O mito desfeito com a República

Por Juliano Tatsch

Em praticamente todos os países, a figura responsável pela libertação do colonizador se torna um mito, um herói permanentemente presente na cultura e no imaginário da população, tendo sua imagem reproduzida em estátuas, bustos, efígies, pinturas e na moeda nacional. Nos Estados Unidos, por exemplo, George Washington, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, entre outros, têm seus rostos estampados em notas de dólar. Na Argentina, San Martín está na nota de cinco pesos. Na Venezuela, Bolívar está em todas as notas.
No Brasil isso não acontece. Dom Pedro I não está em nenhuma nota de real. Estátuas do imperador também não são comuns nas grandes metrópoles do País. Um libertador senão esquecido, colocado à margem.
Mas por que isso ocorreu?
O professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Luís Alberto Grijó aponta o que seria uma das razões da desmitificação de Dom Pedro I. Conforme o acadêmico, os processos de heroicização ocorrem no decorrer da construção dos estados nacionais. Tanto no caso norte-americano quanto nos casos da América espanhola, os países se tornaram independentes em forma de república, diferentemente do Brasil, que, por 67 anos, foi uma monarquia.
No caso brasileiro, a mudança do regime ocorrida em 1889 foi fundamental para que Dom Pedro I fosse perdendo espaço na narrativa histórica. "Quando temos a Proclamação da República, o império é representado como um atraso, como o velho, e, naquele processo, podiam, inclusive, encontrar novos heróis. Eles acabam rejeitando os imperadores. Não podiam botar o Dom Pedro II como herói, pois destronaram ele, e o Dom Pedro I era pai do segundo", observa Grijó.
Na visão do professor da Ufrgs, portanto, a construção dos heróis da pátria está intrinsecamente associada à forma como os regimes constroem a sua representação histórica e o nascimento do estado nacional.
Ainda sobre o assunto, Grijó cita o trabalho do historiador José Murilo de Carvalho. O autor aponta que o movimento militar que derrubou Dom Pedro II temia uma reação em defesa do monarca e, assim, precisava associar o golpe de estado a uma figura heroica. O nome escolhido foi o de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. A própria forma como o alferes mineiro morto quase um século antes passou a ser retratado aponta para isso: um indivíduo magro, de longos cabelos e barba, à semelhança de Jesus.
Um processo de recolocação de Dom Pedro em um pedestal histórico começou a ocorrer a partir da década de 1930, com Getúlio Vargas. Em 1972, no sesquicentenário da Independência, sob a ditadura militar, festejos gigantescos, com traslado dos restos mortais de Dom Pedro I, reforçaram a imagem do imperador.
Esse processo ainda continua, com as aparições de descendentes da família real na mídia e, mais recentemente, com a chegada do coração de Pedro ao Brasil para os festejos dos 200 anos da Independência.