Texto: Isadora Jacoby

O grupo de 80 mulheres pretende aquecer a economia do bairro

Empreendedoras da Restinga se unem para alavancar os negócios

Texto: Isadora Jacoby

O grupo de 80 mulheres pretende aquecer a economia do bairro

Um bairro pode ser uma potência econômica para o empreendedorismo local. A Restinga, localizada na Zona Sul de Porto Alegre, funciona praticamente como uma cidade à parte. Distante cerca de 20 quilômetros do Centro, o espaço onde hoje fica a Restinga foi ocupado nas décadas de 1960 e 1970, de acordo com o Centro de Pesquisa Histórica vinculado à Coordenação de Memória Cultural da Secretaria Municipal de Cultura. Com a criação do Departamento Municipal de Habitação, em 1965, moradores de regiões alagadiças consideradas insalubres foram removidos para a Vila Restinga Velha. O que encontraram por lá foi a ausência de qualquer infraestrutura. Em 1970, teve início o projeto habitacional chamado Nova Restinga. Cortado pela avenida João Antonio da Silveira, fica ao lado direito do bairro a Restinga Velha e, ao esquerdo, a Nova. Hoje, com mais de 50 mil moradores, conforme dados da prefeitura, a Restinga é o terceiro maior bairro da Capital e tem um contingente populacional três vezes maior que o estimado inicialmente. 

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Um bairro pode ser uma potência econômica para o empreendedorismo local. A Restinga, localizada na Zona Sul de Porto Alegre, funciona praticamente como uma cidade à parte. Distante cerca de 20 quilômetros do Centro, o espaço onde hoje fica a Restinga foi ocupado nas décadas de 1960 e 1970, de acordo com o Centro de Pesquisa Histórica vinculado à Coordenação de Memória Cultural da Secretaria Municipal de Cultura. Com a criação do Departamento Municipal de Habitação, em 1965, moradores de regiões alagadiças consideradas insalubres foram removidos para a Vila Restinga Velha. O que encontraram por lá foi a ausência de qualquer infraestrutura. Em 1970, teve início o projeto habitacional chamado Nova Restinga. Cortado pela avenida João Antonio da Silveira, fica ao lado direito do bairro a Restinga Velha e, ao esquerdo, a Nova. Hoje, com mais de 50 mil moradores, conforme dados da prefeitura, a Restinga é o terceiro maior bairro da Capital e tem um contingente populacional três vezes maior que o estimado inicialmente. 
Foi acreditando, justamente, no potencial empreendedor e consumidor dessa população que Roberta Capitão, 42 anos, protética e dona de uma clínica de odontologia desde 2004, criou o projeto Empreendedoras da Restinga. O primeiro encontro do grupo aconteceu no fim de maio e contou com a presença de 80 mulheres que estão à frente dos mais diversos negócios. "Todo mundo diz que as pessoas estão sem dinheiro para gastar. Mas, em compensação, o shopping está cheio, elas pagam R$ 12,00  de estacionamento e fazem as unhas a R$ 25,00. Então tem dinheiro, só que as pessoas não estão gastando aqui", acredita Roberta. 
O desejo de fortalecer o empreendedorismo da Restinga veio através da experiência de seu negócio. Ao abrir a clínica, Roberta percebeu que o preconceito com o bairro era grande e impactava na ascensão do local. "Começamos com um marketing muito ativo, e as pessoas achavam legal, gostavam do preço. Quando íamos agendar e passávamos o endereço, a pessoa nem respondia mais. É um preconceito bem forte." Esse foi um dos motivos que fez Roberta inaugurar, em 2018, a segunda unidade da clínica DentoSul, desta vez, no bairro Hípica. 
Mas não bastava reconhecer a potencialidade do bairro sozinha. Era preciso que outras pessoas também acreditassem na ideia. "Conheço muitas meninas que têm lugares maravilhosos, só que a violência nos bloqueia. Todo o estudo, todo o investimento em infraestrutura, não serve de nada, porque o bairro Restinga já impede qualquer possibilidade e curiosidade da pessoa vir conhecer." O movimento começou de maneira singela: Roberta mandou uma mensagem para cinco empreendedoras. A partir daí, a rede de contatos foi aumentando, e o projeto, tomando forma. 
LUIZA PRADO/JC
"Muitas empreendedoras não tinham WhatsApp, nem redes sociais. Fiquei pensando como elas sobrevivem sem essa divulgação. Expliquei coisas muito básicas, sobre como fazer um perfil profissional, por exemplo.'' Além disso, também foi um momento de networking, termo desconhecido por muitas participantes. "A maioria nem sabia o que era. Expliquei que era para mostrar o trabalho para outras mulheres. Nesse primeiro momento, investi tudo. Comprei fitinhas de várias cores e sacolinhas. Separei em grupos por cores para elas conversarem e trocarem cartões", relata. Mesmo com o preconceito, Roberta acredita que existem muitas vantagens de empreender em um local como a Restinga. "A Zona Sul tem uma característica de cidade de interior. Eu conheço meu paciente pelo nome. É uma interação mais humana. Em outros bairros, ninguém sabe quem tu és. Acho que esse é um diferencial, além do valor, que é muito competitivo." No entanto, para que todos consigam prosperar com os seus negócios, é preciso aquecer a economia do bairro. "A minha manutenção de aparelho é R$ 75,00, e o preço do gás é o mesmo. Então, se não começar a girar dinheiro aqui dentro, é claro que o meu serviço vai ser supérfluo se comparado com o gás." Esse fluxo, ainda, pode ser a fonte de novos empregos. "Com o aumento da demanda, vai chegar o momento que a empreendedora não vai dar conta sozinha, então vai contratar outra mulher, e, assim, vamos crescer."

