Primeira exposição individual de Lara Fuke inaugura neste sábado (6), no Museu do Trabalho

Artista aborda os limites entre figura, corpo e palavra na mostra, que segue até o dia 25 de junho

Por Andressa Pufal Leonarczik

Mostra estuda os limites entre figura, corpo e palavra
Neste sábado (6), o Museu do Trabalho (Rua dos Andradas, 230) recebe a primeira exposição individual da artista Lara Fuke. A mostra Queria lembrar do meu corpo tem curadoria de Fabio Zimbres e traz desenhos feitos em nanquim e bastão de tinta, em papel manteiga e papel jornal, além de uma animação em vídeo e um zine com desenhos e poesias.
A obra de Lara busca investigar os limites tênues entre figura, corpo e palavra. A exposição fica em cartaz até o dia 25 de junho, com visitação de terças a sábados, das 13h30min às 18h30min, e domingos e feriados, das 14h às 18h30min.

Nas paredes do Museu do Trabalho, a artista inseriu os desenhos esboçados em seus cadernos, que abordam, principalmente, a temática do corpo. Utilizando o papel, a caneta, os traços e as linhas como instrumentos de estudo das corporalidades, Lara examina a imagem dos corpos e a funcionalidade do seu próprio. "Me interessa muito essa coisa do gesto. Tenho desenhos que são figuras do corpo, mas são a mesma figura que eu repito. E nessa repetição eu procuro ensaiar o gesto da minha mão", explica. 
Enquanto instrumento, o braço utiliza a arte para estudar o corpo, que é casa biológica, mas se faz figura no papel. "Onde eu coloco mais pressão ou mais leveza no gesto. Ao mesmo tempo, eu estudo o gesto da minha mão e do meu braço e também procuro examinar aquela figura."

As fronteiras entre figura, corpo e palavra se dissolvem quando um vira matéria prima do outro, quando os contornos do corpo viram traços que "rasgam" o papel e inspiram poesias. "Um aumenta a existência um do outro. Eu desenho para o meu corpo ficar mais consciente, nítido. Assim como eu escrevo para deixar meu desenho mais ele mesmo, de uma forma definida. E movimento meu corpo para deixar o desenho mais contornado", explica. "Por isso, eu coloco eles em relação - acho que quando isso acontece eles ficam ainda mais existentes, mais eles mesmos."

A relação com o corpo vem desde cedo. Aos 15 anos, Lara começou a dançar e, mais pra frente, isso acabou virando sua escolha de graduação. Na faculdade, a dança e o desenho diluíram barreiras e se entrelaçaram nos cadernos da artista. "Eu vi que não tinha muito como separar a dança do desenho. Essa foi a minha onda. Eu desenhava um movimento ou dançava um esboço", lembra. Os cadernos de desenho também a acompanham sempre, inclusive agora virando objeto de estudo no mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF). Por serem de fácil acesso, os cadernos sem pauta estão sempre à altura das mãos, registrando o que as retinas capturam.

As infinitas possibilidades de um caderno sem pauta foram uma porta aberta para a artista desenvolver uma maior consciência corporal. "A ideia era entender os movimentos do meu corpo: quando dançando, caminhando, vivendo, trabalhando. Fui observando essas minúcias de manter esse hábito de anotar, de desenhar, de rasgar, de colar, de colocar coisas no caderno." O papel também serve como permissão para o esquecimento - quando se anota, não é mais preciso lembrar: a tinta faz esse "favor".
Por isso, o nome da exposição Queria lembrar do meu corpo. Quando se registra o corpo e suas possibilidades no papel, se pode esquecê-lo. E depois, lembrar. "Costuma ser muito bom lembrar, porque é uma coisa antiga que eu estou tendo o frescor em ver. Desenhar o corpo também é uma vontade de esquecer o corpo. Eu posso registrar ele e esquecer dele, para poder olhar de novo", revela a artista.

Depois de "poder esquecer", Lara agora lembra do seu e dos diversos outros corpos que foram guardados entre as folhas de seu caderno. "O corpo é uma coisa obrigatória. É impossível o fazer sem ter o corpo", reflete. A mostra funciona como um grande caderno, as paredes brancas funcionam como as páginas, expondo os entrelaces de linhas e riscos que formam as silhuetas de algo real. Ao folhear seus cadernos, a artista também abre, com essa que é sua primeira exposição individual - novos perímetros para a trajetória de sua vida.