aldeias Kaingang de Nonoai e Canela, o projeto apresenta músicas inéditas e tradicionais de autoria indígena, onde o tema principal busca dar luz à importância de preservar e valorizar a água. "Também é um apelo para a preservação dos territórios e cultura Kaingang", emenda um dos produtores locais, o cacique Maurício Salvador (Vãn Tánh, na língua original), da comunidade Konhún Mag, em Canela.
"O álbum Goj tej e goj ror, as águas são nossas irmãs nasce do encontro de diferentes gerações, envolvendo todos os membros das aldeias, para dialogar e cantar sobre e para as águas", destaca Salvador. "Nossa comunidade vem num processo de reivindicação de território ancestral, e esses cânticos são também um pedido de forças, pensamento e energia positivas", reforça. Ele destaca que, no entanto, a água é a protagonista dos cânticos, que falam do surgimento da vida e de como ela flui com rios e riachos.
"Lembramos da importância dos rios e açudes e das nascentes, que em nosso território, por exemplo, são usadas pelos kujá (pajés) para fazer tratamento com ervas medicinais e rituais de batismo das crianças." No caso dos açudes, emenda Salvador, são fontes de alimento para a comunidade, através da pesca. "Importante lembrar que a água é patrimônio de toda humanidade, e assim como a natureza, a terra e os animais, precisa ser preservada para que se cumpra o ciclo da vida", observa.
O repertório do álbum - que tem financiamento da Lei de Incentivo à Cultura (Lic) e patrocínio do Natura Musical, é composto por músicas inéditas criadas e gravadas pelos indígenas (que se inspiraram durante o período de laboratório), e outras canções tradicionais, passadas de geração em geração, que remetem ao gufã (tempo antigo e mítico, geralmente a ver com a flora, rios, território, alimentos e animais presentes nas histórias). Entre os instrumentos utilizados estão o violão taquara (típico dos Kaingang), chocalho, flauta de bambu e apito.
De acorco com a produtora cultural Geórgia de Macedo Garcia, o projeto inclui lançamentos também em Brasília (no sábado, dia 29), no Memorial dos Povos Indígenas; e nas próprias comunidades indígenas de Canela (no dia 5 de agosto) - com entrada franca e aberta ao público, a partir das 14h30min no território Konhún Mag -; e Nonoai (dia 20 de agosto) - em evento fechado para a comunidade indígena local (Nürvenh).
A concepção, indicação e seleção das 19 faixas foi realizada pelos Kaingang em cada um dos territórios e os laboratórios artísticos e interdisciplinares reuniram pajés, músicos, artistas visuais e produtores culturais não indígenas entre outubro de 2022 e janeiro 2023. "Foram 15 meses de trabalho", resume Geórgia. Ela comenta que o maior desafio do processo foi justamente selecionar as músicas. "Eram muitas e foi difícil na hora de decidir o que poderia entrar no álbum, tivemos muitas conversas sobre espiritualidade", explica.
A concepção, indicação e seleção das 19 faixas foi realizada pelos Kaingang em cada um dos territórios e os laboratórios artísticos e interdisciplinares reuniram pajés, músicos, artistas visuais e produtores culturais não indígenas entre outubro de 2022 e janeiro 2023. "Foram 15 meses de trabalho", resume Geórgia. Ela comenta que o maior desafio do processo foi justamente selecionar as músicas. "Eram muitas e foi difícil na hora de decidir o que poderia entrar no álbum, tivemos muitas conversas sobre espiritualidade", explica.
Outro diferencial do processo, segundo Geórgia, foi lidar com o fato de que não se tratava de gravar em estúdio fechado e isolado. "A maioiria das canções e histórias contadas nas faixas deste álbum surgiram durante nossa convivência com os artistas, em momentos de alimentação, conversas, perto dos rios, das risadas das crianças - e tudo isso foi captado ao fundo, sem isolamento acústico". A ideia, segundo ela, foi justamente levar todo esse ambiente e experiência do territórios para o álbum.
De acordo com a antropóloga e produtora da Tela Indígena, a valorização da água precisa acontecer dentro e fora dos territórios indígenas. "O álbum é um convite para outras formas de entender o mundo e as relações com as águas, florestas e ambiente. Tem um caráter criativo e formativo no qual os artistas indígenas conhecem, participam e conduzem todas as etapas."
O povo Kaingang concebe dois tipos de água no mundo: Goj tej (água comprida, dos rios) e Goj ror (água redonda, as nascentes, os lagos). "Essas águas são complementares, como toda a cosmologia Kaingang, e é na união e troca entre as duas metades que, de acordo com os indígenas, o mundo pode conquistar o equilíbrio", explica a antropóloga. "Não só as águas, mas todo universo Kaingang é dividido entre as coisas redondas (ror) e compridas (téj), assim como as pessoas que têm suas marcas passadas de pais para filhos, sendo divididos entre kamé e kajru", continua Geórgia. Segundo ela, com esse entendimento, as metades (plantas, pessoas, animais e seres) possuem características e comportamentos próprios, e vivem se complementando entre si.
"Nasci neste rio lindo que vem tentando sobreviver, e a música que canto conheci com meu avô", destaca a diretora do trabalho, Iracema Gah Teh. "Esse álbum é muito importante para mim, por poder compartilhar nossa música, mas também é importante porque é algo que ficará registrado para os meus netos e para os próximos povos entenderem essa mensagem." Ao pontuar que poder se expressar para os não indígenas é "uma oportunidade", Iracema lembra que seus pais e avós não tiveram a mesma sorte.
O projeto teve duração de seis dias de laboratório em cada território indígena, conta Geórgia. A produção musical e edição de áudio é de Thiago Ramil e a identidade visual é da professora e artista indígena Vera Kaninhka e Amanda Teixeira.