Tapeçaria ganha destaque em exposição na Fundação Iberê

Obras como a de Ana Norogando integram a exposição Trama: Arte têxtil no Rio Grande do Sul, que abre neste sábado na Fundação Iberê

Por Andressa Pufal Leonarczik

Obras como a de Ana Norogando integram a exposição Trama: Arte têxtil no Rio Grande do Sul, que abre neste sábado na Fundação Iberê
A arte nos cerca por todos os lados. O que, em um primeiro momento, pode parecer um clichê sem muito significado, ganha uma dimensão particular quando se reflete sobre formas de expressão frequentemente desconsideradas, como a tapeçaria. O fio que se junta, se conecta, se entrelaça em si mesmo, acaba se transformando em peça de roupa - e, também, de museu.
São esses trançados dignos de museu que estarão na Fundação Iberê (avenida Padre Cacique, 2.000) a partir do dia 3 de dezembro. Com curadoria de Carolina Grippa, a casa inaugura a exposição Trama: Arte têxtil no Rio Grande do Sul. A mostra apresenta 35 obras de 17 artistas que se utilizam do tecido como forma de fazer arte. A exposição poderá ser conferida até o dia 26 de fevereiro de 2023, das 14h às 18h.
A exposição busca trazer luz a uma forma de expressão que foi muito preterida na história da arte, nas exposições e na pesquisa. Quando a curadora Carolina Grippa começou seus estudos sobre o tema, em 2017, eram poucas as pesquisas sobre o assunto, e as mostras eram muito escassas. "A tapeçaria, por muito tempo, foi deixada de lado. Ficou fora do olhar da pesquisa, do olhar de historiadores, de artistas", conta, "O têxtil fica numa situação muito dúbia: não fica vinculada à arte mais canônica, que se utiliza de suportes tradicionais, como pintura, escultura, gravura, desenho. A tapeçaria entrou nesse suporte ligado à arte decorativa, que não é reconhecida no sistema."
Muito desse apagamento histórico se dá em consequência da vinculação da tapeçaria ao universo feminino. Embora na Idade Média a produção da tecelagem fosse feita majoritariamente por homens, no Renascimento — período que ficou marcado por uma mudança de paradigmas, principalmente relacionados à cultura e à arte — se instaura uma reorganização do mundo artístico: uma divisão entre arte e artesanato começa a surgir. Artistas, principalmente pintores e escultores, vão querer agregar mais valor à sua produção, se afastando do que hoje conhecemos como artesanato. "Então surge a divisão entre artista e artesão, na qual o artista está ligado a um processo mais intelectual, enquanto o artesão, a um conhecimento manual, que não é incluído nas Belas Artes" explica Grippa. "Paulatinamente, técnicas têxteis como bordado, crochê e tapeçaria foram sendo vinculadas ao feminino e à esfera privada, sendo essa uma das razões para o seu esquecimento pela história."
A trama que se desenrolou até aqui fez com que Carolina quisesse expor as tramas de tecido para que a história fosse revisitada, fazendo refletir sobre o que é o doméstico e questionar o lugar da mulher na sociedade. "Essa conexão com o doméstico era visto como algo pejorativo, mas não é. Era algo que dava a elas muita liberdade. Era um fazer autoral". Na mostra que acontecerá em dezembro, a questão feminina fica explícita: dos 17 artistas que terão suas obras expostas, 13 são mulheres.
Perceber o tecido como arte é o fio que liga o comum ao extraordinário. O mesmo material que vemos em nossos guarda-roupas é o que será exibido como expressão artística de alguém. Conectar, entrelaçar, trançar, emaranhar um fio ao outro se faz arte também na maneira como cruza nosso cotidiano, com um mundo que é tido por muitos como inalcançável. "O têxtil é mais comum, mais banal, de uma maneira muito positiva. É interessante as pessoas perceberam a potencialidade desse material", comenta Grippa. "Parece que a tapeçaria aproxima mais as pessoas ao que está ali exposto, quebrando a barreira do incompreensível que muitas vezes a arte carrega."
Os artistas que tramam os fios em arte, tramam, também, uma nova história. Uma nova trama que traz o ambiente privado, o doméstico, para dentro dos museus. Que transforma o cotidiano, o usual, o banal, o pequeno em algo que chama os olhares para si. É ressignificando os laços de gente com a arte e do fio com o fio que os artistas Ana Norogrando, Arlinda Volpato, Berenice Gorini, Erica Turk, Fanny Meimes, Heloisa Crocco, Ivandira Dotto, Joana Azevedo de Moura, Jussara Cirne de Souza, Liciê Hunsche, Luiz Gonzaga, Nelson Ellwanger, Salomé Steinmetz, Sonia Moeller, Wilhelm Hovarth, Yeddo Titze e Zoravia Bettiol — que apresentarão seus trabalhos na mostra — tecem, na mostra da Fundação Iberê, um novo contar.