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Exposição comemora primeiro ano da Ocre Galeria com obras de Frantz e Manoel Veiga
Mostra 'Pintura Pensamento' reúne duas grandes expressões da arte contemporânea brasileira, tenciona o conceito de pintura
No mês em que comemora um ano de atividades ininterruptas, a Ocre Galeria, localizada no Centro Histórico de Porto Alegre, inaugura a exposição intitulada Pintura Pensamento, reunindo dois nomes da arte contemporânea brasileira: o gaúcho Frantz e o pernambucano (radicado em São Paulo) Manoel Veiga. A mostra será aberta ao público neste sábado, das 11h às 14h, consolidando um empreendimento cultural que tem foco na produção contemporânea e na comercialização e divulgação da arte brasileira, com especial destaque para os artistas de trajetória longeva e emergentes. A entrada é franca.
O que aproxima estes dois artistas de trajetórias e regiões geográficas distintas, além do fato de serem contemporâneos, de cultivarem uma amizade de longa data e do interesse em comum pelo processo artístico, mais que, efetivamente, a execução? Para Manoel Veiga, independente do resultado formal, existe uma aproximação com a pintura que é muito mais conceitual. Ao se considerar a proposta estética de Frantz e de Veiga, é possível estabelecer um ponto de convergência entre a produção artística de ambos: eles tencionam os limites entre "o que é" e "o que não é pintura", abrindo espaço para uma arte feita de probabilidades. "Somos artistas que trabalham com a cultura da não ação. Os fenômenos agem e a gente os seleciona", arrisca Frantz. "O que me interessa são os limites que esta proposta tenciona de ser ou não ser pintura", provoca.
Por mais paradoxal que pareça, tanto Frantz como Manoel Veiga são pintores que não pintam, pelo menos não da maneira como se entende a pintura - o contato do pincel ou da espátula sobre uma superfície de lona, papel, tela ou uma parede. Todavia, Frantz já pintou. Isso foi no começo dos anos 1980, quando, ainda jovem, despontou no circuito artístico local, logo se projetando também para fora do Estado, em um momento histórico em que a pintura, frente à sua longa tradição e suas mortes continuamente anunciadas, era reabilitada por um renovado interesse pela pesquisa de seus meios e linguagem. Frantz foi um dos protagonistas deste momento, assim como Manoel Veiga, cada um em seu tempo distinto.
As obras de Frantz resultam dos procedimentos de apropriação dos pisos de ateliês de artistas que ele forra com grandes extensões de lona. Essas coberturas permanecem nestes espaços de trabalho durante anos, por vezes décadas, recebendo resíduos de todo tipo que nelas se depositam. Quando Frantz decide retirar os forros, os acúmulos de tinta e sujeira lhe surgem como possibilidades, que a partir do seu processo de apropriação, enquadramento e montagem, permitem-lhe identificar e nomear as superfícies como pintura. "Meu trabalho de criação começa quando eu escolho o lugar em que vou trabalhar", explica Frantz. "Trata-se de definir que espaço me interessa. Eu não mexo na cena, mas atuo como um editor das imagens. É pintura, porque é tela, tem intenção de meio e fim", afirma. Segundo o artista, interessa-lhe os limites que este processo tenciona de ser ou não ser pintura.
Também questionando os limites da pintura, temos a potente produção de Manoel Veiga, em exibição, pela primeira vez, na Ocre Galeria. Em suas obras, o artista, que é engenheiro eletrônico de formação, trabalha com probabilidades estéticas a partir de conceitos da física e da química.
Nas pinturas sobre tela ou papel, fenômenos da natureza, como difusão, gravidade, capilaridade, entre outros, são utilizados como ferramentas de construção, num procedimento técnico bem estruturado, mas que contém certa medida de acaso. Há pouco uso do pincel e o direcionamento do fluxo de tinta é feito de forma indireta.
A fixação desses pigmentos sobre a tela gera a imagem de um novo espaço, facilmente associado ao natural, uma vez que a técnica desenvolvida inclui os mesmos fenômenos usados pela natureza. "Não há, aqui, a tradicional metáfora para o mundo natural, mas um curto-circuito de significados. Através desses fluxos reais de cor temos uma experiência indissociável de espaço e tempo", ressalta Veiga.
"Eu conduzo a pintura de uma maneira mental; não tem ação física. Eu não uso o pincel, a não ser para depositar a tinta na tela; na sequência, uso um pulverizador de água, que direciona a tinta de forma indireta. O trabalho começa com a seleção de pigmentos; cada cor é formada por um pigmento diferente; dependendo das propriedades deste pigmento, tamanho, densidade, formato, este pigmento vai se deslocar de uma maneira específica na tela, são questões de dinâmica dos fluídos", detalha Manoel Veiga.
É uma apropriação destes fenômenos, transformados em ferramenta de pintura, sintetiza. Em lugar de representar natureza, Veiga trabalha com ela para imaginar novas configurações de espaço e tempo.
Ao longo de seu trabalho como artista visual, as conexões entre arte e ciência estiveram sempre presentes, tanto em seu aspecto conceitual quanto prático e construtivo. Por meio da pintura e da fotografia, Veiga vem explorando as noções de espaço e tempo, gerando novas relações e cruzamentos entre suas formas de representação nos dois campos. Isso o levou a um contato constante com físicos e matemáticos de vários países, culminando recentemente na criação de uma plataforma internacional de colaboração, financiada pela National Science Foundation (EUA) e pelo Isaac Newton Institute (Cambridge, Inglaterra), sendo o artista membro do seu comitê gestor.
Segundo a professora Heloísa Espada, que realizou a curadoria de uma grande exposição antológica de Manoel Veiga no Mac/USP, encerrada em janeiro deste ano, em São Paulo, "sua arte é uma espécie de laboratório, onde é possível manipular leis da natureza que regem o cotidiano e a relação das pessoas com o tempo, escolhas pessoais e aquilo que acontece à revelia dos desejos, como o envelhecimento dos corpos e a movimentação de matérias diversas no espaço".
Nestas provocações de Frantz e de Manoel Veiga, que permitem uma reflexão sobre o campo expandido da pintura, o público terá a chance de renovar e ampliar seu entendimento e experiências sobre o fazer e o pensar em torno dos limites da pintura.