Mercado aposta em linha própria como diferencial

Em todo bairro, existe um mercadinho onde os moradores buscam produtos pontuais que faltaram na hora das compras em uma rede maior. Sheila Brambila, 28 anos, proprietária do Mercado do Baixinho, sempre desejou mudar isso. Formada em Contabilidade, iniciou sua trajetória profissional cedo. "Comecei a trabalhar com 14 anos em uma empresa do bairro. Tive todo amparo profissional na minha formação. Entrei como auxiliar e saí como gerente financeira."
Foi ainda nesta empresa que conheceu o marido, Jonatas Brambila, 36 anos, com quem alimentou o desejo do negócio próprio. "Ele era supervisor, mas eu sempre dizia que tínhamos que ter algo nosso. Ficamos dois anos guardando dinheiro para empreender, estudando o que era melhor." A ideia do negócio foi inspirada na carreira dos pais, que eram donos de um mercadinho. "Meu pai já não estava aguentando mais, não tinha condições físicas de continuar."
Diante da circunstância, Sheila viu a possibilidade de abrir o próprio negócio e, ainda, ajudar a proporcionar uma vida mais tranquila para os pais. "O mercadinho era em uma garagem, e eles não iam conseguir alugar. Então disse para minha mãe que ia derrubar o lugar, fazer um prédio, pagar aluguel pelo terreno e montar um mercado diferente." Apesar de ter seguido no mesmo ramo dos pais, os caminhos que Sheila desejava seguir no empreendedorismo eram mais grandiosos. "Meu sonho era gerar empregos aqui, porque o meu primeiro emprego foi no bairro", conta Sheila, que inaugurou a primeira loja em 2014 e a segunda, em 2015. Hoje, com 17 funcionários, os sócios priorizam contratar moradores da Restinga. "Não é discriminando quem não é, mas eu quero fazer a economia girar aqui para nós", explica. 
Operando todos os dias, das 8h30min à meia-noite, Sheila acredita que o horário é um diferencial. E foi justamente pensando no público que vai às compras mais tarde que eles criaram os primeiros produtos de marca própria. "Começamos com o ketchup e a mostarda pensando no público que chega mais tarde, que quer fazer um lanche rápido, um cachorro-quente", conta Sheila, que hoje já tem sete produtos próprios a venda. A aposta na linha própria foi uma maneira de fazer a marca mais presente na rotina dos clientes. "Queria trazer isso para a Restinga porque acho muito legal. Quero estar na casa das pessoas. Quando eu vejo uma sacola nossa no lixo de alguém fico muito feliz, porque estou um pouquinho naquela casa. E a marca própria foi uma maneira de conseguirmos isso." 
Acreditando no potencial do bairro, Sheila faz parte do projeto Empreendedoras da Restinga. "Tem muita coisa boa aqui, e essa iniciativa é importante para as mulheres, porque muitas empreendem sem acreditar. O projeto dá essa segurança", acredita.
 

