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'Fronteira da Paz' e da gastronomia: novos projetos revigoram turismo em Livramento e Rivera
Empreendedores se unem para tornar a fronteira entre o Brasil e o Uruguai um destino turístico e de investimentos
Lívia Araújo, especial para o JC*
A "Fronteira da Paz" de Sant'Ana do Livramento e Rivera, no Uruguai, vive um despertar para além do turismo de compras: produtores rurais, culturais e turísticos chamam a atenção para um terreno rico em possibilidades gastronômicas e descobertas naturais. Para isso, contribuem a soma de terra, clima e tradição que criam um "terroir" propício a vinhos, queijos de ovelha, azeites e a valorizada carne de cordeiro, sem esquecer também da exaltação à cultura pampeana.
Segundo o tradicional dicionário francês Le Robert, a palavra "terroir" significa um "conjunto de terras de uma mesma região que fornece um produto agrícola característico". O termo acabou por fazer parte do jargão da produção de vinhos como um todo, sendo um "vinho de terroir" o produto originário de um local com características marcantes: uma soma de clima, solo e técnicas de cultivo que resultam em uma bebida ímpar como uma impressão digital.
É essa a ideia que tem valorizado cada vez mais os produtos oriundos da fronteira entre o Brasil e o Uruguai, na região da campanha gaúcha, e motivado produtores de culturas que vão além do vinho a se unirem não só entre si, mas também com representantes de setores como turismo e cultura, para fazer consolidar a fronteira como um destino de turismo e investimentos. E em dimensão binacional.
O epicentro dessa movimentação é a chamada Fronteira da Paz, que liga quase que umbilicalmente as cidades de Sant'Ana do Livramento, no lado brasileiro e Rivera, no lado uruguaio. Além da população de ambos os municípios, que têm uma nacionalidade quase à parte, representada pelo documento que reconhece seu caráter fronteiriço e que lhes permite trabalhar em ambos os lados da linha que corta os países, a fronteira recebe um fluxo intenso de turistas-consumidores que buscam os produtos dos free shops de Rivera. A cada fim de semana, são cerca de 20 mil pessoas que "atravessam a rua" para circular pela Avenida Sarandí e ruas circundantes.
Falta de infraestrutura é barreira a ser vencida
O desenvolvimento do turismo enogastronômico em Sant'Ana do Livramento, no entanto, ainda esbarra em questões de infraestrutura, qualificação e burocráticas. Viviane Maciel, sócia da agência Corticeiras, aponta, por exemplo, que ainda é difícil percorrer toda a Ferradura, pela ausência de pavimentação nas estradas vicinais. "A gente acaba acessando as pontas direita e esquerda do roteiro, porque é onde está a rodovia. Há todo um trecho de 22km entre as propriedades que não tem asfalto", lamenta.
Outra questão é a da qualificação local. A produtora cultural Angélica Seguí é uma "doble-chapa" que coordena, desde 2016, um projeto pessoal voltado justamente à sensibilização e qualificação de agentes culturais efetivos e potenciais, com o Fronteira Criativa, ciclo de palestras e oficinas voltadas à indústria criativa. "O artesão que faz facas, ou a artesão que produz moda autoral em lã, ou que aprendeu com a avó um ponto específico às vezes não compreende que também faz parte de uma indústria, que inclusive pode ter programas e fundos financeiros específicos para ampliar o alcance do seu trabalho", observa.
Rivera reinaugura aeroporto em novembro, mas operação binacional ainda não foi assinada
Com a assinatura, em Montevidéu, do memorando de entendimento que viabilizará a binacionalização da estrutura do aeroporto de Rivera pelos governos uruguaio e brasileiro, no mês de agosto, o prefeito do município, Richard Sander, disse que a reinauguração do local deve ocorrer no início de novembro.
Sander afirmou, em entrevista exclusiva ao Jornal do Comércio, que as obras do aeroporto já chegaram à pista principal, que passa por uma ampliação, e aos acessos laterais, além da reconstrução do prédio principal.
Ainda não temos informação de quais linhas e empresas irão operar, mas ajuda o fato de que os concessionários dos aeroportos de Carrasco, em Montevidéu, e Laguna del Sauce, em Punta Del Este, têm relações com todas as companhias brasileiras”, pontuou.
