Rejane Anele é proprietária da Don Benito cestas Rejane Anele é proprietária da Don Benito cestas Foto: /CLAITON DORNELLES/JC

Além da startup: como pequenos negócios sobrevivem por décadas

Empresas conservam, na sua origem, a personalidade dos velhos tempos e a amizade com os clientes

A Don Benito Cestas começou, em 1993, como uma loja de alimentos coloniais, oferecendo massas e congelados produzidos pelas então duas proprietárias, as irmãs Rejane e Rosângela Anele. Com o passar do tempo, o negócio ganhou uma nova roupagem, com o carro-chefe da marca: as cestas personalizadas. Qual será o segredo para se manter no mercado por décadas?
Os clientes podem comprar as cestas prontas ou montá-las a partir de itens à sua escolha - opções que vão de amanteigados até cosméticos. "Muita gente faz da montagem um evento. Há quem consiga um resultado que nem imaginávamos, e então fazemos o acabamento, que é a nossa marca registrada", comenta Rejane, que ficou responsável pelo segmento depois que a irmã, Rosângela, abriu a Don Benito eventos, voltada para o ramo gastronômico.
Em 25 anos de história, conta ela, muita coisa mudou. "Sempre buscamos novidades para manter a loja. Temos um público bem fiel, que não compra sempre, mas que, quando precisa, tem a gente como referência", relata a empreendedora, que explica, ainda, as maneiras de manter esse nicho de clientes. "A cada ano, procuramos inovar. Por exemplo, a cada Dia das Mães, ofertamos produtos diferentes nas cestas", completa.
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Outro ponto é a aposta no ambiente on-line para personalizar as vendas e dar aquela ajuda para quem nem sempre consegue ir pessoalmente ao local. "Em maio, colocamos no ar um site novo, onde é possível ver as cestas prontas. O cliente pode, então, nos ligar ou mandar mensagem via WhatsApp que fazemos a customização", explica. "Essa é uma ferramenta muito boa para o atendimento personalizado", avalia.
O volume de vendas, de acordo com ela, é uma caixinha de surpresas. Os períodos com maior saída são as datas comemorativas (Natal, Dia das Mães e Dia dos Namorados). "Não é uma coisa muito rígida. Aniversário tem todos os dias. Atendemos a empresas que presenteiam clientes especiais, departamentos de RH que presenteiam funcionários", contabiliza, acrescentando que não é fácil tocar em frente um negócio próprio.
"O que preciso fazer é me adaptar à realidade de hoje. É muito difícil desistir, principalmente quando se faz o que gosta. A gente tem que acreditar que, de alguma forma, vai acontecer alguma mudança (no cenário econômico do País)", prospecta. Quem ficaria contente em ver a perseverança de Rejane seria o pai dela, Adolfo Benito Anele, italiano que migrou para o Brasil aos 18 anos. No mesmo endereço da loja, há muitos anos, funcionava a oficina mecânica dele. "O nome do negócio foi uma forma de homenageá-lo", observa Rejane, que se emociona ao relembrar a morte do genitor, em 1996.
"Meus pais foram os nossos maiores incentivadores. Minha mãe alavancou a ideia de fazer as cestas, e o meu pai ajudava a entregá-las no início", recorda.
O próprio Benito era um empreendedor. Paralelamente à atividade como mecânico, ele começou a vender garrafões de vinho, trazidos de Farroupilha. O negócio deu tão certo que ele inaugurou o Plantão do Vinho. "Ele abria 24 horas e tinha também queijo e salame. Muitos clientes que tenho hoje vêm desse início. Têm alguns que traziam o fusquinha deles na oficina do meu pai e que prestigiam a gente em função de conhecer toda a história da família", comemora.

Toca do Disco comemora a valorização do vinil

Rogério, de 53 anos, abriu a Toca do Disco aos 24, por incentivo da mãe Rogério, de 53 anos, abriu a Toca do Disco aos 24, por incentivo da mãe Foto: /LUIZA PRADO/JC
Foi no dia 17 de agosto de 1989 que Rogério Cazzetta, então com 24 anos, abria a Toca do Disco, na rua Garibaldi, nº 1.043, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Ao lado da loja havia a Toca do Vídeo, empreendimento de locação de filmes em VHS da irmã de Rogério. Desde então, o mundo mudou bastante para as duas mídias. A loja da irmã durou até 1992, e a de Rogério - não se sabe se por paixão, sorte ou trabalho - atravessou o tempo e acaba de completar 29 anos.
"Foi uma coisa construída, teve altos e baixos, mas nunca me questionei em não ter a loja", explana ele, sobre o período de queda nas vendas motivado pelos downloads de músicas e o surgimento do CD "virgem", gravável, em meados de 2004. Formado em Educação Física, no primeiro semestre do negócio, Rogério era um rapaz de 24 anos que dava aulas desportivas pela manhã e abria a loja à tarde. O empreendimento surgiu por motivação da mãe, Sindá Gelbke Cazzeta, e dela também vieram os primeiros LPs de presente. Junto a ela, na antiga loja Pop Som, da Galeria Chaves, no Centro de Porto Alegre, foram comprados The dark side of the moon, do Pink Floyd, e Quadrophenia, do The Who. Ainda hoje figura no alto da parede, à esquerda de quem entra, a primeira placa da Toca, restaurada.
Colecionador de discos desde os 13 anos, ele tinha uma vitrolinha e ganhou a trilha sonora internacional da novela Estúpido Cupido, com Chubby Checker, Little Richard e Gene Vincent. Aí que tudo começou. Depois, vieram os vinis emprestados dos primos, com Rory Gallagher, Johnny Winters e Janis Joplin.
Parte da sua coleção também foi, de certa forma, o ponto de partida do acervo à venda, que mistura raros e contemporâneos, nacionais e internacionais e seções especiais para bandas gaúchas e o blues - uma paixão do empreendedor.
Em pleno 2018, mesmo com os serviços de streaming e acesso a todo tipo de músicas de forma digital, Rogério viu o preço do vinil entrar em alta novamente. "Têm pessoas que querem recuperar suas coleções, e muita gente jovem que está descobrindo o disco de vinil através de pais, tios, ou que ganhou aparelhos de som dos avós", relata.
Esse movimento de transição ele conhece de perto, o suficiente para afirmar que o disco ainda terá vida longa. "No início dos anos 2000, as pessoas se desfaziam dos seus vinis para substituir por CD. Hoje, ao contrário, as pessoas vêm trocar pilhas de CDs por vinil." Rogério atenta para o fato de que artistas têm lançado seus álbuns também em fitas K7 atualmente.
Ao longo das quase três décadas subindo e baixando a grade da sala comercial, Rogério se orgulha das pessoas que a música uniu para perto de si. "Tenho vários clientes que acabaram virando amigos, e isso é uma das coisas que mais me traz felicidade, pois são essas pessoas que ajudaram a fazer a loja", considera.

