Mauro Belo Schneider e Vitorya Paulo

De colégios tradicionais a faculdades e professores particulares: como cada etapa do ensino se adapta às aulas a distância

Seria o boom do e-learning?

Mauro Belo Schneider e Vitorya Paulo

De colégios tradicionais a faculdades e professores particulares: como cada etapa do ensino se adapta às aulas a distância

Devido à incerteza de quando os alunos poderão voltar a conviver com os colegas, por conta do contágio do novo coronavírus, várias escolas particulares de Porto Alegre decidiram dar continuidade ao calendário letivo de forma on-line. Estudantes têm acesso a transmissões ao vivo feitas por seus professores, materiais gravados e lições enviadas por e-mail. Há quem diga que o mundo vive o boom do e-learning, uma cultura que, inclusive, pode permanecer até certo nível depois que a rotina for retomada.

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Devido à incerteza de quando os alunos poderão voltar a conviver com os colegas, por conta do contágio do novo coronavírus, várias escolas particulares de Porto Alegre decidiram dar continuidade ao calendário letivo de forma on-line. Estudantes têm acesso a transmissões ao vivo feitas por seus professores, materiais gravados e lições enviadas por e-mail. Há quem diga que o mundo vive o boom do e-learning, uma cultura que, inclusive, pode permanecer até certo nível depois que a rotina for retomada.
No colégio Farroupilha, no bairro Três Figueiras, os estudantes recebem, semanalmente, um roteiro de estudos para cada componente curricular de sua série ou ano. O coordenador do Ensino Médio, Cristiano Silva dos Santos, diz que a escola vinha testando ferramentas digitais, o que facilitou a transição. "O colégio já adotava a plataforma do Google e os professores utilizavam a ferramenta Google Sala de Aula nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Dessa forma, foi mais fácil adaptar-se, pois o ambiente já era de domínio e fazia parte da rotina de educadores e estudantes", detalha.
Arquivo Pessoal/Divulgação/JC
Um dos grandes obstáculos do trabalho a distância está no engajamento dos alunos. Se manter a atenção no ambiente de estudos não é tarefa fácil, quando eles estão na comodidade do lar isso pode ser ainda mais desafiador. Porém, segundo Cristiano, o interesse das crianças e dos jovens pela tecnologia ajuda nesse processo. "Temos que manter atividades que despertem a curiosidade e monitorar dúvidas e entregas. A cada semana, temos percebido que há motivação e um grande comprometimento", garante.
Para Cristiano, que também é mestre em Matemática, a pandemia tem gerado aprendizado para todos. Ele acredita que as plataformas de e-learning podem contribuir muito para atender às diferentes modalidades de aprendizagem, mas faz ressalvas. "De forma alguma substituirão, na Educação Básica, aquilo que é fundamental: se desenvolver na troca com o outro, na interação com professores e com os pares", considera.

Estácio transmite quase 15 mil aulas por semana

Além do Ensino Básico, a pandemia afetou os segmentos de graduação e pós-graduação. A Estácio, uma das instituições referência em ensino a distância no Brasil há 10 anos, com 41 polos no Rio Grande do Sul, usou de sua experiência para adaptar as aulas presenciais rapidamente.
O foco foi garantir a continuidade acadêmica, a saúde e o bem-estar dos alunos, professores e colaboradores. "Essa é uma situação excepcional e de transição até que tenhamos retorno da normalidade", diz a diretora nacional de Ensino da Estácio, Juliana Matos.
A faculdade, que tem unidade no Centro Histórico de Porto Alegre, está transmitindo as lições ao vivo pela internet, totalizando quase 15 mil aulas por semana para atender os 300 mil alunos da modalidade presencial. A experiência foi classificada como ótima ou muito boa por cerca de 80% do público, conforme a instituição.
"É preciso deixar claro que não é a oferta dos cursos do nosso portfólio EaD. É uma solução diferente, temporária, uma rápida resposta à crise. O mesmo professor está igualmente escalado para a aula, no mesmo horário, com o mesmo conteúdo. Só a sala de aula é diferente. Há espaço para chat, dúvidas, discussões e toda a interação possível, e essas aulas ficam gravadas para futuras consultas", detalha Juliana.
Para que todos os estudantes tenham acesso aos vídeos, a Estácio fechou parceria com operadoras de telefonia para oferecer pacotes e planos de dados com condições diferenciadas para os alunos. Além disso, foi criado um canal de comunicação para identificar quem precisa de atenção ou suporte adicional.
"Sabemos que o isolamento social pode ser um grande desafio. Para tornar esses dias mais proveitosos e cheios de conhecimento, estamos disponibilizando, gratuitamente, para o público em geral cursos para esse período de quarentena. Também montamos uma solução de vestibular on-line", conta.
A Estácio, que usa uma ferramenta da Microsoft, o app Teams, acredita que o momento será enriquecedor para a educação e mostrará ainda mais a importância do comprometimento do estudante em seu desenvolvimento pessoal. "Não existe distância quando nosso aluno interage e participa ativamente."

