Walex Aguirres e Ricky Marley lançaram juntos uma linha de produtos destinada para o cuidado dos cabelos dos homens Walex Aguirres e Ricky Marley lançaram juntos uma linha de produtos destinada para o cuidado dos cabelos dos homens Foto: /CLAITON DORNELLES /JC

Após boom, barbearias buscam se consolidar em novo mercado

Empreendedores buscam maneiras para seguirem competitivos em meio ao crescimento da oferta

Os homens estão mais vaidosos e investindo cada vez mais na sua aparência. No Brasil, conforme dados de 2017 da Euromonitor Internacional, entre 2011 e 2016 o faturamento da parte masculina do setor de beleza cresceu 94,4%. Esses números impulsionam o surgimento de novos negócios para atender a demanda. As barbearias, que antes eram negócios pequenos, de bairro, ganharam versões mais atraentes e se proliferaram.
Mesmo depois do surgimento de diversos empreendimentos no setor, os barbeiros Ricky Marley e Walex Aguirres acreditam que o negócio ainda é promissor. Ricky, dono da barbearia R. Marley, na Estrada Martim Félix Berta, 1.943, no bairro Rubem Berta, inaugurou, recentemente, a segunda unidade, do seu negócio na rua Raul Cauduro, 7, no bairro Alto Petrópolis, e garante que tem espaço para todos.
"Quando eu abri aqui, pensei em fechar a outra, mas o Walex me disse que eu deveria aproveitar e ficar com as duas, fazer um teste. A outra é bem perto daqui e as duas têm movimento bom", explica.
O mesmo apoio que recebeu do amigo na hora expandir o negócio é o que o empreendedor oferece para os profissionais que estão no início de suas trajetórias. "Eu incentivo todo barbeiro que vem aqui e me pede um conselho. Não me preocupo se ele vai me levar algum cliente. Sou meu próprio concorrente e percebo que tem lugar para todo mundo, que todos merecem. Chegam e perguntam se vale a pena investir em tal ponto por tanto a mais de dinheiro. Sempre tento abrir a cabeça deles, mostrar que pagar um pouco mais por determinado ponto pode alavancar lá na frente", complementa Ricky.
Walex, dono da Barbearia Nova Era, em Porto Alegre, ministra workshops para apresentar novas tendências e comportamentos aos profissionais do ramo.
"Eu vou de barbearia em barbearia vendendo a ideia. Acredito que se eu olhar no olho do profissional que está ali, vou passar quem eu sou de verdade e aí ele vai acreditar que eu posso entregar algo de bom para o trabalho dele. Aí ele pode pensar 'ah, já sei fazer um pezinho, um fade', mas não é só isso, né? É forma de se portar, é aprender a lançar tendência e não só se adaptar", acredita Walex.
Os dois se conhecem há anos. Foram sócios em uma barbearia quando estavam no começo de suas carreiras e em uma linha de produtos para cuidados masculinos.
"A amizade é muito grande entre nós dois e se estende a mais alguns barbeiros que subiram na profissão e são da nossa época. Isso faz diferença. A gente está sempre se fortalecendo e se divulgando", conta Ricky.
Sobre a linha de produtos, os barbeiros explicam que foi uma forma de se destacarem no mercado, mas encontraram barreiras que não esperavam. "Montamos a linha com a intenção de ser nosso grande negócio, mas acabamos tendo que deixar o projeto por algumas incompatibilidades. A gente vai reconstruir, temos muito a fazer", acredita Walex.
Explorar novas oportunidades dentro de um ramo é algo que exige, além de muita pesquisa de mercado, coragem. "A gente viu vantagem no boom das barbearias, não nos deu medo. Não sei se dá para dizer que é o segredo, mas a gente achou formas de lucrar e, aos poucos, dá para ir colocando em prática", justifica Ricky sobre o crescimento do negócio em meio ao grande aumento de concorrência.
O cenário do Rio Grande do Sul, no entanto, é tido como um limitador para um progresso maior. "Se a gente não estivesse aqui no Estado, certamente a visibilidade já seria maior. As atrações do eixo Rio-São Paulo vêm para workshops e quando nos conhecem, questionam onde estamos e como não aparecemos ainda. Cortar cabelo é uma arte e viver de qualquer arte não é fácil. É por isso que eu não desmereço o corre de ninguém. Tem criança que nos vê e quer ser barbeiro. Não tínhamos referências aqui quando começamos e, hoje, ver que somos referência é gratificante", garante Walex. A representatividade negra também é pauta para a dupla. "Enquanto nos olharem diferente é necessário que a gente se una. Mesmo que seja pouquinho, no comentário do story, o que der para fazer, mesmo que pequeno, é importante. Procuro me aliar e fortalecer outros barbeiros negros. Vi workshops em que menos de 30% dos palestrantes eram negros e todos os modelos, brancos. De todos os meus certificados, só um é de barbeiro negro. Aos poucos se pensa no cabelo afro. É bom a gente dar uma atenção e estar sempre trocando ideias sobre as novidades para o nosso tipo de cabelo", afirma Ricky.
O barbeiro ainda finaliza garantindo que o cenário está progredindo, mesmo que lentamente. "Fico feliz de ver nomes como Emicida, Mano Brown, Djonga, Rincón se destacando na música. As meninas também, a Karol (Conká), a Ludmilla. São referência para os menores e tento fazer isso no meu meio. O que a gente não pode é fazer vista grossa, fingir que não existe. Mas está melhorando, vai melhorar mais. O que me sangra o ouvido é quando dizem que não existe preconceito, que é coisa da nossa cabeça. Coisa da nossa cabeça é o cabelo que nos dá orgulho."

