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Memórias resgatam primórdios da profissão contábil
Em estudo realizado pelo contador Marco Aurélio Gomes Barbosa, como parte de sua dissertação de mestrado realizada na Unisinos, são apontadas evidências e importantes registros sobre o surgimento do ensino da Contabilidade no Rio Grande do Sul. Datam dos anos de 1700 e 1800 as principais memórias do início dos estudos na profissão, muito associadas às práticas de controle, fiscalização e comércio. Em sua pesquisa, Barbosa fala de fatores históricos e políticos, além de mapear os principais registros de ensino da Contabilidade desde o seu surgimento no Rio Grande do Sul. Confira a seguir a entrevista.
JC Contabilidade - Como foi realizada a pesquisa?
Marco Aurélio Gomes Barbosa - A historiografia é um termo muito usado na educação, mas na contabilidade não. O estudo, que se focou na capital, não possuía ainda nenhum livro ou registro sobre este assunto. A motivação do tema surgiu no centenário da Escola das Ciências Econômicas da Ufrgs, no final de 2009. A ideia era para descrever o curso de Ciências Contábeis da Ufrgs, que começou em 1909, como Escola de Comércio, mas acabamos encontrando várias outras evidências que trouxeram para nós a ideia de expandir o trabalho. Indícios de 1700 e 1800 mostram que a prática profissional da contabilidade surgiu por essa época. O primeiro contador existente no Brasil, chamado Gaspar Lamego, chegou na Bahia, em 1549, como um guarda-livros da corte portuguesa. Acompanhei a origem do ensino no Brasil, a partir da presença dos jesuítas em 1549, que foi a primeira forma de instrução no Brasil, até 1759, quando Marquês do Pombal os expulsou daqui. Neste ano, foi criada a Escola de Comércio Português em Lisboa, e esse foi o modelo aplicado ao Brasil por muito tempo. Depois disso, surge em 1809 a primeira Escola de Comércio do Rio de Janeiro. Quando Dom João chegou aqui, ele viu que tinha muita corrupção, e decidiu instituir a contabilidade como instrumento de evidenciação e controle. No Estado do Rio Grande do Sul, os primeiros registros são de 1753, com a presença da Provedoria Real, na então chamada Praça da Quitanda, que hoje dá lugar à Praça da Alfândega. Em 1804, instalou-se a Alfândega, e então, o ensino se mostrou de forma prática, nos órgãos fiscalizadores e nos órgãos militares.
Contabilidade - Na sua dissertação, há uma parte que fala sobre Sebastião Ferreira Soares. Qual a importância dele?
Barbosa - Dentre os vários feitos deste profissional contábil, destacam-se a publicação de diversas obras, como o primeiro livro sobre a utilização do sistema de partidas dobradas na gestão pública brasileira, em 1850; a colaboração com o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; a realização da primeira auditoria no Brasil e a fundação do Club de Guarda-Livros do Rio de janeiro. Estes feitos, associados à época de sua ocorrência, tornam Sebastião Ferreira Soares uma das principais personalidades contábeis brasileiras do século XIX. Ele apresenta uma vida dedicada à organização da gestão pública, utilizando, para tal, a estatística, a matemática e a contabilidade, além de grandes conhecimentos em idiomas, economia, finanças, comércio, administração, agricultura, história e política. Provavelmente por sua subordinação ao governo imperial e a não dedicação à causa de seus conterrâneos, não há registros sobre ele. Tanto a academia como os órgãos profissionais da classe contábil ou fazendária, do Rio Grande do Sul e do Brasil deveriam destacar e enaltecer seus feitos.
Contabilidade - Como foi a evolução do ensino das Ciências Contábeis?
Barbosa - Houve uma evolução dos espaços onde a Contabilidade foi acontecendo. Tenho registros de anúncio de emprego em jornais da época buscando por guarda-livros, em 1894, a escola Emulação, que oferecia entre as disciplinas secundaristas a disciplina de comércio. Entre 1850 a 1870, começou o ensino da Contabilidade. A evolução deu-se através do ensino prático, para uma disciplina secundarista e depois em escolas de comércio. A própria faculdade da Ufrgs nasceu como Escola de Comércio. O curso começou em 1945, deixando de ser uma Escola de Comércio para tornar-se um curso superior em Ciências Contábeis.
Contabilidade - E o seu fortalecimento, como ocorreu?
Barbosa - Por um lado, foi pela existência do Clube Caixeiral Porto-Alegrense, que não existe mais, mas começou a oferecer a partir de 1882 aulas de comércio e escrituração mercantil. Existem cópias literais do jornal o Athleta (publicação institucional do Caixeiral), que falam sobre o curso e seus efeitos. Nesta época, como atividades comerciais havia os caixeiros (que viajavam), os guarda-livros (responsáveis pela contabilidade) e os auxiliares (que como o próprio nome diz, auxiliavam em funções aleatórias). O clube era uma instituição de auxílio e fomento, que tinha uma função quase que sindical. Os profissionais desta área trabalhavam de domingo a domingo, e a entidade ajudava a lutar por direitos para esses trabalhadores. Se percebe que tinha vários cursos na época, mas que não engrenavam, pois os filhos do profissionais do comércio não queriam atuar nessa carreira, ainda pouco reconhecida. O trabalho do contador era visto como um trabalho inferior. É importante falar sobre a primeira instituição contábil do Estado, que é o Clube de Guarda-Livros de Porto Alegre. Este foi fundado em 3 de junho de 1894, a partir do Clube Caixeiral Porto-Alegrense. Surgiu depois o Colégio Riograndense, uma das mais fortes escolas que oferecia aulas de escrituração mercantil. Outro momento importante foi a fundação, em 14 de maio de 1900, da Associação dos Empregados do Comércio de Porto Alegre. Ela oferecia aulas de comércio em uma instituição que mais tarde veio a ser chamada Mauá (o cursinho pré-vestibular que existe ainda hoje, na capital gaúcha). Em 1901, formou-se a primeira turma, e eles seguiram formando técnicos em Contabilidade até 1985. Depois, surgiu o Instituo Riograndense de Contabilidade, que foi a base do CRC-RS, criado mais tarde por força de lei, em 1933.
Contabilidade - Após as tuas análises, a que conclusões chegastes?
Barbosa - Quando a gente estuda Contabilidade, nos é passado que ela nasceu no eixo Rio-São Paulo, mas há muito que saiu daqui, e foi para lá, e ninguém nos conta. O Sebastião é um exemplo disso. Claramente o Rio Grande do Sul, até a criação da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP, era um celeiro da produção contábil nacional. Escritores como Cibilies da Rocha Viana e Henrique Desjardins foram muito destacados. Este último foi o presidente número um e primeiro integrante do CRC-RS. Dá para perceber de forma clara que a Contabilidade nasceu de forma prática, associada à economia e à gestão, características que permanecem até hoje.