Giovanna Sommariva, Mauro Belo Schneider e Victoria Paz

O que leva mulheres a tocarem negócios voltados à alimentação

Maioria das brasileiras empreendem com bufês

Giovanna Sommariva, Mauro Belo Schneider e Victoria Paz

O que leva mulheres a tocarem negócios voltados à alimentação

Sempre quando o mês de março se aproxima, a presença da mulher no empreendedorismo entra em pauta. Atualmente, o público feminino ocupa posição de destaque em diversas áreas, mas, conforme dados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), divulgada pelo Sebrae e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), o campo mais dominado por elas é o de serviço de catering, bufê e comida preparada. Cerca de 14% das donas de negócios apostam nesse nicho, de acordo com o levantamento de 2020.
Sempre quando o mês de março se aproxima, a presença da mulher no empreendedorismo entra em pauta. Atualmente, o público feminino ocupa posição de destaque em diversas áreas, mas, conforme dados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), divulgada pelo Sebrae e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), o campo mais dominado por elas é o de serviço de catering, bufê e comida preparada. Cerca de 14% das donas de negócios apostam nesse nicho, de acordo com o levantamento de 2020.
À primeira vista, parece uma informação pouco relevante, como uma consequência cultural histórica da relação da mulher com a cozinha. O fato é que elas souberam profissionalizar essa atividade de tal forma que movem uma fatia espessa da economia.
A lista de pessoas que já foram atendidas pelo serviço de alimentação oferecido por Rosane Leivas, 58 anos, de Porto Alegre, é prova disso. Nomes como Madonna, Lady Gaga, Pearl Jam, Elton John são apenas alguns da lista que a faz se perder nas contas.
Rosane atende 90% dos shows internacionais da Capital gaúcha e de outros estados. Há eventos em que ela chega a empregar mais de 30 pessoas numa única noite. Ela cuida, inclusive, do que é posto no camarim dos artistas.
Tudo começou com os pais de Rosane, Paulo e Diva. Eles eram donos do Buffet Leivas, que funcionou em clubes como Sociedade Germânia, Jangadeiros e Hípica. "Minha mãe estava à frente de tudo, sempre com cuidado no atendimento", lembra ela, sobre sua maior inspiração, hoje aposentada, para seguir no ramo familiar, iniciado aos 17 anos.
A extensão do buffet dos clubes para a realização de shows surgiu em 2004, quando um diretor da Opus pediu que Rosane trabalhasse durante a apresentação da cantora Avril Lavigne. "Entrei sem saber nada, fui achando que era um evento normal. Não sabia como funcionava essa parte de show. Fiz o primeiro, o segundo, o terceiro e não parei mais", orgulha-se.
Rosane ressalta que o ramo vai muito além de servir um prato. Ela faz as compras, organiza as equipes que atenderão cada compromisso, vai a reuniões, realiza pagamentos. No fim de semana do Carnaval, somava dois shows na Maori, no Litoral Norte, preparava-se para outros três no auditório Araújo Viana ao longo de março, em Porto Alegre, e para um casamento.
"É muito cansativo. tem incomodação, são muitos detalhes, lido com os sonhos das pessoas, mas tenho prazer de sair para trabalhar. Sou muito feliz fazendo isso", afirma. O motivo de atuar no ramo mais popular entre as mulheres brasileiras sempre foi o mesmo de quem segue na área de TI, de Aviação, da Medicina, da Engenharia: a busca por realização.

