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Linguagem realista para criaturas fantásticas
Inédita no Brasil, a peça 'Paisagem Marinha' (Seascape), assinada pelo dramaturgo norte-americano Edward Albee, ganha montagem em Porto Alegre
Encenada em diversos países mas ainda inédita nos palcos brasileiros, a peça teatral Paisagem Marinha (Seascape), assinada pelo dramaturgo norte-americano Edward Albee, ganhou sua primeira montagem profissional em Porto Alegre. O resultado do processo criativo dirigido por Regius Brandão - que também integra o elenco formado por Gisele Lery, Fera Carvalho Leite e Pedro de Oliveira - estreia às 21h desta sexta-feira (9), no Teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mario Quintana (Rua dos Andradas, 736 - Centro Histórico), onde terá, ainda, sessões neste sábado (10), às 21h; e no domingo (11), às 19h. Os ingressos custam R$ 80,00 (inteira) e R$ 40,00 (meia-entrada) e estão à venda pela plataforma Sympla.
Autor da célebre Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, Albee é um dos nomes consagrados da dramaturgia universal do último século. Falecido em setembro de 2016, ao longo de sua carreira, ele foi premiado três vezes com o Pulitzer de Dramaturgia - inclusive por Paisagem Marinha, em 1975 - e é lembrado por sua maestria ao romper as regras dos "bons modos" com seu "humor amargo" em torno da vida americana. Mas foi a linguagem realista que o autor deu para as criaturas fantásticas em Paisagem Marinha que impulsionou a vontade de Brandão em investir neste espetáculo, que é praticamente desconhecido do grande público no Brasil.
"Conheci a peça há oito anos atrás, durante uma residência no Teatro El Galpón de Montevidéu, no Uruguai. Fiquei fascinado ao me deparar com a cena incrível de dois personagens lagartos saindo do fundo do mar", afirma o diretor. "A qualidade do texto e a surpresa de ver em cena aqueles estranhos personagens tão bem caracterizados, imediatamente me remeteram a um desafio que eu gostaria de enfrentar como encenador e ator." A peça conta a história de um casal de meia-idade que, em um piquenique à beira da praia, discute sobre seu relacionamento e sonhos divergentes em idade de aposentadoria, até que é surpreendido por duas criaturas que decidiram deixar as profundezas do oceano para viverem em terra.
A partir daí, surgem situações que remetem, a exemplo de outras peças do autor, à dificuldade do sere humano de se comunicar, bem como a tendência a se render a preconceitos. "No decorrer dos diálogos, se percebe as diferenças de entendimento do que seja a civilização e as diversas vidas na Terra, e um certo julgamento precipitado em relação às espécies, onde uma se acha superior à outra", adianta Brandão. Produtor da montagem, ao lado de Gisele, o encenador observa que o trabalho de Albee tem semelhanças com do irlandês Samuel Beckett.
"Não à toa, ele também é considerado um dramaturgo do Teatro do Absurdo. E um dos símbolos desta linguagem é um um avião que passa todo o tempo, que remete - enquanto eles estão envolvidos nas suas questões naquele ambiente - ao progresso da civilização", pontua. "Outra semelhança é a repetição de palavras, que são ditas várias vezes para que os personagens se façam entender."
Dentre os desafios para realizar a montagem, Brandão cita, inicialmente, a dificuldade de encontrar uma tradução à altura. Após uma "verdadeira batalha", ele decidiu comprar o livro em inglês e entregar a missão para também atriz e diretora teatral Joice de Brito e Cunha. "Além do processo de tradução da Joice, buscamos, como elenco, também compreender o texto, discutindo algumas expressões, e, em coletivo, fomos descobrindo coisas no decorrer dos ensaios, e praticamente até esta véspera de estreia."
Outra missão do diretor era garantir "realidade" para as criaturas marinhas, que são interpretadas por Fera Carvalho Leite e Pedro de Oliveira. Além dos figurinos assinados por Mário de Ballentti, Margarida Rache e César Terres, "de forma atenta à seriedade do texto" (critério, inclusive, instituído por uma cláusula de contrato dos direitos autorais), também o trabalho corporal dos atores foi fundamental para se chegar no resultado esperado, afirma Brandão. "A Fera é bailarina e domina o contact improvisation , e isso ajudou muito neste processo", destaca.
Segundo o diretor, esta é a primeira vez que o elenco trabalha junto, o que também exigiu um "alinhamento" da linguagem - que deixa de ser realista quando entram as criaturas, no segundo ato -, já que os atores do elenco são de diferentes escolas e metade é mais atuante na tv e no cinema. Depois de algum tempo afastada do teatro, Gisele Lery está retornando aos palcos com este espetáculo. Para ela, Albee é incomum na linguagem, profundo e contundente em seus questionamentos e suas críticas. Já Fera Carvalho Leite, atriz atuante na cena contemporânea, integra pela primeira vez um espetáculo com texto do dramaturgo. "A peça questiona o que nos tornamos como espécie, como nos relacionamos em pares, como disputamos poder e hierarquias com os que julgamos diferentes", destaca a artista, ao enumerar motivos pelo qual aceitou o convite de Brandão e Gisele "logo de cara".
"Quase 50 anos depois de seu lançamento, o texto expressa fielmente a cisão atual da sociedade, o que, definitivamente, não colabora para o seu desenvolvimento pacífico. No entanto a inquietação causada por uma necessidade de pertencimento e evolução é urgente, o que exige de fato um grande esforço e provação para sua realização, ou não sairemos do mesmo lugar", pontua o material de divulgação do espetáculo. Ao destacar o desafio de dar veracidade à encenação, Brandão afirma que optou por um cenário com elementos minimalistas (um gramado, e elementos geométricos que representam uma duna e o sol), para fazer um contraponto.
A equipe do espetáculo, que tem planos de cumprir jornada no decorrer de 2023 e outros palcos do estado e em festivais do País, ainda conta com Cesar Czermak (assistente de direção), Carlos Azevedo (criação e operação de luz) e Duca Duarte (trilha sonora), entre outros artistas da técnica.