Os tradicionais pontos da Rua da Ladeira

Gelson Muniz trabalha no ramo há mais de 30 anos Gelson Muniz trabalha no ramo há mais de 30 anos Foto: /MARCO QUINTANA/JC
Vizinhos na rua General Câmara, a famosa "Rua da Ladeira", o Salão Fígaro e a Santos & Cia. Cabelo e Estética são concorrentes amigáveis. Ambos os empreendimentos possuem profissionais que atuam no ramo há décadas.
"Eu estou aqui há uns 30 anos. Desses, 13 como proprietário. O resto do tempo nos salões da volta. Está tudo bem, estamos trabalhando. Realmente aumentou muito o número de barbearias nos últimos anos. Acho que deve ser questão do desemprego, de recessão. Pensar em botar um comércio é uma saída. Sei que são muitas na cidade, mas não sei se atrapalha", pondera o proprietário da Santos & Cia., Vilmar Santos.
Tantos anos fazendo o mesmo e, de repente, estar em um mercado inflacionado não fez com que Vilmar perdesse o amor pelo negócio, nem mesmo cogitasse mudar de ramo. "É o que eu sei fazer, o que eu gosto de fazer. Não teria problema em investir de novo. Há 30 anos atrás não era assim, claro, mas sempre tem espaço para quem trabalha direitinho", explica.
Sobre a relação com a concorrência das barbearias de seu entorno, Vilmar fala com tranquilidade que o clima é de harmonia. "Todos se dão bem, todos se conhecem. Não estamos toda hora lá e eles não toda hora aqui, mas todos se conhecem, todos se cumprimentam. Até porque tu não sabe o dia de amanhã", acredita Vilmar.
Esta visão é compartilhada pelo barbeiro e supervisor do Salão Fígaro, Gelson Muniz, o Deco. "Todos os barbeiros se dão bem. Se tu sai de uma casa, tem emprego na outra. Não pode ter inimizade com ninguém se tu quer sempre trabalhar. Apesar que dificilmente um barbeiro sai dessa casa aqui. Entrar alguém aqui é sinônimo ou de alguma aposentadoria ou de alguém abandonar a profissão", conta.
Há 36 anos no mercado, Deco explica também que mesmo com o setor em constante avanço, o movimento não mudou para os salões clássicos. Ele justifica o fato pelo tempo de carreira. "Os que estão surgindo expandiram bastante, mas os tradicionais não sentiram o avanço desse modismo. São profissionais de 30 anos de mercado, compreende? Tem colega que trabalha há 48 anos na mesma cadeira."
Deco fala com orgulho sobre a história do Salão Fígaro. "Tem mais de 70 anos. É o salão mais tradicional do Centro Histórico. É uma casa formidável. Colegas muito bons. Não tem briga, nós nos tratamos como irmãos. É até meio colono o sistema. Um corta o cabelo do outro", diverte-se.
Tanto na Santos & Cia. Cabelo e Estética, quanto no Salão Fígaro, os clientes encontram um clima familiar. Crianças com o uniforme dos colégios situados no Centro Histórico, acompanhados de familiares de mais idade, formam um público que é um verdadeiro encontro de gerações.
 

