70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial: “conflitos localizados compõem cenário que antecede grandes guerras”

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Embora o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Paulo Fagundes Visentini não acredite na possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, existem semelhanças entre o período pré-Segunda Guerra e o vivido atualmente que não podem ser ignoradas. Em entrevista ao Jornal da Lei, Visentini explica por que acredita que os erros do passado vêm se repetindo.

Jornal da Lei - O que explica o fracasso contundente da Liga das Nações?

Paulo Visentini - A Liga das Nações foi proposta em um momento em que a Europa estava fragmentada e fragilizada. Era preciso que um país neutro, como os Estados Unidos, interviesse, mas o congresso norte-americano não assinou o Tratado de Versalhes e, por isso, o país não fez parte da Liga quando ela foi criada. A Alemanha estava fora, porque levou a culpa da guerra, e a União Soviética tinha um regime que não era aceito pelos demais. Assim, as três principais potências da época estavam fora. Os países vitoriosos, enfraquecidos, passaram a dominar a Liga das Nações de acordo com os interesses deles. O objetivo passou a ser a punição dos derrotados. A Liga nasceu de uma boa ideia, mas, como o próprio proponente não entrou, foi dominada por movimentos conservadores, voltados para o passado.

JL - Qual foi o impacto da Segunda Guerra na ordem diplomática?

Visentini - Depois da Segunda Guerra, ficou claro que a Inglaterra tinha deixado de ser a potência que comandava o mundo, pois não tinha mais força para isso. Tivemos uma disputa entre modelos diferentes de ordem internacional. Os países do Eixo queriam uma, os da Europa Ocidental queriam outra, e os Estados Unidos, uma terceira. A guerra culminou em uma vitória norte-americana. O país não foi bombardeado. Lá, tinha comida, dinheiro, fábricas. Eles travaram a guerra longe de casa. Todos os outros países envolvidos tiveram parte ou a totalidade dos territórios destruídos. Os EUA aproveitaram a vantagem e impuseram instituições, como a Organização das Nações Unidas (ONU), e, depois, ajudaram a centralizar o dólar como moeda internacional. A URSS sobreviveu, é verdade, mas isso também foi aproveitado positivamente pelos norte-americanos. Com a ameaça da URSS, os países ocidentais menores aceitaram a liderança norte-americana por medo. Daí o exagero perpetuado durante a Guerra Fria, quando a ideia de que a URSS podia criar problemas era reforçada. Mas, bem ou mal, com a guerra, surgiu um sistema de equilíbrio. A Guerra Fria foi um conflito, mas as duas superpotências envolvidas criaram regras consensuais. Muitos conflitos que surgiram depois da Segunda Guerra foram administrados e não houve uma Terceira Guerra Mundial. Depois do fim da URSS e da Guerra Fria, o mundo se mostrou diferente daquele conhecido durante o conflito de 1939. As potências são outras, embora isso não seja definido com tanta clareza.

JL - Existem vários conflitos localizados atualmente. A diplomacia tem ferramentas para intervir nesses conflitos?

Visentini - Lamentavelmente, o passado se repete. Os EUA, hoje, são como a Inglaterra de 100 anos atrás: o país mais rico, mais armado, mas não o mais dinâmico. Não foi criada uma ordem estável depois da Guerra Fria. Vemos, por exemplo, o fortalecimento do Estado Islâmico, do Boko Haram. Surgem situações semelhantes ao que houve antes da Segunda Guerra. Existem divergências econômicas e geopolíticas, e não há um sistema internacional bem-organizado. Enquanto não houver uma reforma profunda na ONU para que ela deixe de ser uma ONU pós-Segunda Guerra e passe a ser pós-Guerra Fria, vamos conviver com essa instabilidade.

ANTONIO PAZ/JC
Paulo Gilberto Fagundes Vizentini é professor de relações institucionais da Ufrgs
JL - É possível ver semelhanças entre o cenário político do pré-Segunda Guerra e o atual?

Visentini - O que vejo são potências emergindo enquanto outras estão em declínio. Ninguém quer ceder espaço. As potências emergentes, como a China, conhecem a história europeia e sabem que métodos violentos são um beco sem saída. Atualmente, ninguém quer uma guerra. O que querem é conter os países em ascensão. Alguns tipos de guerra são impensáveis no contexto atual. A nuclear, por exemplo, é excluída mutuamente, pois a Terra só pode ser destruída uma vez. Com os armamentos que temos hoje, fica difícil prever o resultado de uma grande guerra. O perigo, agora, navega entre os conflitos intermediários, como a Ucrânia e a Síria. Se os EUA propusessem um acordo com o Irã, com o objetivo de obter ajuda para combater extremistas islâmicos e afastá-lo da China e da Rússia, isso assustaria os israelenses e os russos, que achariam que o Irã e os EUA, aliados, ganhariam predominância internacional. Atualmente, o Afeganistão segue difícil de ser controlado, a Síria perdeu o controle sobre a maioria das cidades, e o Iraque, politicamente, perdeu muita força. Lá, em 1939, as potências se valiam de aventureiros e fanáticos para manipular e conseguir o que queriam. Tudo terminou muito mal na época e, hoje, os movimentos se alastram. Vemos um quadro muito confuso e desorganizado, que pode vir a ser prejudicial para o mundo.

