Isadora Jacoby

O fazer manual desperta nova experiência de compra e venda

As mãos que transformam a maneira de consumir

Isadora Jacoby

O fazer manual desperta nova experiência de compra e venda

O consumo está, cada vez mais, pautado pela experiência. Saber a origem, quem produz e a intenção por trás de cada produto são aspectos que norteiam os consumidores na hora da compra. A consequência disso é o fortalecimento dos negócios que têm no feito à mão a sua essência. A jornalista Laryssa Araujo, 29 anos, encontrou na cerâmica uma maneira de tornar sua criatividade palpável. "Sempre quis me envolver com algo que fosse físico, que pudesse tocar. Por acaso, estava olhando o Instagram e tinha uma menina que fazia. Na hora, percebi que era aquilo que eu queria." Foi assim que nasceu, em 2014, a Lavanda, marca de cerâmicas artesanais.

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O consumo está, cada vez mais, pautado pela experiência. Saber a origem, quem produz e a intenção por trás de cada produto são aspectos que norteiam os consumidores na hora da compra. A consequência disso é o fortalecimento dos negócios que têm no feito à mão a sua essência. A jornalista Laryssa Araujo, 29 anos, encontrou na cerâmica uma maneira de tornar sua criatividade palpável. "Sempre quis me envolver com algo que fosse físico, que pudesse tocar. Por acaso, estava olhando o Instagram e tinha uma menina que fazia. Na hora, percebi que era aquilo que eu queria." Foi assim que nasceu, em 2014, a Lavanda, marca de cerâmicas artesanais.
Para aprender a técnica, a empreendedora buscou um curso em um atelier de Porto Alegre e complementou o seu aprendizado no YouTube. Hoje, além de vendas das peças, ela também ministra cursos de cerâmica que duram dois encontros e custam R$ 325,00. "A cerâmica é um trabalho que não precisa de uma qualificação acadêmica. É prática, é sentar e fazer. E foi por isso que eu comecei a dar aula", explica. Do momento em que foi aluna para a etapa de ser professora, ela notou uma mudança no perfil de quem buscava a atividade. "Quando comecei a dar aula, percebi que eram pessoas mais jovens. Algumas tinham interesse em seguir como um segundo trabalho, outras só por curiosidade mesmo", conta.
As oficinas funcionam, também, como um processo de educação do consumidor, acredita. "A partir do momento que você entende o processo, passa a dar valor para os produtos. Tem que ajudar a educar o público para consumir dentro dos padrões que acha justo", pondera. Mesmo tendo ensinado o seu ofício para mais de 50 alunos, Laryssa diz não encarar essas pessoas como seus concorrentes. "Por ser feita à mão, a cerâmica é muito pessoal. Não conheço ninguém que tenha trabalhos iguais. Acho que demora até ganhar uma identidade. A maioria das ceramistas que conheço são mulheres e nos ajudamos muito. Se algo dá errado, uma dá opinião para a outra. Temos uma rede muito boa", expõe.
As peças são vendidas no e-commerce (lavanda.co) e em feiras. Além dos modelos prontos, a ceramista aceita encomendas personalizadas. Os valores variam de R$ 35,00 a R$ 140,00. O processo de precificação de peças feitas à mão, por vezes, é uma questão para as artesãs e artesãos devido ao valor agregado maior, já que levam mais tempo para serem feitas e, muitas vezes, partem de uma matéria-prima mais cara. "Para fazer uma peça demoro, em média, um mês. Tem que entender que o barro tem um tempo e não tem como acelerar. Às vezes, as pessoas me pedem coisas para o mesmo dia, para a próxima semana. Mas acredito que é um processo que a gente vive mais consumista, 'fast fashion', de querer as coisas para ontem." Outro aspecto levado em consideração na hora de precificar é o investimento que fazer cerâmica exige, já que as ferramentas usadas, como o torno e o forno, custam em torno de R$ 10 mil cada. 
As vendas da Lavanda são, na maioria, para São Paulo e o fim do ano é a época mais agitada para a empreendedora. Planejar o futuro da marca é, segundo Laryssa, um dilema, já que carrega muito de sua personalidade. "Tenho ideia de coisas que quero fazer, mas não tenho planos. De um ponto de vista de planejamento de empresa, sei que é péssimo. Mas como é uma coisa que levo de um jeito instintivo, não gosto de fechar muito. Adoraria ter mais pessoas trabalhando comigo, mas não tenho ideia de ter uma fábrica, de produzir em massa, porque perde a essência do que é fazer a mão. Quanto mais o negócio cresce, menos tu colocas a mão na massa porque acaba assumindo responsabilidades administrativas. Para mim, o importante é ser a pessoa que está fazendo. Talvez me limite como empresa, mas é o que me traz satisfação. A Lavanda existe pra isso, para ser uma alegria."

