Giovanna Sommariva Victoria Paz

Dificuldades enfrentadas pelo setor podem ser ainda maiores do que para empresas tradicionais

A força de quem mantém negócios sociais ativos no Rio Grande do Sul

Giovanna Sommariva Victoria Paz

Dificuldades enfrentadas pelo setor podem ser ainda maiores do que para empresas tradicionais

Quando o Natal se aproxima, o desejo de ajudar o próximo desperta em muitas pessoas. Graças a iniciativas administradas por agentes de visão inclusiva, há diversas oportunidades para trabalhar pelo próximo ou pela natureza no Rio Grande do Sul. Mas como esses projetos se mantêm de pé? Há desafios tão complexos quanto os enfrentados por empresas.

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Quando o Natal se aproxima, o desejo de ajudar o próximo desperta em muitas pessoas. Graças a iniciativas administradas por agentes de visão inclusiva, há diversas oportunidades para trabalhar pelo próximo ou pela natureza no Rio Grande do Sul. Mas como esses projetos se mantêm de pé? Há desafios tão complexos quanto os enfrentados por empresas.
Impactar a sociedade com a possibilidade de criar uma renda justa para os indivíduos envolvidos em toda cadeia produtiva é o formato utilizado pelos negócios sociais. Porém, na maioria das vezes, esses empreendimentos acabam encontrando barreiras diárias.
Na Justa Trama, cooperativa autossustentável presente no mercado há quase 17 anos, o lema que guia a iniciativa é produção sem exploração. Cerca de 600 trabalhadores espalhados pelas cinco regiões do Brasil, incluindo artesãos, agricultores, costureiras e designers, formam a empreitada, que inicia seu trabalho no plantio do algodão agroecológico e se estende até a comercialização de roupas feitas com o insumo.
Segundo a fundadora do projeto, instalado na Zona Norte de Porto Alegre, Nelsa Nespolo, 58 anos, a cooperativa atua com dois objetivos principais. "Seja no plantio ou em todo o processo de confecção das nossas peças, buscamos sempre preservar o meio ambiente, sem contaminar a água ou a terra com agrotóxicos, por exemplo. Além disso, enfrentamos as desigualdades sociais presentes no nosso País. Temos valores combinados para todos os processos, que valorizam e beneficiam de forma justa os trabalhadores", afirma. Nelsa acredita que a principal dificuldade em tocar um negócio social é garantir um equilíbrio e ter clara comunicação entre todos os elos da cadeia produtiva. "Nós aqui só temos uma colheita por ano, então tudo precisa ser muito bem articulado e comunicado. Não podemos criar uma grande expectativa de produção e comércio aqui na ponta, se lá no plantio isso não vai acontecer. Temos que ter essa engrenagem funcionando de forma estável", admite.
A distância reforça a necessidade de confiança na equipe e no trabalho do próximo, visto que encontros presenciais ocorrem apenas uma ou duas vezes por ano, com apenas alguns representantes. "Todo o processo é um desafio gigante, mas profundamente realizador. Provamos que dá para pessoas com diferenças culturais e distantes umas das outras trabalharem juntas e de forma justa", garante a fundadora.
A iniciativa não conta com voluntários, e as vendas são feitas, normalmente, em feiras. "São espaços muito especiais para a gente, pois podemos estar próximos dos nossos consumidores, fazendo com que eles entendam a importância desse consumo ecológico e sustentável", diz. Também há lojas parceiras espalhadas por todo o Brasil, e o site (www.justatrama.com.br), que, durante o período de pandemia, tornou-se o carro-chefe.
Para o futuro, o plano continua sendo a expansão, avançando para outros estados do País. "Nosso maior sonho é ampliar essa cadeia, que possamos demonstrar para o mundo que é possível trabalhar inclusão e desigualdade de uma forma justa, construindo essa sociedade que a gente acredita. Queremos nos tornar inspiração dentro desse setor solidário", completa.

