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Brinox: da inovação em panelas ao enfrentamento da violência contra a mulher
Economista argentino comanda o grupo gaúcho que atua com utilidades domésticas
Nunca se vendeu tanta panela, talheres e outros itens para a casa como na pandemia. O desafio para os fabricantes do ramo de Utilidades Domésticas (UD) agora é como sair da maior crise sanitária em um século e manter os níveis de faturamento.
O grupo gaúcho Brinox, que tem ainda as operações da Coza e Haus, foca em inovação nas panelas, onde ganhou terreno com modelos de alumínio, e novas linhas, ampliando a presença na casa dos brasileiros.
O economista argentino Christian Hartenstein, CEO do grupo desde 2011, quando o fundo de investimento Southern Cross comprou a operação, destaca o espaço e potencial de venda para a população de jovens do Brasil, que garante demanda ascendente, e ainda ampliação das exportações.
Ao traçar planos para o futuro, Hartenstein revela estudos para o grupo ingressar em novos ramos, como eletroportáteis e móveis de plástico, onde concorrentes já avançam a passos rápidos. O executivo esclarece ainda que a venda da operação pelo fundo, que chegou a contratar no ano passado o banco BTG para buscar interessados, foi cancelada.
Para além do faturamento, que chegou a saltar 40% em 2021 e deve aumentar 15% este ano, a Brinox coloca entre suas prioridades atuar num dos temas mais sensíveis dentro dos lares brasileiros: a violência contra a mulher. O grupo mantém o canal digital e ações por meio da plataforma todasseguras.com.br, que mobiliza ainda por meio da hashtag #todasseguras.
Empresas & Negócios - Como é a trajetória desde a aquisição do grupo pelo fundo?
Christian Hartenstein - Com a compra pelo fundo, abriu-se a oportunidade de transformar a empresa em plataforma para desenvolver outros negócios. A Brinox era dedicada a produtos de aço inox, mas tinha distribuição e cobertura territorial muito extensa no Brasil, estrutura atrativa para introduzir novas linhas. Em 2012, adquirimos a Coza, entramos no mundo do plástico com design, e, em 2015, adquirimos a Haus, com linhas de vidro, taças de cristal e melanina, tudo para mesa posta. Um ano antes, tínhamos começado a fabricar panelas de alumínio, que responde por 40% do nosso negócio. Hoje somos a segunda maior fabricante desse mercado no Brasil. Em 10 anos, passamos ainda de 300 para 1,1 mil funcionários, destes 650 estão no Estado, com a sede em Caxias do Sul, onde dicam os departamentos de inovação, produtos, qualidade e matrizaria. Neste período, abrimos ainda escritório em Guangzhou, no Sudeste da China, em 2013, e em São Paulo, em 2014.
E&N - Qual é a capacidade de fabricação hoje do grupo?
Hartenstein - Em 2021, concluímos a expansão fabril, com a construção de quase 40 mil metros quadrados da nova fábrica em Linhares, no Espírito Santo, com aporte de R$ 50 milhões. O novo parque possibilitou duplicar a capacidade de produção de panelas, chegando a quase 1 milhão de unidades por mês. A construção foi um desafio gigantesco devido às restrições pandêmicas. Tivemos de treinar, contratar e integrar equipes neste ambiente. Foi na crise sanitária que passamos de 700 pessoas para 1,1 mil no grupo! Graças a um trabalho extraordinário das equipes, o atraso para concluir a fábrica foi de apenas dois meses, que não é nada. As primeiras panelas começaram a sair da linha no fim do primeiro trimestre deste ano.
E&N - O que muda para a Brinox com esta nova unidade?
Hartenstein - Passamos de capacidade de 450 mil panelas ao mês para 900 mil. Em Caxias do Sul, expandimos a capacidade de produção de plásticos da Coza, com mais investimentos. Foram dois anos de muitos desafios e incertezas, com 10% a 15% dos funcionários afastados devido à Covid-19. Os acionistas olham com muito otimismo para o segmento de utilidades domésticas. Há poucos lugares no mundo onde o segmento tem tanto potencial. O Brasil tem uma população e muito jovem, o que é muito importante porque significa potencial de novos lares no futuro. Além disso, é uma população com certa educação e capacidade de trabalho e produtividade. Podemos esperar que uma maioria vai se mudar, alugar apartamento ou comprar.