Rede aposta em clima italiano como diferencial

Guilherme Machado é um dos barbeiros mais antigos da rede Guilherme Machado é um dos barbeiros mais antigos da rede Foto: /MARCELO G. RIBEIRO/JC
O conceito que remete a elementos da Itália faz com que a barbearia La Mafia demonstre uma tradição que transcende seus quase cinco anos de história. Os detalhes clássicos começam no logotipo, que remete ao estilo adotado pelos italianos até meados século XX, popularizado mundialmente por Francis Ford Coppola na trilogia O Poderoso Chefão.
Os barbeiros, aliás, costumam usar assessórios como coletes, suspensórios e sapatos, bem como camisas, gravatas e calças normalmente mais escuras. "São três anos e meio aqui na La Mafia. Acho que todo barbeiro aqui tem orgulho e se sente parte de uma família. É um estilo que dá satisfação de ter. Vou me repetir, mas não tem como não ter e não citar orgulho da empresa", diz Guilherme Machado, um dos barbeiros mais antigos da rede.
"Nós somos lançadores de tendências também. Querendo ou não, nos sentimos formadores de opinião. Nós vamos colocando algumas invenções nas redes e percebendo que o público vem pedindo para fazer porque viu lá. É uma satisfação enorme", complementa Guilherme.
A rede La Mafia tem quatro barbearias próprias e 13 franquias pelo Estado. Toda demanda de marketing, seja da matriz, filial ou franquias, passa por Marcelo Soares, o gerente do setor. "A gente tem um fluxo determinado de postagens entre story e feed. Sempre tentando passar o clima de resenha, de diversão. É um posicionamento de rede bem marcado pela familiarização do cliente, que está presente de diversas formas nas nossas barbearias", garante Marcelo.
O clima das barbearias é, para Marcelo, um dos destaques da rede. "A gente preza por um atendimento no qual a pessoa se sinta em casa e se sinta diferente. A pessoa vem para cá e fica aqui. Não é só barba e cabelo. Tem pais e filhos que vêm no sábado para jogar uma sinuca, um vídeo-game. Além disso por sermos pioneiros aqui em Porto Alegre nesse estilo temos uma credibilidade sem mesmo o cliente conhecer o barbeiro. É uma relação de confiança."
Manter o cliente próximo sempre foi uma preocupação para a marca.
"Está na veia do negócio criar uma família. Os churrascos promovidos aqui dentro aproximaram muito os sócios, os barbeiros e os clientes. Ter a nossa marca presente em bonés, adesivos em carros, faz com que a identificação aconteça também. Se cria um sentimento de união e as pessoas querem fazer parte dessa tribo", complementa Marcelo.
Premiada pela Revista Cabelos&cia, do portal UOL, como a segunda melhor barbearia do País, a La Mafia é fruto de um investimento dos sócios Jader Lewi, Aloísio Gonçalves e Lucas Siqueira, apaixonados por futebol. "O esporte está presente porque os sócios vivem muito isso. Um deles é o Aloísio, conhecido como Boi Bandido, que joga no Meizhou Meixian Techand da China e Lucas Siqueira que também vive muito o esporte. O relacionamento deles com muitos profissionais do esporte tornou meio inevitável essa influência através das camisas espalhadas e dos eventos para assistir jogos aqui."
 
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