JL - A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial é pouco lembrada. Como o país se envolveu no conflito? Caso o cenário bélico se repetisse, seria possível que a Nação brasileira interviesse?

Visentini - O Brasil participou como país beligerante, cedeu navios, aviões e soldados. Ajudou na luta contra os submarinos alemães que tinham afundado navios brasileiros e mandou aviões e soldados para lutar na Itália. Sozinho, o Brasil recebeu 70% de toda a ajuda militar norte-americana enviada para a América Latina. Se comparado com Inglaterra, França ou Rússia, o Brasil é um país pequeno. Em termos de América Latina, foi o que mais se envolveu na guerra, e isso deixou a Argentina muito ciumenta, uma vez que o país, na época, tinha uma posição simpática à Alemanha nazista. O Brasil não obteve tanto sucesso como confiava conseguir, mas se envolveu. Aquela declaração de que o Brasil é um "anão diplomático", que foi proferida por um funcionário de terceiro escalão do ministério israelense, certamente rendeu a ele um puxão de orelha. O Brasil tem desenvolvido uma política muito ativa. Acho, no caso de um conflito, que o Brasil poderia desfrutar de meios diplomáticos - o Estado brasileiro nunca está de mal com ninguém, sempre pode servir como intermediário. Essas atitudes têm despertado ciúmes em outros países. Estavam acostumados a tomar decisões somente entre eles e, de repente, surge um novo jogador, que não causa desconforto a ninguém - chega a ser engraçado, o brasileiro é sempre visto com bons olhos. Em termos de possibilidade de participação efetiva em caso de um conflito, o Brasil ainda é fraco. As Forças Armadas têm sido sucateadas durante décadas, e não temos tecnologias de ponta disponíveis. Então, certamente o País pensaria em se envolver, mas acabaria tentando ficar de fora.

JL - O ataque às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, mudou as políticas de segurança internacionais. Depois desse episódio, o terrorismo ganhou força?

Visentini - O terrorismo é uma forma de guerra assimétrica. É um grupo pequeno, que não pode ganhar, pode só incomodar. Durante a Segunda Guerra, os ingleses desenvolveram um tipo de bombardeio barato, que pode transportar poucas bombas, mas voar rápido. Eram chamados de bombardeiros Mosquito. Não podem matar, mas podem tirar o sono, e é assim que o terrorismo age. Se eles atingem 50 pessoas em uma estação de metrô e as pessoas choram pelos mortos, mas reparam a estação e logo estão lá novamente, o atentado é considerado um fracasso. Quando matam duas ou três pessoas, mas o país fica paranoico, temendo um próximo ataque, as autoridades repensam a concessão de vistos, começam a tratar mal os estrangeiros, e o objetivo do terrorista foi atingido. A intenção é criar uma incerteza, alterar o comportamento dos países. Acho que deveríamos ouvir mais aqueles países que lidam com o terrorismo interno. Os norte-americanos nunca estiveram acostumados com isso, nunca tiveram problemas lá dentro e não sabiam exatamente como deveriam agir. Países como a Inglaterra, a Alemanha, a Espanha ou a Itália sabem lidar com isso, sabem que terrorismo se combate com policiamento e serviço de inteligência. Como se usa um porta-aviões contra o terrorismo? Onde ele mora? Existem agentes terroristas em Nova Iorque, na França, em qualquer lugar. Não há como combater com armas. E, quando eles se expõem e saem do esconderijo, isso não ocorre. Chega a ser ridículo. Em um dia, a televisão mostra a dominação de uma cidade, pessoas degolando civis, e, nessas horas, não há intervenção com armas. São poucas pessoas engajadas em provocar um grande estrago para que haja uma reação contra uma massa de gente que não tem nada a ver com isso, mas que tem a mesma cor da pele. O objetivo é manter a luta viva e desgastar as relações entre os países.

JL - Quando uma guerra é admissível?

