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Letícia Roennau apresenta a si mesma como cantora e compositora com EP 'Meia Pessoa Inteira'
Ex-The Voice Kids, Letícia Roennau surge do "fim do mundo" com seu primeiro EP autoral
Talvez pudéssemos começar dizendo que a vida é uma história feita de começos. E, por dedução, todo começo traz encerramentos dentro si - não raro, como ponto de partida. Foi quando "o mundo acabou", como ela própria define, que a cantora Letícia Roennau encontrou o caminho para um começo fundamental em sua trajetória: o de colocar-se para o mundo como compositora, alguém que escreve e canta a si mesma em tempos de turbulência. Desde o início de dezembro, é possível escutar os primeiros frutos desse começo: o EP Meia pessoa inteira e o videoclipe para Remotamente sua, ambos disponíveis nas plataformas digitais.
A faixa de trabalho do EP, que também foi lançada como single, surgiu um pouco antes do fim do mundo - no caso, nos primeiros dias de 2020, quando a pandemia de Covid-19 já assombrava alguns lugares, mas ainda não tinha se imposto sobre o Brasil. O isolamento que se seguiu deu ao processo de gravação e mixagem (conduzidos pela Labirinto, dos produtores Álvaro Paz, Matheus Oliveira e Poejo) um ritmo muito mais lento do que o previsto inicialmente, com pouca presença física e muito tempo para pensar e trabalhar detalhes. O que, como a própria Letícia admite, acabou dando à faixa uma série de camadas e desdobramentos inesperados.
"Ser artista e trabalhar em um projeto nunca é uma coisa sólida, é sempre algo volátil, complexo, mutável. Eu queria me colocar nesse lugar como artista o mais rápido possível, e no fim o processo demorou muito mais do que eu esperava de início. E ainda bem", diz a compositora. "Sempre quis ter muito controle sobre os processos de produção - não em um sentido pejorativo, mas eu queria estar por dentro, ser parte ativa sempre, acompanhar tudo. (Devido ao isolamento) tive que me desprender um pouco desse controle, dessas perspectivas prévias de como eu queria que a música fosse, e isso fez com que ela crescesse muito mais do que eu tinha imaginado."
Mesmo concretizada em um momento entre paredes, Remotamente sua traz uma energia que é pura libertação. Cantando uma letra cheia de subjetividades, Letícia Roennau entrega uma interpretação intensa, cheia de explosão vocal e melodias que, por vezes, lembram Elis Regina, referência confessa. É a "tempestade no caos", como descreve o produtor Álvaro Paz - e que abre caminho para Dois, primeira canção escrita para o trabalho e intimamente ligada à faixa anterior, ainda que em uma perspectiva distinta. "Dois já é a calmaria após a tempestade. A pessoa está na praia e vê os destroços das embarcações", brinca a cantora. "É sobre respirar fundo e se manter nesses lugares, físicos ou sentimentais, que são importantes, se reorganizar em um espaço menor e diferente". A beleza, canção que encerra o disco, traz em seu espírito uma dramaticidade enfática, em uma afirmação do inalienável direito de vivenciar a melancolia.
'Afirmação', aliás, talvez seja uma palavra quase tão importante quanto 'começo' por aqui. Afinal, Letícia - surgida como artista mirim em festivais nativistas e que ganhou projeção nacional na edição de 2016 do programa The Voice Kids - afirma uma série de coisas sobre a artista que é e a que deseja ser. Inclusive no título escolhido para o EP, Meia pessoa inteira. "Sempre me senti pela metade, como se me faltasse sentir as coisas, como se eu fosse uma pessoa que não estava totalmente ali. De repente, percebi que eu sou pela metade, mesmo, e isso é como eu sou, tudo bem. É claro que é uma perspectiva meio dramática e melancólica, mas faz parte", admite, com bom humor.
Outra afirmação, é claro, se dá em relação à Letícia compositora. "Eu venho do meio nativista, onde a música inédita e a composição são muito fortes. Sempre vi mulheres cantando músicas compostas por homens, mas pouquíssimas compositoras mulheres, pouquíssimas. Nunca vi a composição como um espaço que eu pudesse ocupar", recorda. Um sentimento que começou a mudar a partir do contato com mulheres compositoras que renovam a música feita no Estado - inclusive em conexão com o nativismo, como a artista Clarissa Ferreira. "Aí, às vezes, eu tinha um pouco de receio, pensava que não se interessariam pelo que eu tinha a dizer. Mas as pessoas se interessaram a vida toda pelo que homens têm a dizer, então por que não? Esse espaço é novo para mim, mas eu tenho um desejo muito forte de reparação, de que eu quero cantar minhas próprias músicas e dizer, com as minhas palavras, o que eu sinto e quero expressar", acentua Letícia.
Uma metade inteira que se concretiza agora, no mundo após o fim do mundo, apontando novos começos e pontos de partida. Para os primeiros meses do ano que vem, a ideia é promover shows de lançamento em Porto Alegre e Taquara, cidade natal da artista. O que, possivelmente, vai se conectar com o surgimento de novas músicas - novos começos em uma trajetória que ainda tem vários desses pela frente. "Como artista, o que eu quero sempre dizer é que as pessoas podem ser e enxergar a si mesmas com verdade, que é possível se despir de amarras e ser o que se é. Por mais difícil e complicado que seja essa coisa de ser humano."