E&N - O que a pandemia potencializou mais para o grupo?
Hartenstein - A busca por panelas, talheres e itens para organizar a casa explodiu, mas também tivemos dificuldades de acesso à matéria-prima, além de custos maiores (o valor do contêiner passou de US$ 2 mil para US$ 18 mil no auge da crise). No segundo semestre deste ano, estamos voltando a uma normalidade pré-Covid. Alguns materiais, como polímeros, aço inox e alumínio tiveram elevações de mais de 100%. Quando a pandemia arrefeceu, tivemos menos vendas, devido à retração da demanda. Mais recentemente, temos o efeito da inflação, que atinge a renda dos consumidores de classe média. Neste quadro, nossas margens reduziram entre 10% a 14%, o que é muito para a indústria que tem margens muito apertadas e no limite para manter os investimentos. Outro problema que coloca mais pimenta neste quadro é que a Selic, a taxa básica de juros, subiu mais de 500% em pouco tempo. Algo assustador e que afeta muito os negócios, pois afeta o custo de novos projetos e reduz a capacidade de crescimento.
E&N - Quanto este fator (juros) já adia planos?
Hartenstein - Sempre olhamos o investimento no Brasil na perspectiva de longo prazo. O que ocorre agora tem um componente conjuntural, e o mercado ainda não achou um ponto de equilíbrio. Acreditamos muito no negócio de UD no Brasil. Como acabamos de fazer um grande investimento, o foco agora é rentabilizar este aporte. Depois, temos planos de investir em negócios que o grupo não participa ainda e onde temos apetite para entrar, usando nossa capacidade e expertise, além da rede comercial. Um dos segmentos é o de eletroportáteis, que analisamos com muito cuidado. Também não entramos ainda em móveis de plástico.
E&N - Como a empresa deve fechar o ano?
Hartenstein - A expectativa é de crescimento menor que o de 2021, que teve ata de 40% na receita bruta, embalada pela pandemia. Este ano o desempenho será mais moderado, com avanço em torno de 15%. O grupo não divulga o valor. O desempenho ganha impulso ainda com a chegada de novos produtos, como o lançamento da marca Rasco com linhas para churrasco e fornos de barro, e a parceria com o programa MasterChef Brasil. Vamos ter mais lançamentos até o fim do ano.
E&N - O que representa a receita das exportações?
Hartenstein - O principal mercado é a América do Sul, liderada por compras da Argentina, Paraguai e Bolívia. Também vendemos para os EUA, alguns países da Europa, África e Ásia. As exportações representam 10% do faturamento. Há alguns anos este fluxo não chegava a 3%, e apostamos que possa alcançar 15% a 20% da receita total.
E&N - Por que o grupo atua no tema da violência contra a mulher e como tem sido a inserção?
Hartenstein - Faz muitos anos que trabalhamos com ONGs e sociedade civil para entender como podemos colocar nosso grãozinho de areia em uma temática que é muito grande no Brasil. Este tema foi escolhido para atuarmos. A situação afeta a vida dentro de casa, e a mulher tem papel crucial na estabilidade do grupo familiar. Hoje 60% do nosso quadro é feminino. Começamos com palestras para o nosso público interno e depois buscamos órgãos públicos para ajudar na assistência. Uma das ações é o apoio a organizações que fornecem lar protegido a vítimas da violência, além de criar soluções de sustentação econômica para as mulheres poderem seguir suas vidas. Estamos avaliando levar para nossas caixas de produtos mensagens para expor mais este tema e pode ajudar que quem está em casa. Criamos um copo com um símbolo que indica que 100% do lucro da venda vai para ONGs que atuam na causa. Mas temos de fazer muito mais.