Redes municipal e estadual se adaptam com limitações

Com o decreto que suspende as aulas presenciais nas redes municipal e estadual, os professores ajustaram os planos de ensino para conter os prejuízos na educação. O diretor do Departamento de Educação da Secretaria Estadual de Educação (Seduc), Roberval Angelo Furtado, explica que as escolas construíram a modalidade de aulas programadas. "Não é ensino a distância, porque esse pressupõe regulamento, plataforma e formação específicos", frisa.
Desde o dia 19 de março, os professores propuseram atividades com conteúdos já trabalhados em sala de aula. Com os recursos que cada instituição dispõe, estão mantendo contato com os alunos de forma virtual. "Foi um processo colaborativo do corpo docente. Cada escola, das 30 coordenadorias regionais, elaborou um plano de ação", explica Roberval. Essas atividades, segundo o diretor, estão valendo como período letivo. "Sabemos que não supre a relação entre professor e aluno. A qualidade não é a mesma. Mas não podemos deixar o aluno sem vínculo com a escola", explica.
Já na rede municipal de ensino, a orientação é que o trabalho seja remoto. A Secretaria de Educação da Capital (Smed) está construindo um sistema virtual de trabalho, porém, conforme informou a assessoria de imprensa, ainda não há data definida para ser lançado. Diante dessa situação, algumas escolas estão propondo diferentes formas de manter contato com alunos e familiares, como é o caso da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Humaitá.
A diretora Gabriele Soares de Abreu diz que a instituição está completando 25 anos em 2020 e que algumas atividades comemorativas estavam programadas. Porém, com a pandemia, foram ajustadas. "Temos bastante engajamento na nossa página do Facebook, então aproveitamos para mobilizar a equipe em geral. Estamos postando, diariamente, vídeos lúdicos com contação de histórias e músicas", detalha. Assim, para ela, o contato com a comunidade e com as 104 crianças matriculadas na escola não se perde.
 

Unificado prevê que não haverá mais educação sem tecnologia

No Unificado, as aulas foram suspensas em um dia e, no seguinte, já estavam adaptadas ao formato on-line para as turmas do 3º ano do Ensino Médio e de preparação para o vestibular do curso Extensivo e de Medicina. O 1º e o 2º anos aguardaram a publicação do parecer do Conselho Estadual de Educação, que definia as condições para validação dos estudos domiciliares.
A escola está usando três ferramentas neste momento: o Pró-Unificado, desenvolvida a partir do Pró-Enem, o Google Sala de Aula e o Google Meet. "Nesta situação de anormalidade, na necessidade de manter os estudantes em processo de aprendizagem e não desperdiçar o tempo nem o ano letivo, é a alternativa viável. A longo prazo, pensando-se como Educação Básica, que pressupõe não só a entrega de conteúdos, mas também o desenvolvimento de diversas habilidades pessoais para o crescimento como sujeitos e cidadãos, a aula presencial, o inter-relacionamento com outros jovens e a mediação de professores é fundamental", considera Rubem Corso, diretor-geral do Unificado.
"Nada substitui o contato humano, especialmente nas faixas etárias da infância e da adolescência, quando valores e competências socioemocionais estão em formação", completa.
Para Rubem, ao terminar o período de afastamento, professores e estudantes que retornarem para as salas de aula terão incorporado o uso da tecnologia de uma forma que não permite mais pensar a educação sem ela.
Isso vai possibilitar rever o desenvolvimento de projetos associando a tecnologia de uma forma muito mais consistente do que se considerava até hoje.
 