Em março, o Jornal do Comércio já havia noticiado que a Mercosul: acordos com Uruguai progridem
Qualidade do vinho da fronteira abarca Brasil e Uruguai
"A Campanha gaúcha é a melhor região do Brasil para a produção de vinhos". O veredito é do produtor francês Gaspard Desumont que, em busca de um lugar onde pudesse desenvolver uvas viníferas e outras culturas e produtos, já passou por diversos países.
Oriundo do mercado financeiro mas tendo sempre trabalhado para vinícolas em seu país natal, Desurmont descobriu seu "terroir" no Brasil, mais especificamente na fronteira, onde deparou com as características de relevo, solo e clima que dão a personalidade aos vinhos da região: invernos frios, verões quentes, pouca chuva e amplitude térmica extensa.
É essa equação que está nos rótulos da "Vinhética", marca que aposta no manejo sustentável e justo de produção de uvas e vinificação, e que também trabalha com as safras de outros pequenos produtores locais, para quem oferece consultoria e transferência tecnológica na produção. "É a sabedoria de quem produz que agrega valor ao que vendemos", justifica Desurmont, que tem atualmente um portfólio de 10 rótulos que incluem espumantes, tintos, varietais e rosé "com sotaque francês", vinificados em Caxias do Sul.
A Vinhética também tem dois rótulos de vinhos naturais produzidos sob o selo de sua propriedade em Sant'Ana do Livramento, o Terroir da Vigia, que futuramente terá cinco rótulos. "Queremos chegar, em três anos, à produção anual de 25 mil garrafas com o selo da Vigia, e o mesmo volume para os rótulos da Vinhética", planeja Desurmont.
Capital Nacional da Ovelha amplia rebanhos para corte e leite
Em tempos áureos da cultura de ovinos na Campanha gaúcha, somente o município de Sant'Ana do Livramento possuía um rebanho de cerca de 1 milhão de cabeças. Ainda que produtos como carne e leite fossem ganhos colaterais, o principal destino comercial desses animais era a tosquia - entre Brasil e Uruguai, a lã para vestuário e cama era um dos principais ativos da região.
A adoção da fibra sintética pelo mercado têxtil esvaziou pastos principalmente no lado gaúcho da fronteira. Em 2021, em todo o Estado, havia pouco mais de 3 milhões de cabeças, dos quais quase 300 mil estão em Livramento, a cidade com a maior população da espécie, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e reconhecida como "Capital Nacional da Ovelha" em maio deste ano.
Com o passar dos anos, a carne passou a ser o produto ovino mais trabalhado. Em 2013, segundo o panorama do setor realizado pela Secretaria Estadual da Agricultura, pouco mais de um terço do rebanho se destinava ao corte, seguido da lã, com cerca de 25% e apenas 0,6% para o leite, sendo o restante dedicado ao uso misto.
De acordo com o produtor santanense e engenheiro agrônomo Atílio Ibargoyen, dono da Fazenda Palomas, a "virada" se deu com um manejo de rebanhos mais voltado a extrair mais qualidade da carne. Segundo ele, a carne de cordeiro era um "utilitário para alimentar as pessoas do campo". O abate e o manuseio eram rústicos, e com frequência de animais velhos, o que resultava em uma carne tida como "dura" e sem maior requinte no preparo.
Chefes de cozinha propõem releituras dos sabores tradicionais
A reinvenção e surgimento de novas vocações agrícolas na fronteira, como a carne de cordeiro e o leite de ovelha, e o cultivo de olivas e uvas viníferas encontra na gastronomia sua principal manifestação. Seja em eventos de grande porte como o festival Fronte(i)ra ou em restaurantes e encontros pontuais, esses ingredientes encontram terrenos também para combinações e pouco usuais.
Algumas dessas criações são obra das chefes Ana Cláudia Heidel e Cristina Theiss, que se estabeleceram na fronteira em 2022. Dividindo a vida e a profissão, as profissionais uniram suas experiências trabalhando em consultorias gastronômicas para instituições como Senac e Embrapa, ministrando cursos na área e elaborando menus.
