Mauro Belo Schneider e Pâmela Maidana

Pandemia fez com que as pessoas olhassem para os empreendimentos à sua volta

Empreendedores crescem com o despertar para o consumo local

Mauro Belo Schneider e Pâmela Maidana

Pandemia fez com que as pessoas olhassem para os empreendimentos à sua volta

Foi inevitável. Desde o início da pandemia, todo mundo mudou hábitos. O comércio fechado, por exemplo, fez com que as pessoas olhassem mais para os vizinhos e se surpreendessem positivamente. Teve gente que descobriu que a poucos passos de casa havia padeiros incríveis, boleiras extraordinárias, artesãs de mão cheia e cabeleireiros talentosos. Começou, assim, o despertar para o consumo local.

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Foi inevitável. Desde o início da pandemia, todo mundo mudou hábitos. O comércio fechado, por exemplo, fez com que as pessoas olhassem mais para os vizinhos e se surpreendessem positivamente. Teve gente que descobriu que a poucos passos de casa havia padeiros incríveis, boleiras extraordinárias, artesãs de mão cheia e cabeleireiros talentosos. Começou, assim, o despertar para o consumo local.
A nutricionista Lucila Araújo Torres, dona do ateliê de pães, bolos e doces Pecado dos Deuses, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, percebe esse novo comportamento. "Antes, o público gostava e podia ir até o empreendimento tomar aquele cafezinho e ver quem estava por trás do negócio. Agora, no online, a busca segue sendo pela qualidade, mas aliada à praticidade", entende ela.
O prático que Lucila se refere esteve sempre ali, mas, com a velocidade do dia a dia, passava despercebido. Sair cedo para o trabalho do outro lado da cidade, emendar no curso de línguas no canto oposto e seguir para a academia no meio do caminho fazia com que os indivíduos pouco vivessem os arredores de suas moradias.
Acompanhando os decretos governamentais de abre e fecha e vendo as luzes das residências mais acesas à sua volta, Lucila apostou na venda de porta em porta em meio à pandemia do coronavírus. "Como é um negócio pequeno, a primeira decisão foi investir no atendimento daqueles que já eram clientes. E a maior parte era formada por vizinhos. Muitos continuavam sendo atendidos no sistema take away, mas outros estavam deixando de consumir com medo de atravessar a rua", relata a empreendedora.
E se os moradores se surpreenderam com a quantidade de empreendedores em seu entorno, os empreendedores se surpreenderam com o poder de influência da vizinhança. No Pecado dos Deuses, por exemplo, o boca a boca e as postagens espontâneas nas redes sociais fizeram Lucila enfrentar a crise de cabeça erguida. "Quem estava em home office recebendo os produtos em casa recém-saídos do forno começou a consumir mais e a nos divulgar. A vizinhança que não conhecia passou a pedir também e, aos poucos, ultrapassamos os limites da nossa querida Cidade Baixa", celebra Lucila.
O Pecado dos Deuses tem ponto fixo há quatro anos e uma de suas principais fontes de renda vinha de eventos e de parcerias com cerimonialistas de casamentos. O local é muito procurado, ainda, por pessoas celíacas ou que tenham alguma intolerância. Apesar dos obstáculos, que seguem sendo impostos à humanidade pela situação da saúde, Lucila se sente acolhida para seguir em frente. "Os clientes desenvolveram um relacionamento afetivo com o ateliê. São fiéis, conhecem a nossa história. É um carinho muito grande."

Bilhetinhos por baixo da porta para vender pães

Os amigos Bárbara Martins, 28 anos, e Leonardo Nogueira, 31, deixam os vizinhos do prédio onde moram, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, com água na boca devido ao cheiro que sai de seu apartamento. Recentemente, ela ficou desempregada e ele teve sua bolsa de doutorado encerrada. Resultado: criaram a padaria Padoca Botânica e tornaram a vida de quem mora perto mais saborosa. Como ação de marketing, passaram a enviar bilhetinhos por baixo da porta.
O início despretensioso do negócio, na verdade, foi em 2019, quando Leonardo vendia os pães artesanais para conhecidos próximos. No Dia das Mães deste ano, em meio à Covid-19, o desafio foi encarado de forma séria. "Perguntaram se eu aceitaria encomenda de algumas tortas para esta data em família. Foi o pontapé que precisávamos. Bolamos um cardápio e jogamos nas redes, nos perfis pessoais. Tivemos várias encomendas e foi um sucesso", conta Leonardo.
Hoje, alguns dos vizinhos são clientes assíduos, colocando o conceito do consumo local em prática. A senhora que mora ao lado compra toda semana. "A pandemia ajudou a acelerar essa consciência nas pessoas. Estamos mais preocupados com o que consumimos, de onde vem e quem faz. Não só a comida, mas as roupas e etc." Leonardo entende que os clientes passaram a enxergar quem está por trás dos produtos. "A comida da prateleira do supermercado não tem isso, ela não foi feita especialmente para você, foi feita para quem quiser ou puder comprar. As pessoas percebem e valorizam esse carinho", destaca. Após a pandemia, o sonho da dupla é ter um espaço físico para a Padoca. Para isso, buscam investidores.
 

Preferência por consumir o que está próximo deve ficar no pós-pandemia

Thiana Pinto, do projeto Poa na Rua e do aplicativo Apoia Local, acredita que a nova mentalidade de consumo local deve permanecer no pós-pandemia. "Conseguimos enxergar o que está acontecendo. Um monte de loja fechada, de gente precisando de ajuda. Há quem tenha perdido o emprego e tudo. Então, acho que só vai crescer. É um comportamento mundial, um novo momento que vem aí e que vai ser lindo", interpreta. 
A empreendedora participou, recentemente, de um episódio do podcast do GeraçãoE (que já está disponível nos players de áudio). O app dela mostra os negócios que funcionam próximo às pessoas, aquecendo a economia de ruas e bairros.
Thiana considera, inclusive, que o consumo local traz vantagens que vão além da questão financeira às comunidades. "Temos que estar juntos numa praça, por exemplo, porque onde tem gente, tem segurança. Temos que tomar os espaços públicos, as praças, os cafés, os bares, ir para as feiras. Isso cria um senso de comunidade, tu sentes que faz parte daquilo ali", expõe.
O processo, segundo ela, é uma maturidade mental, de as pessoas entenderem a importância disso. Saber que se comprar do pequeno pode até gastar mais, porém, trará uma série de benefícios e praticidade.
"Isso não acontece da noite para o dia, leva tempo, mas é possível. Para mudar, é necessário agir de forma prática. Uma coisa é falar 'apoiem, apoiem', outra coisa é tornar isso real. Primeiro, é preciso conhecer quem está na nossa volta", pontua a empreendedora.
 

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