Leonardo da Vinci tem atividades até o 3º ano do Ensino Médio

O Colégio Leonardo da Vinci, que tem duas unidades em Porto Alegre, apressou suas estratégias digitais por conta da pandemia. Segundo a diretora Márcia Andréa Schmidt da Silva, o uso dos recursos virtuais ocorria lenta e gradualmente antes da Covid-19.
"A celeridade provocou uma adaptação ao novo espaço da sala de aula, agora em ambiente virtual, e aos recursos para o desenvolvimento de novas metodologias e dos novos papéis que a escola passa a desempenhar. No afã de não abandonarmos nosso papel, de mantermos nossos jovens próximo dos estudos e por valorizarmos a educação escolar, buscamos adequação à realidade que está posta", diz Márcia.
A escola criou salas virtuais para professores e alunos da Educação Infantil até o 3º ano do Ensino Médio. "Precisamos lidar com um perigo iminente, com as dificuldades na reorganização das rotinas, com o distanciamento social e, ainda, conhecermos ferramentas que antes não utilizávamos ou usávamos somente para jogar ou nos relacionar. Corremos em busca de uma nova ética para o ambiente escolar, construído no ciberespaço."
A escola, que utiliza os recursos da plataforma Google for Education, deve, no futuro, misturar mais a experiência física com a virtual. "Em algum momento, teremos que refletir sobre as consequências da ausência do convívio em ambiente real. Precisaremos criar uma estética para esse novo modo de conceber o ensino escolar. Novos planos político-pedagógicos surgirão desta experiência, pois a veloz adaptação provocará o nascimento de uma outra concepção de espaço escolar, outro professor e outra escola, que poderá mesclar seus recursos", entende. Para Márcia, os colégios não estavam totalmente preparados para essa nova realidade, mas a educação se transforma.
 

Cinco ferramentas gratuitas para facilitar o EaD durante a quarentena

1. Zoom
O Zoom é um software de videoconferências. Foi criado para ser utilizado em cursos e treinamentos on-line, assim como demonstrações e guias em vídeos e encontros virtuais. O aplicativo permite até 100 usuários em vídeo na mesma chamada, e até 10 mil usuários com permissão exclusiva de visualização.
2. Google Sala de Aula
A sala de aula virtual do Google: esse é o Classroom. O aplicativo permite anexar atividades e materiais em PDF, criar perguntas rápidas, entre outras funções. Além de ser compatível com dispositivos Android e iOS, o serviço está disponível na web como site, com funcionamento parecido ao app.
3. Skype
Mais antigo e mundialmente conhecido, o Skype continua sendo uma boa alternativa para chamadas de vídeo e áudio. Além disso, também é possível conversar através de texto e compartilhar a própria tela do computador, fazendo com que todos vejam o mesmo conteúdo em tempo real.
4. WhatsApp
Talvez o aplicativo de conversas mais popular no mundo todo, o WhatsApp se apresenta como uma solução simples para além da troca de mensagens cotidianas. Nele, é possível fazer chamadas de áudio e vídeo, além de compartilhar imagens, vídeos e documentos de maneira rápida e fácil.
5. Slack
Um espaço de colaboração que reúne as pessoas, as informações e as ferramentas certas para fazer um trabalho: é assim que se apresenta o Slack. Para além das aulas, é possível utilizar o dispositivo para organizar a rotina de trabalho com toda a equipe de uma escola, por exemplo, pois é um software pensado para os ambientes empresariais. É compatível na versão web, Android e iOS.
 

Mauro Belo Schneider e Vitorya Paulo 

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