Ações precisam de parcerias para seguir

Para não permitir que seu projeto fique refém de doações, Aline Orestes Vieira, idealizadora da ONG 101 Vira-latas (@101viralatas), conta com diversos parceiros na hora de angariar fundos. A iniciativa, que existe há mais de 19 anos, fez com que o sítio da família, na cidade de Viamão, se transformasse em um grande abrigo para animais, acomodando mais de 300 cachorros e gatos.
"A nossa proposta é atacar a raiz do problema. Não adianta resgatar da rua e colocar num canil, queremos realmente fazer algo que mude essa realidade e dê esperança para esses animais", afirma Aline. Para isso, a fundadora participou, recentemente, de uma reunião com a prefeitura da cidade. "Estamos em busca do licenciamento para abrir uma clínica veterinária aqui no nosso espaço, onde animais poderão ser castrados com um custo bem mais em conta, e até de graça, para famílias mais carentes", conta.
Atualmente, a ONG possui alguns funcionários fixos, que auxiliam na limpeza e manutenção do espaço, mas também conta com voluntários. "Temos grandes parceiros que destinam um percentual das vendas deles para o projeto, assim como cofrinhos solidários distribuídos em negócios da cidade. A livraria Cameron, por exemplo, vai vender o nosso calendário de 2022 nos seus estabelecimentos", explica.
Durante o mês de dezembro, o projeto firmou uma parceria de apadrinhamento com as redes Bourbon Shopping, Moinhos Shopping e Porto Alegre Centerlar. Em cada um desses estabelecimentos, estão dispostas árvores de Natal com fotos dos animais, juntamente com um QR Code, que leva o interessado até um questionário. Segundo Aline, em apenas uma semana já foram mais de 70 solicitações para apadrinhar algum animal. "De outubro para novembro, já registramos um aumento significativo no abandono de animais. Infelizmente, isso ocorre muito na época de veraneio. Mas a campanha natalina está sendo nossa salvação. Já temos, oficialmente, 40 novos dindos, e a perspectiva é efetuar ainda mais cadastros", expõe.
A iniciativa também dispõe de um brechó com espaço físico, e uma lojinha online que vende camisetas, canecas e outros produtos personalizados. Para Aline, uma das maiores adversidades quando se possui um negócio social é a luta contra o ego do ser humano. "Existem tantas ONGs e projetos com o mesmo objetivo, mas ninguém se une. Cada espaço passando pelas mesmas dificuldades. Se a causa animal superasse essa individualidade, poderíamos tirar todos os animais da rua, mas divididos dessa forma, a gente acaba enfraquecendo", declara.
No início deste ano, a ONG foi alvo de denúncias de negligência por parte de ex-voluntários do projeto, vindo a receber o departamento de criminalística do Instituto Geral de Perícias, que constatou que o local não possuía vestígios de maus tratos. "Convidamos as pessoas para virem aqui, conhecer o espaço, e não acreditarem em tudo que é passado para elas. Existem muitas fake news por aí. Esses animais precisam de ajuda, então cada informação mal contada pode decidir se eles vão ser adotados ou morrer aqui", completa. Para auxiliar o projeto sem dar dinheiro, Aline pede doação de sacos de ração e ajuda para encontrar adotantes para os animais. Ela também se coloca à disposição de qualquer interessado que queira conversar ou conhecer mais sobre a iniciativa, podendo entrar em contato pelo número (51) 99431-9350.
 

Misturar para transformar o mundo

Misturar pessoas, furar bolhas e juntar mundos independentemente das diferenças é o que almeja a ONG Misturaí, fundada em 2018 por moradores da Vila Planetário, na capital gaúcha. A instituição, conhecida pela distribuição de quentinhas, tem o objetivo social e empreendedor de beneficiar pessoas de diferentes segmentos sociais e realiza ações concentradas nas áreas de assistência social, educação, cultura, geração de renda e sustentabilidade.
Em um momento de grandes taxas de desemprego e vulnerabilidade, o instituto acolheu mais de 3 mil pessoas atingidas ou em situação de rua. O projeto Amparaí foi o responsável por contemplar todas essas famílias. "Com a chegada da pandemia, percebemos o momento delicado e resolvemos não fechar as portas. Começamos a trabalhar com assistencialismo, não distribuindo somente quentinhas. Agora, temos um cadastro das pessoas que necessitam de ajuda e distribuímos kit alimento e higiene, vestimentas e cobertores", conta Adriana Linhares Queiroz, vice-presidente do projeto e técnica em biblioteconomia.
Além do Amparaí, a iniciativa tem outros braços de atuação através do Regeneraí, projeto piloto de desenvolvimento e sustentabilidade das comunidades; o Culturaí, que busca tornar a Vila Planetário um local de vitalização de arte e cultura; o Costuraí, que visa informar e empoderar através do desenvolvimento de habilidades manuais em artesanato e empreendedorismo; e o Gurizadaí, que atende crianças e adolescentes com trabalhos pedagógicos, atividades de reforço escolar e oficinas de música e dança.
O Misturaí conta com uma equipe de 25 pessoas e mais de 300 voluntários, mas a angariação de fundos ainda gera dificuldades. "Não recebemos nenhum auxílio por parte do governo, então buscamos cada vez mais apoio. Até hoje, tudo o que fizemos foi através de ajudas. Janeiro acaba sendo o pior mês", expõe. Para se voluntariar, é necessário acessar a página do Instagram (@misturaipoa) e se inscrever pelo formulário ou doar pelo apoia.se/misturai.
Para Adriana, a época de Natal é onde as pessoas mais se comovem devido ao espírito natalino, mas, ao passar o feriado festivo, a queda nas contribuições é brusca. "Crescemos em dezembro, mas em janeiro começa uma luta constante para atender todas as pessoas. Penso que fazemos diferença com um pouquinho de cada um. Não é uma grande ação que muda a vida das pessoas, mas são as pequenas que impactam as vidas. Vemos que um simples café da manhã faz toda diferença porque, às vezes, é a única refeição que fazem no dia", relata a vice-presidente.
No momento, a ONG não possui uma sede própria, mas são feitas campanhas para adquirir o valor do aluguel. "Este ano, estamos promovendo a Quentinha Natalina Solidária por R$ 25,00. Também é o segundo ano que apadrinhamos as cartinhas de Natal das crianças da comunidade. Precisamos de mais pessoas para somar e construir um mundo melhor. Não é fácil, mas não vamos parar", garante.
 

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