Lojas Empo faz 35 anos com foco em atendimento

Eduardo Garcia e a esposa Isabel comandam o Empo Eduardo Garcia e a esposa Isabel comandam o Empo Foto: //DIVULGAÇÃO/JC
Localizada em um ponto estratégico da Capital, na avenida Assis Brasil, a loja de departamentos Empo está, atualmente, sob o comando da terceira geração, nas mãos de Eduardo Garcia e da esposa, Isabel. O empresário detalha algumas novidades para o negócio, que, neste ano, completa 35 anos de história, tais como o relançamento de marcas próprias e a busca por parceiros para ampliar a oferta de opções aos clientes.
"Já tivemos marcas próprias, mas, depois, achamos que não valia a pena por causa da competitividade com as importações. Vamos reativar essa parte. Estamos, também, com uma nova ação, promovendo uma repaginada na loja. Ou seja, redimensionando o espaço. Por isso, procuramos parcerias de cafeterias e barber shops", explica Eduardo.
Mesmo com as mudanças ocorridas nestas mais de três décadas, ele garante que a principal qualidade do Empo continua sendo o atendimento.
"O atendimento é a nossa bandeira de divulgação. Trabalhamos com vendedores comissionados, alguns deles desde o início com a gente. Os clientes também passam por gerações. Atendemos vó, mãe e neta", relata.
Hoje, o Empo ocupa o andar térreo de um prédio de quatro andares (os demais são sublocados). Mas, em 1983, quando foi inaugurado pelo avô de Eduardo, a magazine, construída no lugar onde antes funcionava um antigo cinema, ocupava todos os pisos. "Eram quatro sócios que buscaram inspirações no exterior. Tinha três andares com as lojas e um de administrativo, além de escada rolante e lancheria. Era a realização de um sonho", lembra.
O Empo chegou a ter filiais espalhadas pelo Rio Grande do Sul, no entanto, o administrador observa que as estruturas eram mais enxutas que a da matriz, e a ideia não deu certo. A última loja, em Cachoeirinha, fechou em 2006. Departamentos como de tecidos e sapatos também foram eliminados, no que Eduardo avalia como readequação de mercados. O empresário classifica, ainda, a internet como uma aliada nas vendas e utiliza páginas como Instagram e Facebook para ampliar a exposição do negócio.
 

Especialistas dão dicas para ultrapassar os cinco anos

 Alessandra afirma que empreendedores precisam de planejamento Alessandra afirma que empreendedores precisam de planejamento Foto: /SEBRAE/DIVULGAÇÃO/JC
Muitas empresas não passam dos cinco anos no País, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em levantamento divulgado em 2017. Para a coordenadora do Atendimento do Sebrae-RS na Região Metropolitana, Alessandra Santos Faria, existem inúmeros motivos que influenciam no fechamento de uma empresa, mas a falta de planejamento costuma ser um dos principais para essa baixa.
"A falta de planejamento antes da abertura da empresa e durante a execução de suas atividades faz com que não se tenha as informações básicas para gerir a empresa, pois não se exercita a análise constante do negócio, olhando para os prismas de mercado, controles financeiros, marketing, operação e inovação", constata Alessandra.
Para ela, sem análise e controle constantes desses cinco fatores básicos do negócio, "dificilmente, uma empresa conseguirá se manter no formato de economia que vivemos hoje e para o qual estamos caminhando".
A especialista enfatiza que não existe receita para uma empresa durar no mercado, mas que é necessário estar em constante reinvenção. "Ou seja, a inovação deve ser um tema recorrente nas empresas, para que seu público se mantenha sempre interessado pelo que está sendo ofertado", orienta.
O coordenador de projetos de varejo do Sebrae, Fabiano Zortea, acrescenta que as pessoas não vão mais às lojas físicas porque têm essa necessidade, mas porque querem. "Para que queiram ir, é preciso que tenham uma experiência melhor que a oferecida se comprarem pela internet. O ponto de venda não é só mais a troca do produto pelo dinheiro", pontua.
Um exemplo de modernização nas empresas mais antigas tem sido o meio digital, que é outro argumento trazido por Fabiano. "A presença digital é um aspecto fundamental. Não significa que todos precisam vender pela internet, mas o consumidor está olhando um negócio de varejo que pode ser acessado tanto pelo celular quanto pessoalmente. Ambos precisam ter interação", aconselha.
 
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