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Educação popular transforma territórios
Cursinho Guilherme Soares integra Vila Barracão com participação cidadã
A praça central da Vila Barracão, na Cruzeiro, zona Sul de Porto Alegre, comporta uma quadra de futebol, diversas árvores frutíferas, um conjunto de equipamentos de ginástica, a casa da associação de moradores e a sede do Cursinho Popular Guilherme Soares. Na altura do número 110 da rua Dona Helena, o espaço oferece aulas gratuitas no turno da noite tanto para a preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como para reforço escolar e é coordenado pelo movimento Levante Popular da Juventude. O espaço público de socialização e lazer é ponto de referência para a comunidade da Barracão. Da praça, é possível ver de cima parte da paisagem da capital gaúcha.
Vinte e um é o número de educandos matriculados no momento em que a reportagem esteve no local. Os estudantes são jovens moradores das comunidades da Grande Cruzeiro, com maioria da Vila Barracão. Já o corpo docente é integrado por voluntários e militantes do movimento. As aulas iniciaram no dia 13 de junho e funcionam na modalidade de semi-extensivo de preparação para a prova do Enem.
O professor de sociologia e coordenador do cursinho, Tomaz Brunet, explica que a integração do território traz nova perspectiva para a comunidade. No Brasil, pelo menos 7,1 milhões de brasileiros entre 14 e 24 anos - parcela correspondente à juventude - não estuda nem trabalha por problemas com renda, trabalho não remunerado de cuidado com outro integrante da família, pela falta de qualificação e incentivo profissional. Eles são chamados de "jovens nem-nem".
A construção do cursinho popular, termina Tomaz, possibilita a criação de "novos horizontes" para os estudantes, aumentando suas possibilidades de futuro e fortalecendo sua autoestima. Enquanto ele fala, crianças brincam na mesa em frente ao quadro da sala de aula, alternando entre os papéis de professor e aluno.
Rodrigo Mendes é morador da Vila Barracão e quer cursar Direito. Ele já havia iniciado seus estudos preparatórios para o vestibular em um cursinho popular no centro da cidade. No entanto, por dificuldade de locomoção, Rodrigo não conseguiu mais frequentar as aulas. Agora, com o pré-vestibular perto de casa, a preparação para o ingresso no Ensino Superior é retomada. O território foi uma preocupação da coordenação do cursinho. Tomaz, coordenador, comenta que não é usual pré-vestibulares estarem inseridos fora do eixo centro.
Já Ryan Lisboa tem 17 anos e está matriculado no 1º ano do Ensino Médio em um colégio técnico. Ele é um dos que participam das aulas à noite para auxiliar em suas disciplinas na escola e mora em uma das casas em frente à praça. Quando perguntado por que se matriculou, ele responde que é pela dificuldade - no momento - em matemática. A irmã mais velha de Ryan, Vitória Lisboa, também é aluna do cursinho. Ela está inscrita no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) para finalizar o terceiro ano do Ensino Médio.
Vitória já tentou outras vezes, mas, neste ano, espera conseguir finalizar a etapa da educação básica. Ryan, durante a entrevista, reclama das condições precárias da periferia e aponta para crianças que julgou como vestidas de forma inadequada para a frente fria que assola o Rio Grande do Sul. "Minha maior meta, depois de terminar o Ensino Médio, é ver a favela bem", conclui.
A educação popular e a transformação social são eixos transversais na proposta pedagógica: Paulo Freire, patrono da educação brasileira, tem sua cara estampada na fachada. Além das disciplinas, o projeto prevê a realização de atividades na praça, a limpeza do espaço e o plantio de árvores - que já está ocorrendo. A transformação imediata da praça, então, ocorre pela integração com a comunidade.
Guilherme Soares era um jovem querido na comunidade
Guilherme Soares é o nome de um jovem morador da Vila Cruzeiro que faleceu no início de 2023. Ele também integrou o Levante Popular da Juventude a partir de 2013 e é lembrado como uma pessoa querida por seus amigos e companheiros de movimento.
"O Gui era muito animado", lembra Cícero Silveira, professor da disciplina de História.
O cursinho já estava sendo planejado pela coordenação do Levante e a ideia de homenagear o Gui, como é conhecido, foi inevitável. "O nome das pessoas que já tombaram em espaços de uso comum é uma forma de lembrá-los sempre", comenta Tomaz, coordenador. O luto e a memória, então, são respeitados.