Credibilidade conquistada no 'boca a boca'

Devolver para o bairro um pouco das suas vivências. Esse era o desejo da psicóloga Jaqueline de Souza Fraga, 37 anos. "Meu desejo sempre foi trabalhar na área clínica e no bairro onde eu me criei", conta. Foi assim que ela começou a trabalhar como voluntária na ONG Renascer da Esperança, que abriga cerca de 300 crianças em turno inverso. A experiência fez os moradores do bairro conhecerem o seu trabalho. "Tem valor o fato de eu ser daqui, de entender que me criei aqui de uma forma muito saudável e que, hoje, posso ter me tornado uma profissional que vai contribuir para o bairro", acredita.
Há cinco anos, ela criou o Espaço Vida, local que reúne diversas especialidades focadas em crianças e adolescentes. No início, a psicóloga ainda enfrentou desconfiança. "Sentia esse preconceito. Questionavam se seria um bom trabalho. A Restinga sempre teve um rótulo de ser um bairro violento, e a ideia é mostrar que tem coisa boa e de qualidade aqui dentro", acredita. Com psicologia, psiquiatria, fonoaudiologia, psicopedagogia e nutrição, a clínica começou atendendo cinco pacientes e, hoje, conta com mais de 50. O serviço multidisciplinar atrai não somente os moradores do bairro. "Entendi que quando a gente presta um serviço de qualidade, com ética e compromisso, esse boca a boca se espalha. Então pessoas de outros bairros vêm para cá porque elas entendem que é um serviço de qualidade." 
 

Casa de chás inspirada em ambientes franceses

Acreditar que o bairro pode abrigar todos os tipos de negócio é um traço comum entre as empreendedoras da Restinga. Millene Gonçalves, 26 anos, proprietária da Casa de Chás Sabor & Arte, foi questionada por seu pai quando estava elaborando seu negócio se era válido abrir o espaço na região. "Meu pai não acreditava, mas eu disse que tínhamos que abrir porque não tinha uma cafeteria. Muitas pessoas saem daqui para comer fora, então a gente quis mostrar que aqui tem coisas boas", conta Millene, que montou o negócio na garagem dos pais.
O contato com a produção de doces começou cedo. A mãe de Millene fazia os quitutes por encomenda e ensinou à filha as receitas. "Eu tinha uns 12 anos, e ela trabalhava como doméstica, então eu recebia as encomendas. Terminei o Ensino Médio e comecei a fazer Nutrição, mas seguia recebendo as encomendas em casa." Quando concluiu a faculdade, viu que era hora de investir em um espaço para receber os clientes. A aposta no conceito de casa de chás foi inspirada nos locais franceses. "Pesquisei e vi que, na França, as cafeterias são conhecidas como casa de chás, fica mais chique. Oferecemos um chá da casa de morango com água de rosas." 
Funcionando de terça-feira a sábado, das 9h às 19h, e aos domingo, das 15h às 19h, a Casa de Chás tem, além de doces e salgados, opções para o almoço. As fatias de torta custam R$ 9,90, e a empreendedora teve cautela na hora de precificar os produtos. "Tenho que estar situada na realidade do bairro. Não adianta fazer um doce e colocar a R$ 15,00, porque eu não vou vender." O público que procura o local é do bairro, mas Millene produz doces para outras cafeterias da Capital. Além disso, ela quer oferecer, ainda neste ano, cursos de confeitaria para que outras mulheres possam fazer disso uma fonte de renda. 
Isadora Jacoby

Isadora Jacoby - repórter do GeraçãoE

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