Bolsas feitas a partir de retalhos de tecidos

Quando se deparou com as sobras provenientes da produção de roupas, Laura Amaral, 28 anos, sentiu-se instigada a criar peças que mudassem o destino desses retalhos. Graduada em Moda, foi durante um estágio que surgiu o questionamento. "Existia um excesso de material não usado nas produções e descartado. Aquilo me deixou muito pensativa e me comoveu. Comecei a entender que era uma realidade", conta. A partir daí, criou, em 2016, a marca Campana, na qual produz bolsas, mochilas e pochetes com retalhos.
Para colocar o plano em prática, trabalhou durante 18 meses como vendedora em uma loja para juntar o montante necessário para a compra da máquina de costura. Os primeiros tecidos vieram de uma estofaria que fica na mesma rua onde Laura mora e tem o seu atelier de trabalho.
"Comecei a negociar e a fazer uma rede de lugares que poderiam me fornecer retalhos. Conheci empresas que trabalhavam com estofamento de carro e lona de caminhão."
A produção das peças da Campana funciona por ciclos, que duram em torno de 45 dias. "Primeiro, garimpo o material. Às vezes, chega de outras cidades, em outras vou à caça. Depois, analiso quais modelos posso fazer. A partir disso, disponibilizo para venda no Instagram", detalha. Além dos itens prontos, é possível fazer encomendas, desde que respeitem o mesmo processo de trabalho. "Encomenda é complicado porque as pessoas querem coisas específicas que, provavelmente, eu não terei por ser um material de reutilização, por ele não ter linha de produção. Não é uma matéria-prima virgem que sai de fábrica, é uma matéria que já foi usada. Se a pessoa quer uma encomenda livre, eu produzo a peça. Se gostar, fica." A cada ciclo, são feitas cerca de 30 unidades, que custam de R$ 60,00 a R$ 130,00.
Encontrar um valor justo para a produção foi uma preocupação de Laura na hora de estruturar o negócio. "Quando comecei a precificar, não sabia que tinha que cobrar a energia elétrica. Fiz um cursinho com o Viver de Craft e melhorei", expõe. A empreendedora pondera a importância do produto ter um valor que contemple a sua mão de obra, mas que possa ser acessível.

Bolsas de crochê para vencer o câncer

A aproximação com o fazer à mão aconteceu em um momento turbulento da vida de Angela Rosana, 50 anos. Trabalhando como bancária há 30 anos, foi faltando apenas cinco para a sua aposentadoria que ela descobriu um câncer de mama. "Nesse momento, surgiu uma urgência de viver", relata.
Durante o tratamento, Rosana viu nas redes sociais uma sugestão de curso de crochê para iniciantes. Avaliou que seria uma boa possibilidade para passar o tempo durante a recuperação. As primeiras peças foram produzidas para seu próprio uso.
"Fui em uma loja e a moça perguntou quem tinha feito. Ela disse para deixar lá na loja para venda, enxergou como um negócio antes de mim mesma", lembra. Nasceu, asism, a Fiaparia, nome que remete a desconstrução do trabalho com fios. Para colocar o trabalho em prática, a empreendedora precisava de ajuda, já que a técnica era recente em sua vida. A ideia para solucionar essa questão veio durante uma consulta e o resultado foi mais rápido que o esperado por Rosana. "Tive um insight e coloquei um anúncio na OLX chamando pessoas para me ajudarem. Está muito na moda os quadradinhos de crochê e, com eles, dá para fazer muitas peças. Pensei que as crocheteiras poderiam produzir os quadrados e eu ficaria com a finalização da peça. Naquele minuto, foi um avalanche de mulheres que me procuraram. Sempre digo que esse foi meu primeiro dia."
Hoje, com mais de 30 crocheteiras parceiras, a Fiaparia vende bolsas, xales e toucas. Os preços dos produtos, vendidos no e-commerce da marca, variam de R$ 200,00 a R$ 300,00. Além do on-line, é possível marcar um horário para ir até o atelier, que fica na avenida Icaraí, número 1.717, sala 811.
Rosana acredita que o interesse do público pelos produtos feitos à mão é crescente. "Existe uma tendência muito forte. Fui parar nisso, justamente, por ter essa tendência. Existe uma valorização do fazer manual e o que isso transmite de afeto e de entrega."

Manifesto handmade

Os leitores mais atentos do GeraçãoE devem lembrar que, antes de repórter, fui pauta. Em dezembro de 2017, a Voa, minha marca de camisetas bordadas, fez parte de uma edição.
Quase dois anos depois, sigo na empreitada de tocar um negócio todo feito por mim. Da criação das peças à entrega, tudo passa, literalmente, pelas minhas mãos. Sei que essa é rotina de muitas empreendedoras e empreendedores. Mas quem tem nas mãos - desculpem a repetição (!) - a sua ferramenta de trabalho tem uma rotina peculiar.
O tempo de produção de uma peça, por exemplo, independe da minha vontade de acelerar: o fazer manual tem seu tempo para acontecer. Recebo questionamentos se é possível reduzir o preço do produto se feito em quantidade. A prática que se aplica nas grandes indústrias não encontra lógica no universo do handmade. Os custos e o tempo de trabalho não reduzem conforme o volume de produção.
Sinto que o que os clientes que procuram a Voa esperam é, justamente, conversar comigo. Me chamam de Isa, querem saber a minha opinião sobre a encomenda, e gostam de ver a peça sendo produzida. Isso aponta uma mudança de consumo. As pessoas, cada vez mais, gostam de saber de quem compram e de como tudo é feito. Querem identificação. E isso é transmitido em cada ponto que faço manualmente.
Essa mudança no consumo também afeta quem produz. Desde que comecei a Voa, passei a comprar mais de produtores e produtoras locais, artesanais. Comecei a valorizar muito mais os detalhes, a exclusividade e até as falhas que podem existir nos produtos feitos à mão.
Isadora Jacoby

Isadora Jacoby - repórter do GeraçãoE

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