Reter mão de obra qualificada é prioridade para o Simecs

Por Roberto Hunoff

Para o dirigente, de nada adiantam grandes projetos sem base qualificada
Com o sentimento de que é importante ter o olhar para o coletivo e não somente para um grupo pequeno, já na adolescência Ubiratã Rezler era assíduo participante de ações colaborativas em associações e grêmios estudantis, em Caxias do Sul. Após um período fora da cidade, voltou em 2000 e retomou seu envolvimento com as entidades. Uma década depois, a partir de capacitação no Sebrae para consolidar participação na empresa da família, envolveu-se com o Arranjo Produtivo Local Metalmecânico, do qual foi presidente por indicação do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico (Simecs). Em 2017, passou a participar das reuniões da entidade sindical, envolvendo-se de forma mais direta com o movimento. "Acabei me tornando mais visível até chegar ao ponto de me colocar à disposição para ter uma participação mais efetiva, liderando uma diretoria", afirma Rezler, que na gestão passada foi diretor da Câmara Setorial das Micro e Pequenas Empresas. De janeiro de 2023 a dezembro 2025, acumulará a presidência do maior sindicato patronal da Região Nordeste com a gestão da Rezler Chavetas e Usinados, empresa familiar fundada pelo pai. Além da diretoria executiva, a entidade tem comissões para diferentes temas e as câmaras setoriais automotiva, eletroeletrônica, metalmecânica, ferramentaria, máquinas e alimentos e bebidas e móveis e acessórios, as duas últimas criadas na gestão atual. Com 66 anos de atividades, o Simecs representa empresas que envolvem 65 mil pessoas de forma direta, chegando a 300 mil quando contabilizados os familiares. O faturamento do setor é estimado em R$ 50 bilhões nos 17 municípios da base territorial.
Empresas & Negócios - A sua gestão terá a característica de continuidade da anterior?
Ubiratã Rezler - Na composição tivemos o cuidado de manter próximas pessoas da gestão passada para agregar experiência e conhecimento. Foi o caso de Rubens Bisi, que segue como vice-presidente de Relações Institucionais. São novos na diretoria executiva, como eu, os vice-presidentes Alessandro Ferreira e Gustavo Polese. Ou seja, renovamos 75% do grupo. Mas defendemos a ascensão de Paulo Spanholi, ex-presidente, e Daniel Ely, ex-vice-presidente, ao Conselho Superior, organismo que terá forte influência no sindicato, como na revisão dos estatutos. O também ex-vice-presidente José Paulo Medeiros optou por seguir em uma das comissões existentes na diretoria. Temos um compromisso moral de continuar o trabalho realizado e acreditamos que o formato está adequado. Mas temos visões próprias que consideramos adequadas introduzir na gestão. Precisamos de autonomia e não podemos ficar somente presos ao passado. Já existe um planejamento estratégico robusto como instituição, o que reduz o risco de mudanças bruscas na troca de comando, e muita transparência e empatia para discutir os movimentos.
E&N - Qual o principal desafio que a nova diretoria se impõe? Na passada, ficou muito forte a preocupação em torno do avanço tecnológico por meio da indústria 4.0.
Rezler - Uma empresa só avançará e se tornará competitiva se ela inovar. Do processo mais simples até a robotização. Esta estratégia em torno da indústria 4.0 segue forte, com apoio de parceiros renomados. O que pretendemos fazer é descentralizar mais, indo para outros municípios. O grande mote é a capacitação e retenção de mão de obra. De nada adiantam grandes projetos se não houver uma base qualificada. Temos conexões com várias entidades para fortalecer a formação de pessoas necessárias para a indústria prosperar. O jovem precisa de formação e, a geração já madura, de reciclada para fazer frente ao que o mercado está exigindo.
E&N - Quais estratégias de convencimento a entidade pretende adotar com os adolescentes, hoje muito voltados ao mundo virtual e pouco disponíveis ao trabalho industrial?
Rezler - É o grande problema da retenção do pessoal, mas depende muito também da capacidade da indústria, porque ela precisa se modernizar. Se pegarmos um centro de usinagem, o jovem usará um computador para fazer a programação e também terá acessos a leituras, entendendo o comportamento da máquina. Ele precisa entender que a indústria sempre terá este formato, com as melhorias que são necessárias. A atração passa pela percepção do empresário de que precisa melhorar seus processos e investir em máquinas. Já o jovem a gente precisa trazer ele mais para a realidade. É comum chegar na empresa e já querer ser o chefe, porque esta geração tem um aprendizado mais curto. O empresário precisa ser inteligente e transparente para mostrar o que está sendo feito na indústria. Ou seja, a retenção também passa pela capacitação do empresário. Por isso, o Simecs firmou convênio com a Fundação Dom Cabral para condução de cursos de aperfeiçoamento dos dirigentes das empresas. A gente tem muitas oportunidades para capacitar os jovens. Temos o Senai, o programa Jovem Aprendiz. Talvez exista uma bolha entre estas duas necessidades, que precisamos resolver. O Senai está sempre lotado de jovens estudando. Preocupa é o imediatismo do jovem. Muitas vezes fazem um curso CNC, mas acabam indo para o comércio. Existe desconhecimento do valor investido nele e do que ele pode ganhar se construir carreira na indústria, que paga bem, e tem benefícios positivos.
E&N - Qual o foco central desta iniciativa?
Rezler - Repassar ao empresário que ele precisa ter uma visão mais ampla para reter os trabalhadores. Não adianta só contratar mais gente se ele não está capacitada. Envolve capacitação geral, de olhar para si, para melhorar a sua empresa, sua visão e, assim, atrair os jovens. É um caminho conjunto, algo desapegado de quanto vai ganhar com este investimento. É preciso que o ambiente seja agradável à pessoa, para que ela se foque na produção. Criar, inclusive, condições para que o trabalhador tenha contato com o mundo externo para resolver problemas, mesmo em horário normal de expediente. Ter mais percepção de que são pessoas que estão conosco, que têm necessidades. Cada empresa deve ter suas regras, mas no contexto geral a atração ocorre se a gente modificar a empresa, com transparência, e ajudando a amenizar aquele sofrimento que a pessoa pode estar vivendo. Também é importante investir no sentido de o funcionário sentir-se valorizado. Esta migração não é feita de uma hora para outra, leva tempo, mas é necessária para atrair e reter mão de obra. Com a descentralização que estamos fazendo, em 17 municípios, acredito que podemos contribuir para melhorar a atração e retenção de talentos.
E&N - Como ocorrerá esta descentralização?
Rezler - Criamos três núcleos, cada um com coordenador, que será o embaixador do Simecs na região de abrangência. Trabalhará, inclusive, na atração de empresas que não estejam diretamente envolvidas com a entidade. Uma pessoa local poderá agregar e debater temas comuns com os empresários nestes núcleos. Mostrando estas possibilidades podemos mostrar aos jovens do interior de que é possível trabalhar na indústria e fazer carreira.
E&N - Que outras metas existem com a descentralização?
Rezler - As mudanças tiveram início no final da administração do presidente Reomar Slaviero e foram consolidadas pelo sucessor Paulo Spanholi. Elas mudaram a visão que o empresário tem do Simecs, isto é claro. Se passou a fazer mais entregas, oportunizando acesso a inúmeros projetos. As três bases que criamos têm por função aproximar o empresário da entidade, quebrar o paradigma de distanciamento e dar o apoio necessário em diferentes temas. É um movimento que visa aproximar as partes, que o empresário entenda o que o sindicato faz e o seu valor. Com isto, esperamos aumentar, também, a base de associados.