Visentini - Há quem diga que nunca é; tem gente que diz que pode ser justa uma guerra defensiva, quando há uma ameaça e uma reação. Isso abre um debate que não chega a ser bem jurídico, que perpassa por questões filosóficas. Sempre tivemos guerras por muitos motivos, pela sobrevivência, pela apropriação de recursos. É algo que acompanha a história da humanidade. A distribuição equitativa das riquezas ajuda a terminar com desigualdades que fomentam as guerras. A guerra sempre será um mal necessário para alguém. Ficamos sempre com o registro dos países vitoriosos, e são eles que ditam o que foi certo e o que não foi. Mas se o Vietnã não tivesse lutado e se imposto, não seria, hoje, um país independente. Custou lágrimas, suor e sangue ao país, e a liberdade veio a um preço muito elevado. Agora, a humanidade já alcançou um estágio de desenvolvimento no qual as guerras são menos prováveis.

Interesses das  potências travam reforma da ONU 

Juliano Tatsch

Passados 70 anos de sua fundação, a Organização das Nações Unidas (ONU) mantém, basicamente, a mesma estrutura de sua criação, em 1945. O Conselho de Segurança, com cinco membros permanentes com poder de veto (EUA, China, Grã-Bretanha, França e Rússia), segue o órgão com maior poder. Nessas sete décadas, porém, muita coisa aconteceu no mundo. As relações de poder se transformaram, o colonialismo europeu se desfez, o poder militar nuclear se expandiu, novas frentes de conflitos se abriram.

Assim, diante de um cenário que se modifica constantemente, a necessidade de uma reforma nas Nações Unidas, abarcando, principalmente, o Conselho de Segurança, é um tema de constante discussão. Para a professora de relações Internacionais da ESPM-Sul Eveline Vieira Brigido, uma reforma profunda é improvável. "Talvez um dia saia, mas será superficial. Mudança na composição dos permanentes com veto não ocorrerá", diz.

Conforme a pesquisadora, durante um tempo, se cogitou criar uma nova categoria de membros, que seriam os permanentes sem poder de veto. A ideia, entretanto, parece ter sido descartada. Eveline aponta o choque de interesses entre os Estados Unidos e a China como uma das razões. "Os EUA só aprovariam a reforma do Conselho se o Japão entrasse como permanente. E a China não aprova reforma que inclua o Japão", observa. Qualquer reforma só ocorrerá se tiver o aval de dois terços da Assembleia Geral, mais os cinco votos dos permanentes.

Outra proposta aventada foi a da criação de uma terceira categoria de membros, os não permanentes que ficariam por mais tempo e com direito à reeleição imediata. Os atuais não permanentes ficam por dois anos, tendo de ficar de fora por um mandato para voltarem.

Para o professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) Júlio Moreira da Silveira, a estrutura do Conselho de Segurança é centrada no resultado da Segunda Guerra. "Para que haja um reequilíbrio de forças e a consequente redefinição dos países no Conselho, seria necessário um conflito da magnitude da Segunda Guerra", observa. Ele ressalta, porém, que a estrutura de colonização ainda é muito presente, com desigualdade de poderes e separação entre primeiro e terceiro mundo, o que dificulta a entrada de países como o Brasil no grupo.

O diretor da Audiplo: Educação e Relações Internacionais Fabiano Mielniczuk aponta três grupos tratando da reforma. "Tem o G-4, formado por Brasil, Índia, Alemanha e Japão, que quer uma vaga permanente. Tem o Grupo do Café, liderado por Argentina e Itália, que não quer a mudança, pois criará disparidades regionais. E tem o grupo da União Africana, que só aceita a reforma aumentando-se duas vagas com direito a veto e com africanos contemplados."

Mielniczuk salienta que, atualmente, o debate está parado. Para ele, ainda que a instituição do veto tenha dado superpoderes a cinco nações e precise ser revista, foi importante, pois congelou conflitos. Apesar dos problemas, o estudioso destaca a relevância das Nações Unidas para as relações internacionais. "A ONU serve como um fórum de debate. Tem muita atividade diplomática, troca de informação. Ela é um espaço no qual posições são tornadas públicas. Se não existisse, o mundo estaria bem pior", conclui.

LEIA TAMBÉM:

  • Eveline Vieira Brigido. Mestre em Direito Internacional pela UFSC e doutora em Política Internacional pela Ufrgs.
  • Júlio da Silveira Moreira. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás e mestre em Direito, Relações Internacionais e Desenvolvimento pela PUC-GO.
  • Fabiano Mielniczuk. Doutor em Relações Internacionais pelo IRI/PUC-Rio, pesquisador do Grupo de Pesquisas sobre Potências Médias (PUC-Minas) e professor da Uniritter.

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