Maria Peçonha traz sustentabilidade e diversidade ao palco do Teatro do Sesc

Teatro de bonecos conta história que mistura lendas do interior gaúcho e estreia neste fim de semana

Por Andressa Pufal Leonarczik

Teatro de bonecos Maria Peçonha reúne lendas do interior gaúcho e estreia neste fim de semana
Trazendo temas como a ecologia e a diversidade para os palcos, o espetáculo Maria Peçonha estreia neste fim de semana (24 e 25), às 16h, no Teatro do Sesc (av. Alberto Bins, 665). Adaptada de um livro do ilustrador André Neves e idealizada pela Cia Gente Falante, a peça traz a história de Maria Flor, uma menina que fazia brotar flores por onde passava, mas que, em certo dia, se torna Maria Peçonha, secando a natureza ao seu redor. Ingressos à venda na Sympla, por a partir de R$ 20,00.

Maria é uma menina recém chegada em Alegrete, no interior do Estado, que tece bonecas mágicas que trazem sorte para quem as possuir. Mas ela se torna especial por sua outra habilidade fantástica: por onde passa, faz nascer flores, germinando vida e abundância. Mas por ser uma forasteira, os moradores da cidade começam a discriminá-la e ela se transforma em uma criança triste, que deixa um rastro de destruição, secura e morte por onde passa.

A peça utiliza a linguagem do teatro de formas, levando aos palcos bonecos de luva francesa, bonecos de balcão e bonecos de vara; além de objetos, sombras, animações digitais e narração - feita pela atriz Carol Aquino. Apesar de se utilizar de elementos lúdicos, a montagem trata de questões graves, como o processo de desertificação das terras do interior do Estado. Maria Peçonha coloca sob holofote os malefícios da monocultura de soja e a arenização do solo, decorrente dessa prática.

“É como se a Maria fosse o presságio do que vem acontecendo aqui no Rio Grande do Sul. Ou seja, a Maria vem do sertão nordestino como um prenúncio de virar a Maria Peçonha, que cria uma situação de seca, por imprudência da própria sociedade. É um link com o que acontece no sertão do Brasil”, explica Paulo Fontes, diretor da peça e criador da Cia. Gente Falante.

Além do alerta sobre os danos causados pela exploração desenfreada do solo, a obra também trata da diversidade. Maria Peçonha nos mostra como podemos tornar desertos os universos dos outros com a nossa displicência. “Ela trata do quanto que a gente não pode frutificar se a gente não disponibiliza a nossa energia para o outro. O quanto a gente é peçonhento nas nossas relações se a gente não coloca o outro como prioridade, como forma de crescimento”, reflete.

Inspirada pela lenda da Bruxa dos Pampas, usada para explicar o vento minuano que uiva pelas ruas, Maria Peçonha mistura vários elementos do lendário do interior do Estado - como o Saci Pererê, a Salamanca do Jarau, o Boitatá -, dando vida a esse conto fantástico gaúcho. Com financiamento do Fumproarte, a montagem era para estrear em 2020, mas teve que hibernar durante a pandemia, podendo, só agora, contar sua história.

O teatro de bonecos da Cia. Gente Falante segue a tendência contemporânea de tirar das escondidas o ator-manipulador que dá vida aos bonecos. Entrando em cena junto com as marionetes e fantoches, os atores, apesar de aparecerem, transferem toda a atenção do público à forma animada. Isso acontece porque a presença dos manipuladores em cena dissipa o imaginário de que algo está escondido, mostrando a verdade completa do ato. “Não há mais a necessidade de ocultar o ator-manipulador e sim que ele esteja presente à disposição da forma animada - inclusive para que ela fique mais viva ainda.”

A Cia. Gente Falante foi criada por Paulo Fontes em Salvador, em 1991. Cinco anos depois, a companhia foi veio para o Rio Grande do Sul, em busca de melhor mercado de arte de objetos. Dando vida ao seu amor pelo teatro de bonecos, Paulo decidiu largar o trabalho na área de publicidade e se dedicar apenas aos palcos. “Daqui, a gente saiu para o mundo. Já rodamos o país inteiro, fizemos show em todas as capitais, já saímos para alguns países do eixo Mercosul…”, comenta.

“A gente já teve várias experiências de adaptações, mas essa é a mais querida. Ela levou tanto tempo e percalços pra levar ela pro palco. E ela trata de temas importantíssimos”, Baiano em Porto Alegre, Paulo, por muito tempo, também se sentiu um ‘forasteiro’, o que torna a história mais especial. Mas, sendo regado pelo seu redor, hoje se sente em casa: “agora eu sou baiucho.”