Países precisam ter a economia circular como prioridade

Por Cristine Pires

Embaixador da União Europeia no Brasil ressalta a importância de os países adotarem uma matriz energética limpa
A economia circular precisa ganhar espeço de destaque na ordem do dia dos países para conquistar cada vez mais adeptos e avançar de forma prática. O alerta foi feito pelo embaixador da União Europeia no Brasil, Ignacio Ibáñez, a uma plateia de mais de 1,7 mil pessoas que lotou o auditório preparado para as palestras do Brasil em Código, encontro anual realizado pela Associação Brasileira de Automação-GS1 Brasil, que ocorreu no dia 10 de agosto, em São Paulo.
Ybáñez, diplomata espanhol que foi secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, tem expertise não só na Europa, mas também em outros continentes. Ele já ocupou o cargo de diretor-geral da Política Externa e Assuntos Globais Multilaterais e diretor-geral da África, Mediterrâneo e do Médio Oriente, foi embaixador da Espanha e da Rússia e representa o Brasil desde o ano de 2019.
No conceito de economia circular, ele defende um tempo de vida útil dos produtos, que podem ser reaproveitados, consertados, remanufaturados ou reciclados. E, neste contexto, destaca o passaporte digital de produtos, que entra em vigor em 2024, para os países da União Europeia, e que promete revolucionar toda a cadeia de abastecimento.
Empresas & Negócios - Como a sustentabilidade se encaixa nos desafios da transformação digital?
Ignacio Ibáñez - Para a União Europeia, são muito importantes os desafios que temos pela frente. Por um lado, a transformação digital e, depois da Covid-19, acredito que aprendemos de uma forma acelerada como é importante a transformação digital. Também é muito importante e muito urgente a necessidade de fazer frente às mudanças climáticas e às questões ambientais e biodiversidade. Pensamos que essas duas transformações, a transformação verde e a digtal, andam muito bem juntas, pois uma ajuda a outra. E esse é um pouco do esforço que estamos fazendo na União Europeia, de tentar fazer essas duas agendas. Precisamos fazer uma grande mudança na economia, na forma que produzimos, na forma que nos movimentamos, na forma em que estamos vivendo em nossas casas e, ao mesmo tempo, essa transformação digital que vai nos ajudar nesta tarefa. Temos que fazer isso em um mundo cada vez mais global, em parceria com outros países. Agora miramos muito para poder ter o Brasil como parceiro nessas duas transformações.
E&N - Como essa transformação que acontece agora na União Europeia tem impactado o Brasil e outros países?
Ibáñez - Temos pela frente a agenda das Nações Unidas e o acordo de Paris sobre mudanças climáticas, que são os compromissos internacionais que todos nós, Brasil e União Europeia, aceitamos. No âmbito da União Europeia, temos que fazer uma grande transformação do setor energético, porque ainda temos uma energia que é muito poluente. Temos um compromisso de, até 2050, zerar as emissões de carbono para o mundo. Outros países, como é o caso do Brasil, têm apostas diferentes. O Brasil já conta com uma matriz energética que é muito verde e isso, sem dúvida, é algo muito positivo, ao contrário de outras áreas, como, por exemplo, a Amazônia e o desmatamento, que são grandes desafios. Então, cada um de nós tem desafios diferentes, mas todos vamos no mesmo caminho e, junto a isso, temos que ir fazendo uma transformação completa, e uma das coisas que tem a ver com todos é a economia circular.
E&N - O que precisa mudar daqui para frente para que se adote a economia circular?
Ibáñez - Temos que adotar uma forma de fazer a economia, uma forma de produzir completamente diferente. No passado, fazíamos a produção pensando que os recursos naturais eram inesgotáveis, que sempre teríamos mais, e agora sabemos que não são ilimitados. Então, temos que fazer uma mudança clara, temos que começar a usar melhor os recursos naturais desde a origem. Essa é uma transformação que temos que fazer em todos os níveis. Temos que saber também reparar os produtos, não deixar que, quando um produto não funciona, já descartá-lo. Precisamos reutilizar os produtos e entender que, muitas vezes, o que é um resíduo para uma indústria para outra é um produto que pode ser aproveitado. Então, essa é a transformação que temos que fazer. Na União Europeia, queremos fazer uma nova regulação sobre o ecodesign sustentável e o passaporte digital do produto (o Digital Product Passport) foi determinado pela União Europeia em 2022 e entra em vigor já a partir de 2024, com o objetivo de ser estimulador do uso de tecnologias de Internet of Packaging (IoP), como Embalagem Inteligente e Cadeia de Suprimentos Inteligente. A ideia em questão é adequar todas as empresas à economia circular, por meio da IoP e, desse ponto de vista, apresentar o que pensamos para o futuro.
E&N - Quais são as vantagens do passaporte digital do produto?
Ibáñez - Ele será um instrumento muito útil para que os consumidores possam ter, no momento em que fazem a compra, toda a informação registrada sobre o produto. E, para isso, necessitamos fazer um esforço dentro da União Europeia com essa regulação, mas sem esquecer que a União Europeia é uma união de países que precisa do resto do mundo, porque necessita importar deles, mas também exportar para eles. E, desse ponto de vista, queremos fazer essa transformação em boa companhia. Queremos apresentar as nossas ideias como também conhecer a experiências próprias do Brasil e de outros países do mundo e tentar construir juntos esse passaporte digital, para que seja uma coisa que possa ser usada no futuro de forma global.
E&N - Como são feitas as parcerias?
Ibáñez - Então, nós, logicamente, começamos esse trabalho de parceria com os países que são mais próximos, que é o caso do Brasil, pois, com o País compartilhamos uma história, compartilhamos valores, compartilhamos a democracia, compartilhamos a economia de mercado; são muitas coisas que compartilhamos. E, desse ponto de vista, queremos começar a trabalhar. Hoje, a ideia é estimular diálogos. Nós não chegamos com soluções, mas temos cada um de nós a possibilidade de apresentar as nossas experiências e construir esse futuro juntos. Já começamos a ver uma resposta muito positiva do lado brasileiro. Queremos construir essa parceria partindo muito das experiências das empresas privadas. As pequenas e médias empresas que são absolutamente essenciais para essa transformação. Temos que pensar nos conceitos que eles podem, temos que tentar evitar os custos elevados demais e temos que conseguir colocar experiências que para eles aportam confiança.