Natural de Santo Ângelo e artista plástica de formação, Ana Cláudia buscou a profissionalização gastronômica no final dos anos 2000, e recebeu uma de suas primeiras oportunidades na cozinha do Palácio Piratini, onde fez parte de um grupo de trabalho, coordenado pela chef Jussara Dutra, que pesquisou a fundo as raízes da culinária no Rio Grande do Sul. Isso despertou em Ana uma paixão pela experimentação culinária com sabores típicos do Estado para além da carne, como a erva mate e o butiá.
Na 8ª edição, Festival Fronteira fortalece união binacional de vocação enogastronômica
Sant'Ana do Livramento e Rivera consolidam, desde 2013, uma tradição que gradualmente vem construindo uma rede multissetorial: são empresários de áreas como turismo, comércio e serviços, produtores rurais e da indústria vitivinícola e de alimentos, restaurantes, universidades, entidades de classe, além das prefeituras dos dois municípios. É o Festival Fronte(i)ra, escrito de forma a contemplar as versões castelhana e portuguesa da mesma palavra.
Neste ano, o festival aconteceu entre os dias 28 de julho e 5 de agosto, no Parque Internacional, e reuniu, ao todo, um público de cerca de 40 mil pessoas que participaram de 108 atividades, segundo a organização do evento. Muitas dessas atrações são voltadas a pensar o desenvolvimento do turismo e da agroindústria brasileira e uruguaia, com o auxílio de fóruns de discussão setoriais, minicursos de qualificação, concursos de gastronomia, roteiros turísticos e eventos em escolas públicas e bairros periféricos.
Nada disso é por acaso. A CEO do Fronte(i)ra, Jussara Dutra, aponta que o festival, que começou em 2014 como um encontro de 42 chefes de cozinha brasileiros e uruguaios, e evoluiu justamente para se voltar à valorização da cultura fronteiriça em seus diferentes aspectos, capitaneada pela enogastronomia. Atualmente, ela caracteriza como "o maior evento de integração da fronteira Brasil-Uruguai". Segundo Jussara, essa simbiose se encontra em todos os âmbitos do festival e também da porta para dentro. "Não tem nenhuma comissão, grupo de trabalho, que não seja binacional, além da própria programação, em que todas as atividades têm a participação dos dois países", salienta.
Propriedade aposta em produtos e serviços com espírito 'slow'
Uma propriedade no Cerro da Vigia, área rural de Sant'Ana do Livramento, se propõe a ser uma antítese do turismo de compras que promove um fluxo de intenso de consumo e circulação. Para isso, inspira-se em parte no movimento slow food para promover um local de experiências tranquilas e saborosas. O Rancho Canela do Mato, que começou com a venda de cestas de alimentos orgânicos, vem investindo também em hospedagem e gastronomia, que absorve uma parte da própria produção, para atender à demanda crescente por um turismo interessado em aprofundar o conhecimento sobre a própria Campanha gaúcha, chegando ao vizinho Uruguai.
São 79 hectares dos quais uma parte é dedicada à produção agroecológica de verduras, legumes e frutas, que compõem a oferta de produtos de um empório online iniciado em 2017; outros cinco hectares com grandes pomares, como os de oliveiras, nogueiras e parreiras de uva bordô de mesa, além de um arrendamento para pasto de gado, o que fornece o esterco utilizado na compostagem. O nome "canela do mato" foi dado em homenagem a uma árvore que cresceu em um amontoado de pedras perto da sede da propriedade, e que acabou virando local de visitação e contemplação para parte dos frequentadores, e é a logomarca do projeto.
A proposta vem sendo desenvolvida por um casal que não construiu sua vida profissional no campo, mas se voltou a ele há pouco mais de sete anos para poder desenvolver um conceito de vida e trabalho "bom, limpo e justo". "Esse é a visão ontológica da propriedade", teoriza Keli Oliveira, uma professora universitária que, a partir da formação em Turismo, migrou para a área de alimentação sustentável, mas "encontrou sua turma" quando foi fazer um curso sobre slow food na Itália. Seu marido, Eduardo Wanderer, atuou no banco De Lage Landen como diretor de operações no Brasil e gerente geral nas unidades mexicana e chilena da instituição e hoje, além de prestar consultoria financeira a startups, também administra - e vive - o Canela do Mato.
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*Lívia Araújo é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista. Já atuou nas redações da Gazeta do Povo, DCI e Jornal do Comércio e passou pela Diadorim Editora.