Chef acredita que serviço demanda sensibilidade

Flávia Mello, 43 anos, encontrou a sua vocação da mesma forma que muitos outros empreendedores e empreendedoras por aí: começou como um hobby. Quando ainda trabalhava como DJ, Flávia resolveu se aventurar na cozinha e começar a preparar jantares e encontros para pequenos grupos de amigos. Uma coisa levou à outra e, algum tempo e muitas indicações depois, a cozinheira abriu a própria empresa de catering. A partir daí, tornou-se a Chef Flávia.
Com grande parte dos seus atendimentos sendo para casamentos, batizados e aniversários - datas especiais em geral -, a empreendedora ressalta a importância da empatia e atenção a esses momentos. "Sempre tento buscar alguma refeição ou alimento importante para aquela pessoa. Em casamentos, por exemplo, faço questão de incorporar algo especial para os noivos no cardápio. Acredito que as mulheres possuem muito mais essa sensibilidade e preocupação com os detalhes, duas características essenciais para atuar num serviço de catering", declara.
Flávia lembra que sempre amou cozinhar, por isso, como sua primeira formação, decidiu cursar Nutrição. Anos depois, quando notou que praticamente 100% do seu dia era dedicado para serviços de catering, foi atrás de novas técnicas para aperfeiçoar seu trabalho.
Em 2016, realizou cursos de Gastronomia na escola Alain Ducasse, em Paris, e buscou estudo em países como Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã. "Hoje em dia, trabalhando, percebo como todas as minhas formações, inclusive Nutrição, andam juntas e complementam uma à outra", afirma.
A chef ainda reforça que busca não se inspirar apenas em mulheres, mas sim em grandes profissionais da área, pois, segundo ela, na cozinha, tudo é conquistado com muito trabalho, dedicação e amor em cada detalhe, sem importar o gênero. "Antigamente víamos somente homens como grandes chefs. Felizmente, hoje temos muitas mulheres no comando de cozinhas, como Helena Rizzo e Morena Leite, que são inspirações tanto para mim quanto para qualquer mulher que deseje empreender", acredita Flávia.
Após anos de serviço, a dica que fica é manter-se junto de uma equipe que compartilhe dos mesmos sonhos. "Além de trabalhar muito e confiar no seu potencial, todo sucesso é fruto de um bom trabalho em equipe, estar rodeado de pessoas que acreditem em ti é excepcional", completa.

Quando a equipe é composta exclusivamente por elas

A carreira de Tatiana Foster começou cedo. Formada em Jornalismo, a empreendedora sempre trabalhou com Comunicação. Até que chegou um momento que um amor falou mais alto.
"Em 2019, resolvi cursar uma pós-graduação em Gastronomia apenas para conhecer. Meu intuito era unir as duas graduações, mas, assim que o tempo passava, ia sendo convidada para diversos eventos e acabei não dando conta", lembra.
A agora chef profissional iniciou vendendo quentinhas feitas na cozinha de sua casa e atingiu um público maior quando começou a produção de caixas temáticas para aniversário. "Felizmente, caí na mão de uma Influencer digital que me divulgou nas redes sociais. A partir daí, comecei a ganhar muitos seguidores e encomendas", conta.
Tati, como gosta de ser chamada, chegou a ter, inclusive, um restaurante, o Maré, especializado em frutos do mar. O estabelecimento, no entanto, acabou fechando. "Percebi que, na área de Gastronomia, gosto da preparação. Faço aniversários, casamentos e batizados, de 30 a 200 pessoas. Também produzo menus especiais em datas comemorativas", afirma.
Com uma equipe de 10 funcionárias, a chef faz questão de empregar apenas pelo gênero feminino. "Gosto e tenho preferência. Acho a mulher mais detalhista e organizada na cozinha. Tem muito homem que não aceita ser mandado por puro machismo. Todas nós nos respeitamos e quando isso existe de ambas partes, o trabalho aumenta. Dependendo do chefe que você tem, ele só sabe te colocar para baixo, além do perigo de ocorrer algum assédio", explica.
Tati acredita que seja pela facilidade de visibilidade nas redes sociais que mulheres empreendem, em sua maioria, na área de catering. "A comida é a única que não deixamos de consumir. Hoje é mais fácil apresentar o seu trabalho. Antigamente, era necessário comprar um espaço na mídia, o que é inviável", diz a chef, que já atendeu até um evento de Ronaldinho Gaúcho.

O que dizem os dados do Sebrae

Uma pesquisa conduzida pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) em parceria com o Sebrae-RS mostra que as atividades mais frequentes entre as mulheres empreendedoras são serviços de catering, bufê e outros serviços de comida preparada (13,9%), seguido de comércio varejista de artigos do vestuário e acessórios (9,6%) e cabeleireiros e outras atividades de tratamento de beleza (8%).
A terceira edição da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostra que, em 2020, o impacto da pandemia foi maior entre as mulheres empreendedoras. O levantamento revela que houve uma queda de 25% dos empreendimentos estabelecidos entre as mulheres de 2018 para 2020, contra 2,4% entre os homens. No entanto, considerando-se o gênero e a motivação dos empreendedores iniciais, foi possível perceber que para ambos os sexos a orientação foi maior por oportunidade, sendo 60,3% dos homens e 55,2% das mulheres.
 

Giovanna Sommariva, Mauro Belo Schneider e Victoria Paz 

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